Kibou
A porta do quarto se abre. Shun larga o livro na escrivaninha e afasta um
pouco a cadeira.
“Seiya, já voltou?”
Seiya entra no quarto, fechando a porta atrás.
“Olá, Shun”
“Você foi falar com a Marin-san?”
Seiya afirma com a cabeça e senta na cama, desanimado.
“É como eu esperava, ela não é minha irmã. Moses havia se enganado
quanto a isso.”
Shun suspira.
“O tempo dirá onde ela está, você verá.”
“Mas quanto, Shun, quanto? Já faz mais de um ano que a procuro e até
agora não saí do ponto de partida. A fundação já tentou e também não
obteve sucesso. Ela, que conseguiu localizar todos os cem órfãos!”
“Mesmo assim, você vai encontra-la, mais cedo ou mais tarde. Ela não
pode desaparecer num simples toque de mágica não é?”
“Você acha que ela está morta?”
Shun se surpreende com a direta de Seiya tão assustadora.
“Eu realmente espero que não, Seiya. É a última coisa que desejaria
a você. Você não está começando a acreditar nisso, não é?”
“Sei que não deveria...”
“Você não tem nenhuma prova disso, Seiya. Ela pode estar em qualquer
lugar do mundo agora. São 5 bilhões de vidas e muitas nós nem sabemos onde
estão. Existem tantos lugares onde as vidas vem e vão sem que ninguém
perceba...”
“É, você tem razão.”
Seiya se levanta da cama e dirige-se à porta.
“Eu vou dormir um pouco agora, estou cansado.”
Shun observa Seiya sair do quarto e desiste de ler o livro com a tristeza
que o invadira.
Após várias tentativas, Seiya se convence de que não adianta dormir e
se dirige à praia pra tentar refrescar a cabeça. A saudade de Seika
apertava-lhe o coração e não deixava que ele pudesse, nem que fosse por um
momento, desfrutar da suave brisa que a praia trazia naquela tarde. Ele se senta
na areia abraçando as pernas e afundando o rosto entre os joelhos.
Desde pequeno ele conhecia aquelas areias. Elas lhe trouxeram conforto e
refúgio quando ele queria se afastar da escola, das batalhas. Elas também lhe
trouxeram alegrias ao lado da irmã desaparecida. Agora sua alma pesava ao vê-las.
“Seika Neesan... Se eu pudesse vê-la mais uma vez que fosse... Nem que
seja no meu último segundo de minha vida...”
Seiya se levanta, olhando para as ondas calmas enquanto as lágrimas
umedeciam-lhe o rosto.
“Ficar aqui não vai adiantar de nada.”
Seiya não se vira, conhecia o dono daquela voz.
“O que quer que eu faça, então?”
“Qualquer coisa menos ficar aí feito um bebê chorão”
“Ikki.”
Seiya olha para o Fênix ao seu lado, que também compartilhava a
paisagem.
“Você nem parece o mesmo, Seiya.”
Ikki olha pra ele.
“Se você não é capaz de fazer melhor, é mesmo um incompetente.”
“Ikki, está dizendo que não estou me esforçando?!”
“Estou.”
“Escute, não é possível fazer muita coisa quando existem tão poucas
chances!”
“Esse é o ponto. Quando as chances são poucas, você deve fazer de
tudo, Seiya. Não existe outra maneira de conseguir o que deseja de outra forma,
você esqueceu?”
Seiya pára por uns instantes, mas depois volta a olhar para a areia sob
os seus pés.
“O fato é que eu nem sei mesmo se essas chances existem. Quanto mais o
tempo passa, mais eu me convenço de que elas não existem.”
“Mas elas podem existir ainda. Você deveria dar graças a Deus pela
chance delas existirem. Seria assim se existisse uma chance de Esmeralda estar
viva. Se eu a estivesse procurando, sem saber sequer se ela estivesse viva ou não,
estaria batendo de porta em porta, procurando por ela. Não que eu esteja
dizendo pra você o fazer, mas é uma maneira de encarar as coisas”
“De que adianta? Existem tantas casas no mundo. Se minha vida consiste
apenas em guerras e em períodos entre guerras, de que adianta sair pelo mundo
se eu não consigo alcançar nem meio por cento dele?”
“Meio por cento que seja, eram 88 cavaleiros, você não teve medo de
nenhum. Por que temer agora? Você é mesmo um idiota.”
“Ikki...”
“Existe outra coisa. Você está esquecendo de uma coisa importantíssima.
O torneio Galáctico não teve vencedores. Mas mesmo assim, a Saori está
tentando, com todos os recursos que possui, encontrar a sua irmã. Ela não está
fazendo isso porque vocês fizeram um acordo. Todos nós, não estamos aqui
simplesmente por estar. Todos temos um objetivo de vida e lutamos por ele. Mas
ele não vai lhe servir de nada se não souber colocar o que é mais importante
na sua vida em primeiro lugar.”
Ikki caminha em direção ao muro da praia tranqüilamente.
“Ikki!”
“A Saori me pediu pra te chamar. Ela quer falar com você na sala dela
na mansão.”
Seiya sai correndo atrás dele.
“Ei, Ikki, espere, eu...”
Ikki olha sorrindo pra ele:
“Não esqueça que seremos sempre seus amigos.”
Seiya pára e observa o Fênix usar o cosmos para desaparecer mais uma
vez, como sempre fez.
“Olá, Tatsumi. Ikki me avisou que a Saori queria me ver.”
“Ah, sim, Seiya, a senhorita está lá em cima na sala.”
Seiya sobe as escadas, ainda pensando nas palavras de Ikki. ‘Saber
colocar o que é mais importante na minha vida em primeiro lugar...’
Seiya abre a porta, distraído com os pensamentos.
“Saori-san, você queria...”
Nem deu tempo dele terminar a frase, todos surgem na sua frente.
“SURPRESA!!!”
“Mas...”
Hyoga ri da cara de surpresa de Seiya.
“Hehehe, você esqueceu que hoje é o seu aniversário, Seiya?”
Shiryu cruza os braços, sorrindo abertamente.
“Eu não disse que seria fácil engana-lo, mesmo hoje?”
Shun olha pra ele e afirma:
“É, Shiryu, você tinha toda a razão!”
Saori ri, segurando o bolo:
“Feliz aniversário, Seiya!”
Seiya sorri de verdade pela primeira vez no dia. É mesmo, era o aniversário
dele. Estava tão magoado com a saudade de Seika que acabou esquecendo disso.
“É mesmo, eu nem estava lembrando!”
Shiryu entrega-lhe um pequeno pacote embrulhado.
“Este é presente de todos nós, amigo.”
Seiya abre o pacote, revelando um presente singelo, mas que dizia tudo.
Era um chaveiro que trazia os kanji de kibou (esperança). Seiya sente um nó na
garganta.
“É verdade. Como é que eu não fui perceber antes?”
Ele observa a sala, inteira decorada para a ocasião especial. Então ele
pôde esquecer a tristeza por um momento e relaxar. Ele estava entre pessoas
amadas que o queriam bem. E Seiya alegra-se como era a sua maneira de ser.
“Então, gente, esse bolo é pra olhar ou pra comer?”
*FIM*
Obs:
Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.