A
nova Fênix
“Lute! Nunca se renda! Lembre-se que pode conseguir tudo o que
quiser!”
Ikki falava com convicção na frente do irmão. As águas da praia
banhavam suavemente a areia de Tóquio. O sol já deixava de oferecer calor ao
dia e o céu ganhava um tom alaranjado, proporcionando aos dois irmãos uma bela
paisagem.
“Ikki...”
Ikki sorri para ele. Estava contente por poder novamente oferecer
conselhos ao Shun e reassumir sua posição de irmão mais velho. Não fazia
dois dias que eles haviam se reencontrado depois da batalha no Vale da Morte e
de repente a sorte começa a sorrir a eles, pois agora estavam lutando juntos e
ninguém mais os deteria.
“Deveria ter dito isso antes a você, mas naquela época eu ainda não
sabia ao certo o meu destino e nem você sobre o seu...”
“Não importa. Foi por niisan que consegui me tornar um cavaleiro e
fico feliz por isso. Estamos lutando ao lado de bons amigos agora.”
E realmente aquilo era o mais importante. Eles não eram mais dois
irmãos solitários que lutavam contra o mundo, mas sim guerreiros com amigos
lutando por este. De repente o olhar de Ikki se torna triste e ele volta a olhar
para o mar.
“Você também deve ter sofrido demais na ilha de Andrômeda e quando
eu voltei...”
Shun sabia que o irmão ainda se sentia culpado por ter tentado mata-lo,
mesmo que tivesse feito aquilo por depressão. Lançou o sorriso mais verdadeiro
que poderia dar.
“Isso não é problema. Afinal, nós só crescemos com isso, não é
verdade?”
Ikki também sorri.
“Nisso você nunca vai mudar... Tem razão, Shun.”
A maré subia a medida em que o Sol desaparecia. Já era possível
encontrar algumas estrelas no céu.
“Eu andava tão preocupado comigo mesmo que esqueci que vocês também
sofriam. Seiya sofre a angústia de
nem saber se sua irmã ainda está viva ou não. Hyoga nunca pôde apagar da
mente a cena da mãe morrendo na frente dele e esse é um trauma
compreensível.”
“Seiya ficou arrasado quando descobriu que Seika havia desaparecido.
Você ainda se lembra de como os dois eram unidos quando eram pequenos, não é?
Exatamente como nós dois. Sei o que o Seiya está sentindo. É assustador.”
“Eu sei. Tatsumi me contou que a ilha de Andrômeda também era um
lugar quase tão rigoroso quanto a ilha da Morte antes de eu partir, e fiquei
com medo.. medo de que quando eu chegasse de volta, encontrasse um outro homem
dentro da armadura de Andrômeda e não o meu irmão...”
“E Hyoga também. Por trás daquela aparência fria existe um ótimo
coração. Mas aquela aparência é mais de tristeza que frieza. É como se uma
sombra o acompanhasse. Mas ele nos ajudou quando Shiryu estava em perigo e essa
foi uma grande prova de sua bondade. Ele deve carregar um pesar muito grande.”
Ikki afirma. Lutando com Hyoga, ele pôde perceber isso melhor do que
ninguém. Hyoga nunca foi um homem frio de verdade. Apenas um muito triste.
Talvez o verdadeiro Hyoga fosse até parecido com o Seiya, ou com o Shiryu, mas
acreditava Ikki que seria muito difícil descobrir isso.
“Já está ficando muito escuro, Shun. O que acha de voltarmos para
junto dos outros?”
Shun se levanta, batendo a areia da calça.
“Vamos.”
Dois dias antes, quando comemoravam a volta de Ikki, Saori disse para que
eles descansassem antes de atacar o Santuário. Cada um então tentava buscar
uma maneira de relaxar. Shun e Ikki passavam boa parte do tempo conversando
sobre os seis anos que estiveram separados. Seiya buscava notícias sobre a
irmã e paquerava Miho. Shiryu havia voltado para as cinco montanhas. Como uma
viagem a Sibéria demoraria demais, Hyoga decidira buscar algumas formas de
lazer em Tóquio.
Aquela noite, apesar de todos estarem muito contentes por Ikki ter
voltado e saudável, havia uma certa gota de desânimo no ar. Cada um tinha
problemas pessoais o suficiente para não permanecerem muito tempo eufóricos.
Shun parecia ser o mais tranqüilo na mansão, por razões óbvias. Saori havia
se recolhido em seu quarto ou pelo menos o que sobrou dele, depois de ter a
mansão incendiada pelo Cavaleiro de Fogo. Hyoga, por sua vez, passeava pelo
jardim dos Kido, dando voltas. Ikki havia desaparecido desde a janta.
Hyoga senta embaixo da árvore e fecha os olhos, procurando um momento de
solidão. Seus pensamentos estavam voltados para o mestre Cristal, que havia
matado e também para a sua mãe que continuava esperando-o no fundo do mar. Em
que espécie de homem ele estava se transformando? Matando o próprio mestre...
Um barulho de cima da árvore faz com que ele se levante e fique em
guarda.
“Quem está aí?!”
Ikki aparece entre os galhos com um sorriso maroto.
“Demorou muito para me descobrir.”
Hyoga olha para o lado, aborrecido com a aparição do Fênix. Ikki nunca
aparecia, mas quando o fazia, era sempre em momentos em que Hyoga não o queria
por perto.
“Eu mal percebi que você estava aí...”
Ikki desce da árvore em um salto, vindo se juntar ao amigo.
“Eu vim aqui para lhe devolver isto.”
Ikki retira o rosário do bolso e o entrega a Hyoga.
“Sei o quanto significa pra você. Você só poderá pendura-lo na cruz
quando tiver a certeza de que morri. Até parece que eu sou cara fraco!”
Hyoga abre um pequeno sorriso e o recoloca em seu pescoço.
“Está certo.”
“Parece distante. O que o incomoda?”
“Isso não é da sua conta, Ikki.”
“Você vai me contar ou vou ter que usar o meu golpe da ilusão de
novo?”
“Não preciso que você saiba sobre os meus problemas.”
“Mas eu sei. Sei o suficiente pra saber porque você está assim. Agora
mesmo você devia estar pensando no mestre Cristal, não é verdade?”
Hyoga fica irritado com o orgulhoso sorriso de Ikki e volta a sentar sob
a árvore, ignorando-o.
“Não é difícil saber. A expressão do seu rosto era de culpa.”
“Cale a boca, vá embora, Ikki.”
“Não tem que ficar zangado. Não foi sua culpa.”
“Eu o matei, Ikki!! Não importa que ele tenha me perdoado, eu o
matei!! Você não pode entender o que é matar um homem que o criou como um
filho!”
“Tem razão, nenhum homem me criou como um filho. Eu fui criado como um
escravo. E talvez eu nunca vá saber como é essa dor que você está
sentindo.”
Hyoga permanecia imóvel, sem dizer uma palavra.
“Mas eu tenho uma dor tão profunda quanto essa.”
Hyoga olha para ele. Não parecia, mas o rosto de Ikki escondia uma
angústia muito grande, cicatrizes da ilha da Morte.
“Eu a amava demais, Hyoga. Demais. Seria capaz de me rastejar para que
o meu mestre não a tivesse matado. Se pudesse, gostaria de ter morrido em seu
lugar. Mas às vezes eu penso que esta é uma posição egoísta, só de pensar
nas lágrimas que ela derramaria. E apesar do sangue, da dor, ela se foi
sorrindo para mim. Sorrindo!”
Ikki olha para o lado. Ele não gostava de lembrar dessa cena, mas ela se
repetia continuamente em sua mente desde que ele havia se tornado um cavaleiro.
“Estava tudo planejado na minha cabeça. Eu me dobraria para conquistar
a armadura de Fênix, raptaria Esmeralda e voltaria para o Japão para me
encontrar com o Shun. Mas as coisas infelizmente não deram certo...”
Agora Hyoga podia identificar claramente o melancólico olhar do
cavaleiro de Fênix. Ele era tremido, assustado e, acima de tudo, solitário.
“Ikki...”
Ikki volta para Hyoga esboçando um sorriso.
“Agora que já falei dos meus problemas, fale-me dos seus. Ou vou ter
que usar mesmo a minha ilusão?”
Hyoga estranhou. Que Ikki era aquele que se preocupava com seus
problemas? Que sorria de maneira amigável, pronto para ouvir e compreender suas
emoções? Que Ikki era aquele, que da pedra se transformava em um homem
sentimental? Teria Ikki realmente renascido e mudado tanto assim?
Mas não. Esse era o mesmo Ikki que enxugava as lágrimas do irmão mais
novo com ternura quando este era atormentado pelos outros meninos do orfanato.
Era aquele mesmo Ikki, irmão mais velho protetor, que era hostil com estranhos
e gentil com os entes queridos. Era como se... Como se Hyoga fosse agora seu
irmão.
“Você não vai ficar com o Shun?”
“Neste momento, só o fato de eu estar por perto, já o deixa
completamente feliz. Ele não está precisando de minha ajuda.”
“E nem eu. Vá embora.”
“Está certo, você é quem manda!”
Ikki acende o cosmos e a aura de Fênix aparece por de trás dele.
“Ikki, não me diga que você vai...?!”
“Ora, você não quer me falar o que tem de errado, vou ter que
forçar! Última chance! Vai falar ou não vai?”
“Você está louco?!”
“Tempo esgotado! Vou mandar um pesadelo de brinde!”
“Está certo, está certo! Eu falo!”
Ikki interrompe o cosmos e lança um sorriso vitorioso.
“Assim está bem melhor!”
Hyoga suspira e olha para o lado.
“Queria que ele me desse um castigo.”
“Hum?”
“Meu mestre. Por
te-lo matado. Queria que ele voltasse e me desse uma surra.”
O olhar de Ikki então enternece.
“Hyoga, você não teve culpa de nada, era uma luta. Quando você entra
em um combate de cavaleiros, sabe que está arriscando a sua vida nela. Seu
mestre sabia que poderia ser morto por você.”
“Mas não é justo! Ele estava hipnotizado pelo mestre do Santuário
quando lutamos! Ele recebeu meu golpe abertamente por estar sofrendo pelo golpe
de Arles! E eu joguei com toda a minha força...”
Hyoga fecha os olhos com força, tentando evitar que as lágrimas
saíssem. Ikki senta ao seu lado, encostando na árvore.
“E não pôde evitar. Você quis ter evitado aquele golpe, mas não
pôde. E por isso está se culpando. Hyoga, já lhe ocorreu o quanto o mestre
deve estar orgulhoso de você?”
“Orgulhoso por quê?”
“Por ter lutado como um verdadeiro cavaleiro. Se eu tivesse um
discípulo, jamais permitiria que ele evitasse atacar quando estivesse lutando
por uma causa nobre. Sei que é difícil, mas esse é o ponto fraco de um
cavaleiro que serve a justiça.”
Hyoga se lembrou das últimas palavras do mestre Cristal. ‘Você nunca
deve hesitar quando lutar pela justiça.’
“Além do mais, um homem que tenha se afeiçoado ao pupilo como um
filho, não iria deixar de amá-lo depois de tanta pressão no último golpe.”
Hyoga olha pra frente, a noite envolvendo o pouco que dava pra se
enxergar no jardim.
“Era hora dele...”
“Sim...”
Hyoga abraça os joelhos, escondendo o seu rosto no meio deles.
“Sinto falta dele...”
Ikki permanece calado ao seu lado, como um irmão que o protegesse,
ouvindo compreensivo suas lágrimas. Seu pensamento chegou em Esmeralda, aquele
rosto gentil e amável sempre oferecendo um sorriso, mesmo quando ele estava de
mau humor. Ele suspira e continua a oferecer um pouco de solidariedade ao seu
irmão de espírito. Sim, agora ele era um irmão. Não apenas do Shun, mas
também de Hyoga, Shiryu e Seiya. E como um irmão ele haveria de ajuda-los da
melhor forma possível. Embora com várias cicatrizes a mais, era o velho Ikki
que renascia.
*FIM*
Obs:
Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.