A
Passos Cegos
Não se via o caminho. Apenas a névoa que o cobria como um manto. A
comunicação com o mundo exterior era transmitida através do pouco tato. O
solo era firme, porém irregular em alguns trechos, tornando penosa a tarefa de
andar. Escalavam morros há mais de dois dias, estavam distantes da vila onde
ficava o seu orfanato. Havia a impressão de que o levavam direto ao inferno.
Quando tentava se desvencilhar da mão que o segurava, ela espremia-lhe
os ossos a tal ponto que o forçava a gritar. Quando se resignava e voltava a
caminhar comportadamente, ela quase o soltava. Em alguns momentos, chegava a
tremer. Era como se o seu guia o temesse mais do que a própria névoa, como se
ele fosse se transformar em algum monstro. Como se ele já fosse um monstro.
“Para onde estamos indo?”
A mão não respondeu. Temia responder. Se o garoto soubesse para onde
estava sendo levado, encontraria mais facilmente o caminho de volta. Era melhor
que continuasse não sabendo. A mão voltou a tremer, hesitante. Não sabia se o
segurava com força ou o abandonava ali mesmo. Mas foi “ele” quem pediu que
o levasse. Nada era mais conveniente para o orfanato. Afinal, poucos metros
faltavam até o final do caminho.
Horas depois, a névoa começou a dispersar-se. A primeira coisa que o
menino fez ao conseguir enxergar o chão foi olhar para o alto a fim de
identificar seu guia. Contudo, ainda não era possível diferenciar as feições
de seu rosto. Só distinguiu o braço que se levantou e apontou o caminho. Logo
em seguida, a mão deu meia-volta e desapareceu.
O vazio era tão assustador que ele a desejou ter de volta. Seu coração
acelerou, começava a sentir as conseqüências do ar rarefeito. Quis olhar para
trás, mas receou em perder a direção que lhe foi indicada. Quis gritar, mas
sabia que ninguém viria ao seu socorro. Como uma caça sem esperança
permaneceu no mesmo local durante vários minutos.
Recordou-se dos rostos dos
colegas no dia em que partiu. Não havia um sorriso. Não havia uma lágrima.
Todos se despediram a uma distância respeitável de não menos de três metros.
Pouca diferença havia entre eles e o vazio. Restou-lhe somente somar um mais
um. Ou talvez zero mais zero.
Sem mais a segurança da mão, a velocidade de seus passos reduziu-se a
um a cada cinco segundos ou mais. Precisava averiguar cada pedaço de terra
antes de pisar com convicção. Silenciosamente torcia para que não perdesse o
caminho ou pior, não encontrasse um destino.
Logo o piso passou a se tornar quebradiço. A cada passo que dava, ouvia
estalos de rochas finas sob os seus pés. A névoa dissipou-se como se fugisse
do cheio de morte. Foi como desembarcar no inferno: milhares de esqueletos
cobriam o piso, formando um mar de cadáveres até onde os olhos alcançavam.
Horrorizado, correu pelo caminho de volta. No entanto, a névoa constituía um
obstáculo impossível de transpor. Não havia retorno.
Passou entre os corpos tentando não pisar em nenhum osso, o que foi uma
tarefa relativamente difícil. Parecia o resultado de uma grande guerra
envolvendo vastos exércitos. Reparou em um besouro que saia do crânio
perfurado de um soldado, alheio à mórbida paisagem. Tentou passar pelo lado,
mas se sobressaltou quando o mesmo crânio ergueu-se sobre o solo à altura de
seus olhos e com uma voz grave vociferou:
“Moleque! Você é aquele que o mestre permitiu passar, não é mesmo?
Mas que desperdício, um garoto como você mato em menos de três segundos!”
“Mas o que diabos é você?!”
“Sou um assassino a espera de um pedaço de carne como você! Eu não
ligo para o que disse o mestre, vou acabar com você agora!”
Ao terminar de falar, um dos esqueletos desprendeu-se do solo e juntou-se
à caveira, formando o corpo completo. Junto aos ossos da mão, uma velha espada
aterrorizava ainda mais a visão do garoto, que saiu correndo, desta vez sem se
preocupar em não pisar nos restos mortais.
‘Isto aqui é o inferno, só pode ser!’, pensava enquanto fugia. Seu
destino era ser morto por aquele esqueleto e virar mais um cadáver daquele mar.
Em volta não havia nenhum lugar onde pudesse encontrar abrigo, nenhuma arma com
a qual pudesse se defender. Como dissera o esqueleto: era apenas um pedaço de
carne fugindo do inevitável.
Por não estar acostumado àquele tipo de terreno, foi facilmente alcançado.
O esqueleto brandiu a espada, rindo-se sozinho do prazer daquela matança. Sua
espada não era tão afiada quanto antigamente, mas conseguia romper a garganta
de uma criança com um pouco de força.
O garoto se viu sem outra saída a não ser aquilo. Não tinha certeza do
que aconteceria se tentasse, só sabia que aquela era a sua última esperança.
Apontou seus braços para uma rocha embaixo do esqueleto, concentrando sua mente
naquele objeto inanimado. Para o seu alívio, a pedra obedeceu ao seu comando e
voou, em direção ao seu perseguidor.
Contudo, o oponente fora outrora um guerreiro. Estar preparado para tudo
fazia parte de sua natureza. No lugar da cabeça do menino, a pedra partiu-se em
dois com um só golpe. Todo o resto de esperança que possuía foi fatiado em
menos de um segundo.
“Rá, então o menino aqui se acha esperto!”
Apesar de não ter conseguido derrotá-lo, encontrou mais uma chance para
escapar. Saltou sobre os cadáveres e pôs-se a correr novamente, desesperado.
Viu adiante outra pedra, grande o suficiente para esmagar ossos. Sentiu medo de
movê-la. Jamais ousara mexer um objeto daquela dimensão.
Concentrou-se o máximo que podia em meio à perseguição, tropeçando
nos ossos e restos de armaduras. A pedra moveu-se apenas alguns centímetros,
apesar do esforço. Perdendo o equilíbrio, o garoto caiu e complicou-se com as
ossadas. Era como se elas desejassem que seu sangue fosse derramado ali. Somente
teve tempo de ver o fio da espada no alto, apontada para a sua cabeça.
“Pare já com isso!”
O comando viera de longe, de dentro da névoa, parecia um deus que surgia
de qualquer lugar. Fez a espada parar em pleno ar, embora o esqueleto ainda
tentasse matá-lo.
“Eu disse que deveria deixá-lo passar.”
“Se- senhor... Eu não sabia! Eu só estava fazendo o que me mandou,
protegendo o túmulo da armadura de estranhos!”
“Esse garoto está sob a minha proteção a partir de hoje.
Retire-se!!”
Relutante, o esqueleto recuou e se desfez, deixando cair os ossos, que se
perdiam em meio a tantos outros iguais. O garoto perguntou-se se aquele que
chegava era o dono da mão que o guiara até ali. Logo percebeu que se tratava
de outra pessoa. Um rapaz de longos cabelos roxos e vestido como um monge
aproximou-se sorrindo. Estendeu a mão gentilmente, oferecendo ajuda.
“Você está bem? Levante-se, vamos.”
Ela não tremia. ‘É apenas por enquanto’, pensou, ‘até ele
descobrir que não sou uma criança normal.’
“Não precisa ter medo. Aquele esqueleto não vai mais te incomodar.”
Levantado com firmeza, imaginava até quando seria recebido por aquele
sorriso, tão incomum, tão estranho. Perguntou-se várias vezes se aquilo não
era um sonho.
“Mas quem é você?”
“Meu nome é Mu, soube de seus poderes e pedi para que o trouxessem. Se
concordar, terei o prazer de ser o seu mestre de hoje em diante.”
“Meu mestre? Mas...”
“Você pode me mostrar de novo? Estou falando da pedra que você moveu
com o poder da sua mente.”
“Você viu?!”
“Sim, eu vi. E quero que você me mostre de novo. Tente com essa pedra
que está do seu lado.”
O pavor tomou conta do menino. Não porque Mu sabia de seus poderes, mas
porque ele tinha medo de fazer de novo. Seus poderes o aterrorizavam mais e mais
a medida em que se fortaleciam. Lembrou-se do motivo de ter sido expulso do
orfanato. Machucara uma colega que lhe pedira para levantar uma cadeira.
“Mas, senhor...”
“Não vamos demorar mais com isso, sim? Faça agora.”
“O senhor precisa se afastar para não se machucar.”
“Não se preocupe comigo, garoto.”
Era apenas uma questão de segundos para atrair a raiva daquele monge.
‘Vamos, faça como você fez antes com o esqueleto, concentre-se!’, dizia
para si mesmo. Sua mente fechou-se sobre a pedra, buscando o máximo de
controle. Ela moveu-se rápido, antes que seus olhos pudessem acompanhar. Saltou
na direção de Mu com velocidade, como acontecera uma vez no orfanato. O garoto
teve certeza nessa hora: acabara de perder uma futura amizade.
“Cuidado, senhor!”
Para a sua surpresa, a rocha parou em pleno vôo, como se tivesse vida.
Dançou no ar antes de voltar ao solo, lentamente. Ele sabia que não era capaz
de controlá-la com aquela precisão. Só havia uma pessoa capaz de fazer
aquilo.
“Não precisa se preocupar comigo. É impossível me machucar.”
O sorriso do menino foi uma resposta quase instintiva. Pela primeira vez
alguém não se machucara com aquele poder. Pela primeira vez, alguém não o
chamou de aberração. Sentiu tamanha alegria que esqueceu que fora abandonado
pelo mundo.
“Então quer dizer que você também pode mover as coisas, mestre
Mu?”
Ele sentiu prazer em chamá-lo de mestre. Através daquele vocativo,
estabeleceram uma relação mais próxima. Mais do que a relação que possuía
com as pessoas do orfanato. Mu assentiu com a cabeça.
“Quando tinha a sua idade, também não conseguia controlar minha
telecinesia. Mas eu posso te ensinar, direitinho. Como você se chama?”
Ele
sentiu-se no céu. À sua frente havia uma pessoa que possuía os mesmos poderes
que ele, era intocável e não o achava um monstro. E agora ele lhe oferecia
instrução!
“Kiki, mestre! Eu me chamo Kiki!”
“Então venha comigo, Kiki. Vou lhe mostrar que não deve temer seus próprios
poderes. Quando souber controlá-los, poderá fazer de tudo.”
A partir daquele momento, sua inibição desapareceu. Não lhe restava
nenhuma dúvida, havia um caminho visível à sua frente. De repente, voltara a
ser criança. Voltara a ser gente. Queria mergulhar e abraçar aquele mundo onde
ele não era desprezado por seus poderes. E correu atrás de Mu, ávido por suas
lições, sem receio dos passos que dava.
*FIM*
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