A Dívida de um Condenado

 

 

            Shun atravessou o salão do mestre, que atualmente não possuía um ocupante, vestindo sua sagrada armadura de Andrômeda. Passou por dois guardas na saída e subiu as escadas, degrau por degrau, sem pressa. Chegou ao quarto de Athena, cuja porta estava fechada. Havia mais dois soldados, um de cada lado, armados com lanças. Ajoelhou-se.

            “Athena. Sou eu, Shun. Vim, atendendo ao seu pedido. Qual é a missão que tem para mim?”

            A porta abriu-se, revelando o semblante sério de Saori. Ela aproximou-se em passos delicados, até estar a meio metro do cavaleiro.

            “Pode se levantar, Shun.”

            Ele obedeceu e ergueu-se. A eles, ainda era estranho relacionarem-se com tanta formalidade, sendo que outrora conviviam informalmente na mesma casa. No Japão, era normal que Saori e Shun sentassem-se à luxuosa mesa de jantar à noite, ocasião em que ele lhe contaria sobre a ilha de Andrômeda e o seu irmão; e ela, sobre a vida que levara com Mitsumasa Kido. Quebrando a frieza da reunião, sorriu e convidou-o a entrar.

            “Eu gostaria de conversar a sós com você. Por favor, entre.”

            “Sim, Athena.”

            Quando Saori fechou a porta, toda a formalidade desapareceu de seus gestos. Sentou-se no sofá e chamou-o para partilhar daquele conforto. Shun o fez.

            “Estou ficando louca com tudo isso”, desabafou.

            “Qual é o problema, Saori?”

            “A ausência de mestre sobrecarrega-me. Sempre que surge um problema no recinto sagrado, sou eu que preciso julgar. É diferente da Fundação Grado, em que meus subordinados se encarregam dos pormenores e tiram as dúvidas em organizadas reuniões.”

            “Está reclamando dos conselheiros do Santuário?”

            “Sim. Como você sabe, são eles que executam as punições e as prisões. Somente Athena e o mestre do Santuário detêm poder para impedi-los nos julgamentos. Se fosse apenas para desempenhar a função de mestre, não me importaria. Mas os conselheiros vivem me alertando para ser mais severa em meu julgamento, ou os cavaleiros não me respeitarão. Devo ser firme, impiedosa aos condenados. O que é a verdadeira justiça, Shun?”

            “Mas você perdoou Kanon, e ele mostrou-se um importante aliado em Hades.”

            “Sim. Mas muitos cavaleiros ainda dizem que merecia ser sacrificado, que era um potencial traidor.”

            “Mesmo tendo ele nos ajudado?”

            “Sim. Acham que ainda pode nos trair. Estou chateada. Toda essa pressão foi transferida a um caso recente, e eu não tive outra escolha a não ser condenar um cavaleiro traidor à pena de morte. Muitos cavaleiros se revoltaram e condenaram o crime que ele cometeu.”

            “Que cavaleiro é esse de que está falando?”

            “Um homem que encobriu a deserção do irmão que era soldado. De acordo com as leis do Santuário, ele precisa ser condenado. Achei que a pena de morte era demais para ele, mas... Muitos cavaleiros estão descontentes com o meu julgamento. É provável que esse traidor seja morto apenas para acalmar os ânimos. Contudo, eu tenho certeza de que ele também tinha os seus motivos, Shun. Não é justo.”

            “Eu entendo. Mesmo sendo um traidor, ele sentiu que precisava proteger o irmão, e esse sentimento eu também entendo. Se precisasse desafiar as regras para defender niisan, também arriscaria o pescoço.”

            “Achei que fosse dizer isso. Muito obrigada, Shun.”

            “Era a minha missão acalmar o espírito de Athena?”

            “Não”, sorriu ela, “é uma demonstração de amizade. Sua missão é outra.”

            Saori entregou-lhe um envelope, que Shun abriu de imediato. Leu o conteúdo da carta, surpreso.

            “Mas Saori... Não pode pedir-me para executá-lo...”

            “Calma, Shun. Sua missão é apenas reconduzi-lo ao Santuário para que seja executado. Deve matá-lo apenas se ele utilizar a força. Mas eu quero que você o traga vivo, pois ainda haverá um segundo julgamento em que darei a palavra final. E... há outra missão que deve cumprir, mas que não posso expressar em palavras. Tenho certeza de que fará um bom trabalho, e não se esqueça: tem a minha proteção.”

            “Outra missão?”

            “Sim. Desculpe-me envolvê-lo. Sei que as rígidas regras do Santuário são necessárias, mas é por isso que gostaria de tê-lo na missão, Shun. Pode ser que sua gentileza e o modo de pensar ajudem esse cavaleiro traidor.”

            O convívio que os levou a conhecerem-se como se fossem irmãos despertava em Shun uma desconfiança que ele não demonstrou por educação. Contudo, sabia que Saori tinha algum segredo por trás da tarefa, deixando-o inseguro. Talvez fosse a sua imaginação, talvez fosse simplesmente o reflexo da tristeza de sua deusa.

            Levantando-se, Shun sorriu.

            “Não se preocupe. Há mais além de julgar nesta missão. Vou partir agora, Saori.”

            “Obrigada, Shun. Estou contando com você.”

 

 

            Shun analisou o mapa e tentou localizar-se no caminho. Segundo os seus cálculos, Chegaria à vila onde o suposto traidor estaria naquele dia. Caminhara a manhã inteira, numa estrada que parecia levá-lo ao fim do mundo. Olhou o córrego que seguia e decidiu aliviar a sede. Colocou a urna de sua armadura na margem, ajoelhou-se e tirou um pouco de água nas mãos.

            “Um cavaleiro de Athena?”

            Normalmente, Shun conseguia sentir quando alguém se aproximava por trás. Sua percepção para aquele homem, no entanto, fora nula. Surpreso, deixou que a água derramasse das mãos e olhou para trás. Era um dos moradores que voltavam de um mercado que abastecia o Santuário, provavelmente um comerciante.

            “Desculpe se o assustei. Meu nome é Deacon, sou comerciante daqui. Jamais imaginei encontrar um cavaleiro de Athena por aqui.”

            “Sou Shun, cavaleiro de Andrômeda. Diga-me, Deacon, estou muito longe da vila?”

            “Não, meu senhor. Basta caminhar por mais meia-hora, logo chegará ao seu destino. Se me permite, posso guiá-lo até lá.”

            “Aceito sua ajuda. Obrigado, Deacon.”

            “Não precisa agradecer, meu senhor. Do Santuário e dos cavaleiros de Athena, sou servo.”

            Puseram-se a andar tranqüilamente, e Shun notou que estava mais próximo à vila do que imaginara. Logo pôde avistar os telhados das casas.

            “Meu senhor, posso perguntar se está partindo em alguma missão?”

            “Sim. A vila abriga um cavaleiro traidor que recebeu a pena de morte. Minha missão é capturá-lo e reconduzi-lo ao Santuário para que receba a pena.”

            “As leis do Santuário são certamente rígidas. Mesmo as leis do país não valem no território dos cavaleiros de Athena. Eles perseguem e punem, independentes e protegidos pela justiça da deusa, filha do Olimpo.”

            “Tem razão. Desde épocas mitológicas, o Santuário mantém regras rígidas, mesmo que contradigam o atual pensamento dos homens.”

            “Quando era pequeno, meu senhor, estudava sobre a verdade do mundo sob os cuidados de um viajante, que se hospedou em casa por meio ano. Ele me contou que alguns valores e conceitos mudavam, de acordo com a época que vivíamos. Pode ser que hoje considerem a pena de morte um julgamento injusto, mas há dois mil anos, não era assim. Cada mudança é decorrente do modo de produção dos homens, de suas necessidades e desejos. Pode ser que no futuro ainda considerem a morte uma punição justa.”

            “A morte jamais será uma punição justa ao homem, Deacon.”

            O homem fitou-o respeitosamente, esperando uma explicação.

            “Meu senhor...”

            “Não existe morte justa, apenas a inevitável. Há mortes trazidas pelas circunstâncias, que são o resultado de uma série de infortúnios, muitos deles que não podemos controlar. O homem nunca será totalmente culpado, assim como a sua morte jamais poderá ser totalmente justa. É assim que penso.”

            “Meu senhor, se pensa assim, por que deseja levar um homem à morte?”

            “Eu não desejo isso, mas é a missão que me deram.”

            “E não obedecer significa a sua própria morte.”

            “Dependendo do caso, sim. Assim são as leis do Santuário, todos os cavaleiros têm a obrigação de obedecê-las para manter a ordem lá dentro. Independente da época que vivemos, é um mundo à parte.”

            “Entendo. Meu senhor, se lhe agrada, pode permanecer em minha residência enquanto procura o fugitivo. Não sou um homem de grandes possessões, sou um mero servo. Mas tem minha total hospitalidade.”

            “Obrigado, Deacon, eu aceito.”

 

 

            A casa de Deacon, como o comerciante dissera, não era grande ou luxuosa. Vivia com sua esposa, Néia, e um filho pequeno de seis anos, Aleo. Ao ser apresentado à esposa como um cavaleiro de Athena, notou que ela tentava esconder a surpresa. Sorria falsamente, suas palavras de hospitalidade saíam forçadas, embora não dispensasse respeito.

            “Seja bem-vindo, meu senhor. Por favor, não se importe com as rachaduras e a rusticidade. Somos humildes.”

            “Mas é claro que não”, sorriu, tentando aliviá-la da formalidade. “É uma ótima casa.”

            Pegando uma sacola vazia, Deacon preparou-se logo para sair.

            “Néia, sirva-o até que eu volte. Vou pegar algumas coisas para prepararmos uma refeição digna ao nosso hóspede. Fique à vontade, meu senhor.”

            Após a saída de Deacon, Néia serviu vinho, em silêncio. Sorria rapidamente e logo voltava ao semblante sério. Sentado à mesa, Shun sentiu-se indesejado por ela, apesar de Deacon forçá-la a tratá-lo bem.

            “Odeia cavaleiros de Athena?”

            “Como posso odiá-los? Os senhores nos protegem; somos gratos ao Santuário, que nos permite viver em paz. É que... Só não sei me portar diante de um.”

            Tomando um gole do vinho, Shun não quis parecer uma espécie de deus àquela mulher, muito menos alguém acostumado ao luxo. Muitos pensavam que cavaleiros de Athena possuíam uma vida de facilidades, o que não era verdade. Ademais, devia ser gentil àqueles que tão bem o acolhiam.

            “Quando realizava o meu treinamento na ilha de Andrômeda, próxima à costa africana, vivia numa velha cabana de pedras, tão fria que me encolhia a noite toda, após horas de exercícios. No Santuário, as casas são iguais, embora aqui seja mais quente. Na ilha, precisava ir atrás de meu próprio alimento, mas lá a terra era pobre, assim como as técnicas de cultivo. Somente a pesca era intensa, barcos iam e voltavam dia e noite. Passei seis anos comendo peixes e nem podia reclamar no inverno, quando a comida era escassa.”

            “Então... Nunca viveu luxuosamente, sendo um sagrado cavaleiro de Athena?”

            “Apenas quando morava no Japão. Mas seria indelicadeza minha permanecer mais tempo lá. Não tinha dinheiro nem para alugar um quarto. Só fiquei ali porque esperava que meu irmão reaparecesse.”

            “Seu irmão? Por acaso, ele também é um cavaleiro, meu senhor?”

            “Pode chamar-me simplesmente de Shun, Néia.”

            “Não posso, meu senhor. Somos servos do Santuário, mesmo vivendo fora de seus limites. Precisamos respeitar suas regras.”

            “Tudo bem. Meu irmão também é um cavaleiro, um grande cavaleiro. Hoje, não temos tanto contato quanto na infância, mas nossa ligação é forte. Afinal, ele era tudo o que tinha quando nem sabíamos quem era Athena.”

            “É mesmo...? Tem sorte de ainda ter alguém assim.”

            “Muita. Mas creio que você também se sente afortunada por ter Deacon. Ele parece ser um bom marido.”

            “Ele é. É esforçado, trabalhador. Todos os dias, acorda antes do Sol e vai trabalhar no nosso campo. Ele também faz peças de artesanato e as vende ao Santuário. Às vezes, flagro-o desperto no meio da madrugada, esculpindo imagens dos deuses. Mesmo em tempos difíceis, ele não reclama e cuida bem do Aleo. Sei que isso não deve ser nada comparado ao risco de ser um cavaleiro...”

            “É uma vida construída de suor. Por que a menosprezaria?”

            “Tem razão. Tenho orgulho dele, meu senhor. Espero envelhecer ao seu lado.”

            “Desejo o mesmo a vocês.”

            Néia sorriu furtivamente, com Shun a sorrir-lhe amigavelmente. Voltou-se ao fogão, onde preparava um cozido para a noite. O cavaleiro olhou o relógio e levantou-se.

            “Não quero atrapalhá-la. Estarei na sala.”

 

 

            Ao voltar para casa, Deacon não esperava encontrar Shun à entrada de sua oficina, observando as miniaturas esculpidas.

            “Pensei que sairia para procurar o traidor, meu senhor.”

            “Sim. É que parei para admirar o seu trabalho. Sabia que suas esculturas já foram parar nas casas dos cavaleiros de ouro? Vendo o seu estilo, não me restam dúvidas. Aldebaran possui uma delas. É um trabalho muito bonito.”

            “Obrigado, meu senhor. É uma honra receber elogios assim.”

            “Só acho que você devia assinar com o seu verdadeiro nome.”

            “Não entendi, meu senhor.”

            “Com o nome de Falcon, o cavaleiro de Athena.”

            Chocado, ele deu alguns passos atrás, temendo o que Shun faria a seguir. Contudo, este continuou a contemplar as esculturas, banhado de calma.

            “Nunca tive tempo para aprender alguma arte ou ciência, só o suficiente para lutar. Sabe como é treinar desde cedo até o anoitecer. Por isso, tenho um pouco de inveja quando vejo que algum cavaleiro pôde desenvolver outro talento que não fosse o combate. É uma forma de emocionar e trazer paz às pessoas, sem pegar em armas.”

            Deacon, no entanto, não estava interessado na conversa de Shun.

            “Quando soube que eu era o cavaleiro procurado?”

            “Quando se aproximou de mim no primeiro momento. Qualquer pessoa deixa o seu cosmos transparecer, mesmo que inconscientemente. Algumas pessoas que possuem talento para desenvolver o cosmos sabem quando alguém está próximo porque sentem o seu cosmos. É o que muitos chamam de percepção. Somente um cavaleiro seria capaz de aproximar-se de mim sem que eu notasse, Falcon. Depois disso, só precisei confirmar minhas suspeitas. O homem que esteve em sua casa por seis meses era o cavaleiro de Sculptor, ele foi o seu mestre no treino do Santuário.”

            “Todo esse tempo... Por que não disse nada?”

            “Não disse porque você gostaria de um tempo com sua família antes de enfrentar o seu destino, não gostaria? Pensei em dar isso a você quando o segui. Eu não tenho pressa para voltar, Falcon, compreendo a sua dor. Mesmo sabendo que é inevitável levá-lo para a execução, não quero tornar tudo mais amargo, desnecessariamente. Diga-me quando estiver pronto, que o levarei com calma.”

            Como se visse uma assombração, Falcon derrubou a sacola cheia de legumes e de frutas, que se espalharam no chão.

            “Não, você não pode... Não pode!”

            O cosmos explodiu, e ele avançou desesperadamente na direção do rapaz. Agora, era a luta que simbolizava a frustração do antigo cavaleiro de Athena. Shun cogitou revidar, mas desistiu. Mediu a força do golpe e defendeu-se apenas para não receber qualquer dano mais grave. Contudo, seu corpo foi atirado contra a parede, quebrando-a e derrubando várias esculturas. Surpreso, Falcon parou de atacar.

            “Por que não se defende, cavaleiro? Quer ser morto por um traidor?”

            Néia e Aleo, escutando o barulho, correram para a sala. Pararam atônitos diante da bagunça. Um fio de sangue escorreu da boca de Shun, que gemia de dor com o impacto. Sentou-se no chão, mas não se levantou.

            “Está medindo a minha força. Por que, Falcon? Pretende lutar comigo? Eu não quero isso.”

            “Eu sei que não deseja, mas eu preciso continuar vivendo, Andrômeda. Entenda, é a minha vida que está em jogo. Defenda-se!”

            Falcon lançou outro ataque de cosmos, e Shun deixou-se levar novamente pelo golpe, caindo no corredor da casa. Limpou o sangue da boca e, atordoado, sentou-se encostado à parede. O ferimento no abdome sangrava, manchando sua camisa.

            “Por que não se defende, Andrômeda? Por que aceita isso?”

            “Você vai me matar, Falcon?”, respondeu Shun, serenamente. “Mesmo sabendo que está errado?”

            “Eu quero viver, mesmo como um criminoso.”

            “Vai me matar e viver com esse peso? Athena pediu-me pessoalmente nesta missão, pensando em você. Ela fez isso pensando em seus sentimentos. Eu não vou atacar você, Falcon, seria uma luta desnecessária, além de um desrespeito ao pedido que ela me fez. Quantos cavaleiros você matará para fugir de nós? Quanto da sua honra você quer manchar? Jurou a Athena, não jurou? Que lutaria pela paz, a mesma de que desfruta com sua família e que é proporcionada pelo Santuário. Está na hora de enfrentar a realidade.”

            Alguns segundos de hesitação passaram-se, antes que Falcon respondesse.

            “Por que Athena o mandou?”

            “Porque não queria enviar alguém que o culpasse pelo que fez, quando possibilitou a fuga de seu irmão do Santuário. Entendo como se sente, também tenho um irmão que me é igualmente importante.”

            “Meu irmão foi recapturado e morto. Depois disso, descobri que ele não era o homem íntegro que eu pensava que fosse. Achei que não valia à pena morrer por causa dele.”

            “O meu tentou matar-me um dia. Mas depois ele se arrependeu e voltou a ser o companheiro de antes. As pessoas podem pensar de muitas maneiras, mas o que elas sentem... Isso nunca é falso, Falcon. Você continuará amando o seu irmão, por mais que discorde de suas ações. Mas se ainda acha que não foi uma causa justa... Acha que a fuga vale o preço de minha vida? Juro, não desejo nada de mal a você ou à sua família, pelo contrário. Eu vim cumprir ordens como um cavaleiro de Athena.”

            Falcon ponderou, tenso. Desviou o olhar, observou demoradamente as esculturas caídas. Finalmente as palavras de Shun traziam-no à realidade. Por fim, voltou-se à esposa.

            “Néia, cuide dele. Quando Shun se recuperar, partirei ao Santuário.”

            “Deacon...”

            Shun contraía-se em dor, e Néia ajudou-o a levantar-se. Conduziu-o até o quarto, sem saber o que pensar. Queria odiá-lo, mas não podia. Ergueu a camisa, viu o ferimento do golpe de Falcon. O sangue já manchava a calça, escorrendo cada vez que o rapaz inspirava e expirava. Havia uma caixa de remédios no armário, que ela tirou para fazer o curativo. Shun observava-a calmamente.

            “Perdoe-me, Néia. Não posso evitar que ele vá ao Santuário.”

            “Mentiu quando disse que desejava vida longa a nós.”

            “Não. Eu desejo. Só que infelizmente, não posso ir contra a vontade do Santuário e de todos os cavaleiros. Quando a hora certa chegar, darei o melhor de mim para mudar isso, eu prometo, mas não posso fazer nada por enquanto. Eu sinto muito.”

            “Deacon também sente... Ele sonhou com esta vida, lutou por ela. Terminar tudo assim... Um belo dia, chega um cavaleiro que é mais cavalheiro que guerreiro e leva-o embora para a morte. Meu senhor... Você é um anjo da morte.”

            “Infelizmente para muitos. Não vou pedir que não me odeie. Mas entenda que Deacon deve ter sofrido muito por esse passado inconcluso com o irmão. Ele só encontraria a paz se acertasse as contas com o Santuário de Athena.”

            “Acertar as contas? Se ele só pode pagar com a vida...”

            “Eu sei. É por isso que não o ataquei. Quem precisa decidir enfrentar esse destino é ele e não eu. Ele é um cavaleiro de Athena, deve saber como é importante honrar o nosso título. Nós lançamos nossas vidas por Athena sem medo de morrer, assim juramos.”

            “Entendo... É errado que ele não faça o mesmo. Enquanto todos os outros lutavam, arriscavam suas vidas, Deacon desfrutava da paz, esquecendo-se de sua armadura e de suas obrigações.”

            “Isso mesmo. É por isso que ele não pode me ignorar.”

            Néia passou um algodão úmido sobre o ferimento, enxugando o sangue. Shun permanecia parado, como se nem sentisse a dor do ataque. Após espalhar o remédio por todo o abdome, passou os dedos sobre uma cicatriz marcante na região, com os pontos da costura ainda aparentes.

            “Que ferimento enorme...”

            “Fui ferido na guerra contra Poseidon, quando enfrentei um de seus generais. Foi uma batalha feroz.”

            “Aconteceu há muito tempo?”

            “Há oito meses. Foram duas guerras seguidas, com o espaço de tempo de duas semanas. Não faz muito tempo que o médico me liberou das consultas. Um machucado como este não se compara com os que acumulei naquelas batalhas tão sangrentas.”

            Dando uma última olhada na cicatriz, ela cobriu o ferimento com gaze e fechou o curativo, enquanto Shun esperava sem demonstrar dor.

            “Está doendo?”

            “Já estou acostumado.”

            “Tente não se mover muito. Descanse com calma.”

            “Obrigado.”

            Quando se levantou, ele segurou-lhe o braço, impedindo-a de ir embora.

            “Só mais uma coisa. Depois disso tudo, seria ilusão dizer que não tenho responsabilidade. Sei que não posso fazer muito, mas se algum dia precisar de ajuda, qualquer que seja... me procure. Prometo que tentarei ajudá-la.”

            “Obrigada, meu senhor. Mas creio que se preocupa demais. Com licença.”

            Shun viu-a sair e suspirou. Olhou para o teto do quarto e relaxou na cama, desejando não ter de virar o vilão da história daquela família. Mas o que podia fazer?

 

 

            Sentado na varanda da casa, Shun observava o movimento da rua. Passara aquele dia recuperando-se do ataque de Falcon e pensando numa possível solução aos problemas penais do Santuário. Era verdade que a tensão no recinto sagrado, com as concessões da deusa, era causada pela conduta de muitos cavaleiros que discordavam de seus métodos. Assim, como poderia inverter aquela situação?

            Falcon surgiu numa esquina, acompanhado do filho. Ambos estavam de tão bom humor que Shun se levantou e caminhou até a lateral da casa, escondendo-se à vista. Não queria estar por perto para lembrá-los da partida ao Santuário. Aquele era o dia da despedida do condenado à família, um breve momento de paz antes da tempestade. E Shun, como representante daquela desgraça, não tinha o direito de ali estar.

            Esperou. Não podia incomodá-los. Esperou. As estrelas surgiram, as sombras cobriram-no, escondendo-o da vila. Sentado contra a parede, abraçou os joelhos e observou o pedaço de céu que o vão entre os telhados lhe permitia. Aquilo não era justo. Ele sabia.

            Sentiu o cosmos de Falcon aproximar-se; não havia mais necessidade para esconder a identidade. Shun suspirou, desanimado.

            “Eu sinto muito, Falcon.”

            “Eu sei que sente. Não vem jantar?”

            “Não... Não. Ignorem-me. Vocês precisam desse tempo. Vou me deitar e descansar para amanhã.”

            Shun levantou-se e entrou na casa, evitando passar pela cozinha. Entrou no quarto e deitou-se na cama. Esperou mais. Sentiu o estômago roncar, junto com a dor do machucado. Suportou em silêncio. Para terminar sua missão, bastava levar Falcon ao Santuário, viagem que não duraria muito mais que um dia. Em breve, tudo estaria terminado, com suas mãos sujas de sangue mais uma vez.

            Mais tarde, Néia viria para deixar-lhe uma bandeja. Ele fitou o prato de comida melancolicamente, perguntando-se se era uma demonstração de educação ou de amizade. Comeu, levou a louça até a cozinha. Enquanto lavava o prato, ouvia os soluços vindos do quarto de Aleo e os murmúrios, do casal.

 

 

            “Faz pouco mais de um ano, desde que traí o Santuário. Mesmo assim, parece-me uma eternidade.”

            “Então Néia e Aleo...”

            “Eu a deixei quando terminei o treinamento. Ela ainda estava grávida.”

            “Entendo. Bem, chegamos.”

            Shun e Falcon pararam diante das ruínas gregas do Santuário, numa área de transição entre o sítio turístico e o recinto sagrado. A viagem transcorrera com calma, e Falcon quase não demonstrava sua tristeza por ter de perder a vida. Era como se estivesse numa missão por Athena, certo de que voltaria.

            Passaram por um soldado sem problemas, pois levavam suas armaduras nas costas. Shun guiou-o direto ao local em que os prisioneiros eram julgados. Ao encontrar-se com o soldado encarregado das ordens de prisão, mostrou a carta, contendo sua missão.

            “Sou Shun de Andrômeda. Vim trazer o condenado Falcon de Centauro.”

            O soldado verificou a ordem e passou-lhe um conjunto de grilhões com correntes.

            “Coloque os grilhões nele e aguarde na sala de julgamento. Athena e os conselheiros se reunirão para dar a palavra final.”

            “Entendi.”

            Caminharam na direção da sala, Shun com as correntes. Voltou-se a Falcon, e este lhe ofereceu as mãos serenamente, aceitando ser preso. Ponderou por alguns instantes, antes de jogar as correntes no chão, como se fossem uma bola de papel amassado.

            “Você não precisa disso. Está livre para fugir, se quiser. Desde o início, sempre esteve.”

            “Se eu fugir agora, você é quem será considerado culpado.”

            “Eu sei.”

            Shun não podia aceitar mais do que já fizera. Não aceitaria que Falcon fosse subjugado de qualquer outra maneira, mesmo que ele próprio fosse castigado por desobedecer às regras. Vestiu a armadura, preparando-se. Entraram no salão, e ele ajoelhou-se diante do altar que Athena ocuparia, apoiando somente um dos joelhos no chão.

            “Havia uma época em que eu me ajoelhava desse jeito para a deusa”, comentou Falcon. “Quando não era um traidor. Mas agora é diferente.”

            Falcon o fez com os dois joelhos colados no chão, como era mandado aos pecadores. Permaneceram com as cabeças baixas, aguardando a presença de todos, pacientemente. Athena e os conselheiros apareceram juntos, portando expressões sérias. Os conselheiros mostraram-se logo irritados com a ausência das algemas nos braços de Falcon.

            “Cavaleiro de Andrômeda! O que significa o descumprimento das regras? Você sabe que ele precisa estar preso para a segurança de Athena.”

            “Senhores, se ele atacar a deusa, juro que o matarei aqui mesmo.”

            “Não podemos arriscar. Coloque as algemas nele.”

            “Estão duvidando de minha capacidade, senhores? Com todo o respeito, acredito que este homem não ofereça qualquer perigo a Athena ou a qualquer pessoa presente. Assumo toda a responsabilidade.”

            Saori interveio, a favor de Shun.

            “Senhores, eu acredito no cavaleiro de Andrômeda. Por favor, cavaleiro, reporte-nos sua missão.”

            “Sim, minha deusa. Encontrei Falcon, o cavaleiro de Centauro, há três dias. Ele estava disfarçado com o nome de Deacon e vivia pacificamente como um comerciante da vila de Erineia, próxima ao Santuário. Fui recebido em sua residência com grande hospitalidade, por sua esposa e filho.”

            “Por que não os trouxe, Andrômeda?”, interrompeu um dos conselheiros. “Se estão envolvidos, também devem ser punidos.”

            Shun notou que Falcon tentava abafar o nervosismo ao ouvir de sua família, mas manteve a calma e respondeu com firmeza.

            “Porque eles não possuem qualquer culpa. Tanto a esposa como o filho desconheciam o fato de que Falcon traíra o Santuário. Dessa forma, não lhes cabe punição.”

            Era mentira. Falcon quase levantou o olhar para fitá-lo, mas manteve-se imóvel. Não podia atrair suspeitas. Shun mentia para proteger sua família.

            “Está bem. Continue, por favor.”

            “Quando revelei minha missão a Falcon, ele aceitou seu destino com consciência e resignação. Permaneci em sua casa por mais um dia para recuperar-me da viagem e fui muito bem tratado. Todo o respeito devido foi mantido à minha pessoa. Peço que considerem.”

            Shun omitia a breve luta que travaram. Ainda possuía esperanças de evitar sua morte.

            “Não podemos esquecer, Andrômeda, que esse homem responde por um grave crime, punível com a morte. Ele facilitou a fuga de um soldado desertor, que era o seu irmão. Não podemos perdoá-lo. Quem garante que ele não irá repetir o crime?”

            “O irmão dele já está morto, senhores. Não há quem ele proteja agora.”

            “Essa não é a questão, Andrômeda. Um homem que já traiu sempre pode trair uma segunda vez.”

            “Então eu gostaria que me respondessem, senhores: foi Kanon traidor pela segunda vez?”

            “Não mencione esse nome, cavaleiro insolente!”

            Shun baixou o olhar, humildemente.

            “Kanon derramou litros de sangue inocente. Esse é o conceito de bom cavaleiro para você? Devia ser punido por tais palavras.”

            “Não vou permitir”, interferiu Saori. “Kanon tem o meu perdão e quase perdeu a vida para proteger-me. Não vou permitir que falem mal dele nesta sala, onde apenas a justiça deve ser dita! Além do mais, não estamos aqui para falar sobre o Kanon, mas sobre esse homem, Falcon.”

            Os três conselheiros voltaram-se à deusa, determinados a finalizar o julgamento.

            “Perdoe-me pelas palavras impensadas, minha deusa. Mas há de convir que este homem seja morto. Todo aquele que deserta ou ajuda um desertor deve ser morto. Está nas leis do Santuário.”

            “Além disso, minha deusa, todo o Santuário está em pavorosa por causa da quantidade de perdões aos nossos prisioneiros. Isso desrespeita o sangue derramado de cavaleiros dedicados, como o nosso bom cavaleiro de Andrômeda.”

            “Se minha deusa perdoar mais um condenado, não sei como os cavaleiros poderão reagir.”

            “Posso tirar uma dúvida?”, interrompeu Shun.

            “Diga, Andrômeda.”

            “Os criminosos que Athena perdoou não foram punidos?”

            “Foram, mas suas punições eram leves, causando grande revolta entre os cavaleiros.”

            Shun viu naquele detalhe uma abertura para a solução. Levantou o rosto e em seguida ergueu-se, surpreendendo todos da sala.

            “Andrômeda! Ajoelhe-se diante de Athena!”

            “Podem punir-me se quiser. Mas levanto-me respeitosamente, essa é a verdade. Faço, porque penso que tenho uma solução viável em mente.”

            Saori sorriu sutilmente e fitou-o nos olhos.

            “Pois diga, Andrômeda. Sei que suas sensíveis palavras sempre estão iluminadas pela justiça.”

            “Não vou contestar que Falcon seja culpado. E acrescento aos presentes: Falcon deseja ser punido pelo crime que cometeu, mas não acha que merece perder a vida. Pois penso que ele deve ser condenado, não à morte, mas a uma punição que traga algo a mais no Santuário além de um simples buraco no cemitério.”

            “O que tem em mente, cavaleiro?”

            “Que cada dia que ele passou longe do campo de batalha seja pago em carne e em cárcere. Assim, sua dívida com os companheiros guerreiros será quitada. Que se comprometa a lutar por Athena, sempre, arriscando sua vida pelos outros e buscando a paz da humanidade. Assim retomará sua promessa sagrada. Ao lugar vazio deixado por seu irmão desertor, determino que ele preencha com dez novos soldados. Essa é a minha proposta, senhores.”

            “É muito branda!”, protestou um. “Não se compara com o que merece! Ninguém no Santuário aceitará.”

            Falcon apoiou as mãos no chão e baixou a cabeça, em sinal de humildade.

            “Senhores, peço permissão para falar.”

            “Fale, cavaleiro de Centauro”, respondeu Saori, antes que os conselheiros o recusassem.

            “Estou envergonhado do erro que cometi. Se a proposta do cavaleiro de Andrômeda fosse acatada, acrescentaria ainda a renúncia de meu título de cavaleiro, pois não lhe sou mais digno. Mas juro que lutarei como um soldado até a morte pela deusa, não importa a ocasião.”

            Com aquela condição, mesmo os conselheiros hesitaram. Calaram-se e fitaram-se, incertos. Em seguida, um deles manifestou-se.

            “E quem garantirá sua fidelidade? O que acontecerá na próxima vez que nos trair?”

            Shun voltou a ajoelhar-se, sabendo que faltava pouco para atingir seu objetivo. Ele era conhecido por sua fidelidade a Saori, dentro e fora da Grécia; já era hora de utilizar seus créditos.

            “Se isso acontecer, assumirei total responsabilidade e cederei minha vida em punição. Pela honra que carrego, juro que Falcon será fiel à deusa até a morte.”

            Novamente o silêncio tomou conta dos conselheiros. Percebendo que aquela era a chance para terminar a reunião, Saori anunciou:

            “Muito bem. De acordo com os desejos do próprio condenado, acato a proposta do cavaleiro de Andrômeda, mais a perda de seu título. Que assim executem a pena!”

            Os conselheiros murmuraram em discordância, mas não se manifestaram publicamente. Falcon fitou Shun rapidamente e sorriu-lhe, em agradecimento. Shun sorriu educadamente de volta, ainda pesaroso pelo rigor da pena que propusera. Não podia ser leve, ou os conselheiros não o escutariam. Como representante dos cavaleiros, Shun impunha uma punição que respeitava os sentimentos dos companheiros traídos. Athena aproximou-se quando todos se dispersaram, com o alívio no rosto.

            “Shun, você se saiu maravilhosamente bem. Eu precisava de alguém que pudesse encontrar uma punição que satisfizesse os cavaleiros também. Sinceramente, foi uma decisão digna de mestre.”

            “Não foi nada, Saori. Só estou contente por Falcon não ter confirmado a pena de morte. Ele tem uma família linda para cuidar.”

            “Mas se saiu muito bem. O cargo é seu.”

            “Cargo?”

            “O cargo de mestre do Santuário. Os cavaleiros jamais aceitariam Kanon como mestre, mas você, sim. Por favor, Shun, preciso de você naquela sala.”

            A possibilidade não era de todo má ao rapaz, que sempre desejava alcançar uma justiça pacífica no Santuário. Pensou rapidamente e assentiu.

            “Exatamente como há um tempo, no Japão. Eu sempre a ajudava com a Fundação.”

            “Sim. E gostaria que continuasse a ajudar-me.”

            Com a mudança, Shun deixaria de ser o cavaleiro de Andrômeda para ser o mestre. Se por um lado sentisse falta de lutar ao lado dos companheiros, por outro achava que era uma oportunidade de trazer a paz sem empregar a violência. Talvez aquele também fosse o desejo de Saori; procurar a justiça de outras formas além do punho.

 

 

            Shun passou pelos guardas, recebendo respeitosos cumprimentos. Um servo o seguia a toda a parte, como uma sombra. Ainda levaria um tempo para acostumar-se à nova condição. Fitou o seu servo por poucos segundos, formal.

            “Espere aqui, por favor.”

            Ele obedeceu, e o rapaz continuou em direção à prisão. Parou diante de uma cela onde Falcon, acorrentado, descansava no chão. Coberto de ferimentos e cortes, tinha as mãos e os pés presos, além da sujeira acumulada naquele mês. Falcon levantou-se com dificuldade e saltou até as grades, apoiando-se nelas para não cair.

            “Falcon.”

            “Andrômeda... Não, perdoe-me... Santidade. O que o traz a um mero prisioneiro?”

            “Não precisa ser formal. Só vim trazer uma notícia, que certamente o agradará.”

            “E qual é, meu senhor?”

            “Néia e Aleo poderão se mudar para cá ao final de seu castigo. Inicialmente viverão no Santuário como servos, isso se o seu filho não desejar ingressar no treinamento. Quando vierem, permitiremos que morem juntos.”

            Sem palavras, Falcon não conseguiu acreditar. Gaguejou alguns sons, antes de responder.

            “É... É verdade isso, meu senhor? Eles poderão vir?”

            “Sim, é verdade. E quando você sair e retomá-los, não se esqueça de me vender uma de suas peças. Estou ansioso para voltar a ver suas estátuas.”

            Emocionado, Falcon fechou os olhos, derramando lágrimas. Escorregou lentamente pela grade até ajoelhar-se e abaixar a cabeça.

            “Obrigado... Obrigado, Santidade. Por ter dado outra chance, por ter salvado a minha vida. Juro que a arriscarei para lutar por sua honra. Obrigado...”

            “Fico grato por sua fidelidade, Falcon.”

            Shun afastou-se, perguntando-se por que devia ser tão idolatrado, se ele mesmo o condenara ao castigo. Falcon seria tratado de forma miserável na prisão do Santuário, até que um pouco mais de um ano fosse cumprido. ‘Ao menos, está vivo’, pensou. Mas talvez fizesse a afirmação errada. O que importava não era o fato de estar vivo ou não. Falcon não teria se revelado no primeiro momento, quando se encontraram no rio, se não desejasse mais lutar por Athena.

 

 

*FIM*

 

 

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