Abrigo

   

            Quando o Sol nas Cinco Montanhas de Rozan tomou um tom avermelhado, Shunrei decidiu que era hora de acender as luzes da pequena casa onde vivia. Era inverno e naquela época a temperatura chegava a ganhar um sinal negativo na frente. Em dias como aquele, não havia nada melhor do que se proteger do frio sob um teto quente. Mesmo que o clima inspirasse calma, havia no coração da garota uma agitação que jamais se aquietaria.

            Fazia menos de um ano que ocorrera a sangrenta batalha de Hades, que acabou levando a vida do Mestre Ancião, o senhor que sempre cuidou de Shunrei. Esta chegara a acreditar que ficaria sozinha quando a guerra estourou, mas agora contava com a companhia de um jovem da mesma idade, Shiryu, discípulo do mestre e sobrevivente da batalha. O rapaz morou com eles por mais de sete anos, tornando-se praticamente um membro da ‘família’.

            Mesmo que o inverno fosse rigoroso, Mestre Ancião e Shiryu continuariam naquelas montanhas, o mestre sentado sobre uma grande rocha de vista para a cachoeira de Rozan e Shiryu treinando na violenta queda d’água. Agora, o rapaz praticava como sempre, porém não havia mais nenhum mestre por perto. Isso o tornava melancólico algumas vezes, mas lhe dava vontade de continuar morando naquelas montanhas e preservar a memória de seu mestre. Afinal, era naquele lugar que aprendera a respeitar a vida e as pessoas.

            Shunrei voltou à cozinha para continuar preparando o jantar. Sabia que o companheiro ficara cansado após mais um dia de treino e de trabalho, não queria atrasar nada. Contudo, aquela não seria uma noite como as outras. Quando a batida oca e forte na madeira da porta chamou-lhe a atenção, Shunrei perguntou-se quem poderia visitá-los de noite tão longe da cidade. Quando abriu a porta, um senhor vestindo uma túnica gasta disse, com um olhar cansado:

            “Por favor, menina. Viajo nessas montanhas geladas há dias... Ficaria feliz se me desse um lugar para passar a noite...”

            O coração da garota não podia dizer não. Mesmo sendo órfã, Mestre Ancião a criou como se fosse sua própria filha. Após ter sua vida salva por outro, como poderia recusar àquele homem um abrigo para uma noite invernal como aquela?

            “Claro, senhor. Entre. Deve estar congelando aí fora.”

            O viajante sentiu o contraste entre a brisa gelada e o ar quente da casa e logo em seguida relaxou. Seu corpo, levemente entorpecido, parecia readquirir os movimentos aos poucos. A garota ofereceu-lhe uma cadeira e chá quente. Agradecido, tudo ele aceitou.

            “Shunrei, quem está aí?”

            Shiryu apareceu à porta, cauteloso. Logo encontrou o hóspede à mesa, o homem de túnica gasta e aparência ocidental. Tinha cabelos e barba já grisalhos e aparentava ter mais de cinqüenta anos. Relaxado, bebia o chá ofertado por Shunrei com gosto e encontrava-se já no final do copo.

            “Ah, Shiryu... Ele é um viajante, pediu para passar a noite aqui. Está tão frio lá fora, estou preparando algo quente para o dois.”

            O rapaz não respondeu, ficou estático nos próximos segundos, analisando o homem da cabeça aos pés, tentando encontrar algo que o tornasse suspeito. Seu sexto sentido piscava; alertava e alertava, achando que algo não estava certo. Não gostava daquele homem, mas também não podia expulsá-lo agora que Shunrei o deixara entrar. A ingenuidade e a bondade que a moviam eram tão grandes que Shiryu não conseguia recusar. Ainda que se sentisse desconfortável com a presença daquele viajante.

            “Shiryu, por favor, não quer acender a lareira? Fará com que o senhor se sinta mais aquecido.”

            Sem dizer uma palavra, ele obedeceu. Lá fora buscou lenha e empilhou-a cuidadosamente na lareira. Em seguida acendeu o fogo e o administrou diligentemente até que a madeira secasse. Shunrei levou o viajante para aquecer-se em frente à lareira. Shiryu ponderou por alguns instantes enquanto observava o hóspede descansar, mas logo procurou afastar quaisquer pensamentos para se dedicar à hospitalidade. Dirigiu-se a um dos quartos para preparar a cama, enquanto Shunrei terminava de cozinhar.

            “Tudo aqui é muito simples, senhor, espero que não se importe”, disse Shunrei sorrindo, enquanto servia o viajante.

            Este não se importou, apreciou o cozido que a anfitriã preparara como se fosse um fino prato de restaurante. Shiryu, apesar de permanecer a maior parte do tempo calado, não foi indelicado em nenhum momento e aceitou a companhia do senhor como se fosse da família.

            “Tive sorte em encontrar um casal tão simpático aqui nas montanhas. As pessoas da vila foram rudes e não quiseram dar abrigo de graça. Como não tinha dinheiro, achava que teria de dormir ao relento.”

            “Não é comum aparecerem viajantes por aqui. Mas dormir ao relento é muito perigoso com esse frio que está fazendo lá fora. Para onde o senhor está indo?”

            “Vim de muito longe para encontrar-me com meu pai. A casa dele fica muito além dessas montanhas, por isso, tenho viajado dia e noite sem parar.”

            “Deve estar tão cansado...Pode descansar o quanto precisar aqui, senhor.”

            O homem sorriu e agradeceu satisfeito. Tudo naquela casa tinha ar de proximidade. Depois percebeu que havia uma espécie de urna de bronze num canto da sala com um entalhe de dragão nele. Era mais um objeto entre outros ornamentos daquela casa, mas algo lhe chamou a atenção. Sentia que havia algo mais naquele objeto que transcendia qualquer coisa. Parecia... sagrado.

            Quando desviou a atenção da urna, percebeu que Shiryu o observava atentamente. Não parecia suspeitoso, mas cauteloso. Era como se por trás daquela hospitalidade houvesse um inferno caso ele cometesse um passo em falso. O rapaz desviou o olhar, concentrando-se na comida mais uma vez. Mesmo assim, seu semblante era de preocupação. Por outro lado, a garota sorria freqüentemente e se revelava feliz por ter mais uma companhia para o jantar.

            Após a refeição, Shiryu continuou a arrumar o quarto do hóspede, enquanto Shunrei tirava a louça e conversava com o viajante. Este precisava admitir que, embora o rapaz não parecesse tão amigável, realizava cada tarefa com tal perfeição que lhe tirava qualquer possibilidade de insatisfação. Shunrei guiou-o até o quarto, onde a cama, impecavelmente arrumada e acompanhada de um grosso cobertor, convidava-o a terminar o agradável dia da mesma forma.

            “Está meio empoeirado, espero que não se importe.”

            “Está tudo muito perfeito, senhorita. É um quarto muito bonito e bem decorado.”

            “Ele costumava ser do mestre de Shiryu. Agora que ele não está mais aqui, não o usamos mais.”

            “Entendo. Espero não estar incomodando.”

            “O senhor não é nenhum incômodo... Por favor, sinta-se à vontade.”

            E com isso, Shunrei fechou delicadamente a porta, deixando o homem sozinho. Já era tarde e os anfitriões dirigiram-se cada um ao seu respectivo quarto. Shiryu, no entanto, não conseguia adormecer, por mais que tentasse afastar os pensamentos da cabeça. Virava de um lado na cama, fechava os olhos e procurava pensar em outro assunto. Logo em seguida, acabava retornando às mesmas preocupações e voltava-se para o outro lado da cama. Por fim, levantou-se e foi procurar o ar puro das Cinco Montanhas fora de casa.

            Aquele viajante não lhe saía da cabeça. Sentiu que a energia do espírito daquele homem, o cosmos, era forte demais para ser de um humano qualquer. E anteriormente durante o jantar, flagrara-o observando sua urna do Dragão com tamanho interesse que ele não teve dúvidas: aquele homem não estava ali por acaso.

            Se Mestre Ancião estivesse ali, rapidamente resolveria o caso daquele viajante com calma e sabedoria.  Mas Shiryu, por mais bem treinado que fosse, ainda não conseguia administrar a ansiedade de seu coração por completo. Provavelmente não dormiria enquanto não visse ele e Shunrei sozinhos novamente.

            Foi quando sentiu o cosmos do viajante mover-se. Não sabia como, mas sua energia simplesmente sumiu de dentro da casa e reapareceu em outro local, não longe dali. Significava que ele se teleportara em uma fração de segundo. Nem mesmo o rapaz, com todo o seu poder, era capaz de fazer isso. Alarmado, correu ao encontro do homem com tanta velocidade que o mesmo se surpreendeu ao vê-lo chegar ali.

            “Então você veio, rapaz.”

            “Quem é você afinal? Por que veio para as Cinco Montanhas?”

            “Como me recebeu em sua casa, vou responder-lhe. Fui mandado por meu pai para testar a hospitalidade humana. Isso sempre foi feito desde os tempos mitológicos.”

            “Desde a época da mitologia? Isso significa que você não é humano...”

            “Isso mesmo. Meu nome é Hermes, filho de Zeus. Tomei esta forma temporariamente até cumprir minha missão. E creio que você tenha alguma relação com a deusa Athena, ou estou errado?”

            “Tem razão, Hermes, sou um cavaleiro de Athena, o Dragão Shiryu.”

            “Cavaleiro de Athena... Sim... Foram vocês que atraíram a ira dos deuses sobre os humanos após derrotarem Hades.  Mas não vim aqui acabar com você, estou aqui única e exclusivamente para testar os humanos. Falta pouco agora. Você e sua companheira me receberam cordialmente. Devo retribuir com um pedido. Suponho que queiram trazer de volta o tal mestre que tanto estimam, não é? Ou por acaso desejam morrer ao mesmo tempo para não abandonarem um ao outro?”

            “Hermes, por que os deuses se enfurecerem quando tudo o que fizemos era proteger Athena com nossas vidas?”

            “Porque são humanos. Humanos jamais devem se rebelar contra os deuses. Nós somos aqueles que tem o direito de guiá-los em todas as épocas e situações. Como faço agora.”

            Hermes acendeu seu cosmos, tão vasto que cobriu toda a região. A energia do deus transformou-se em uma negra e vasta nuvem, de onde raios começaram a cair sobre a vila mais próxima, causando incêndios e destruição. Shiryu imaginara que aquele viajante não traria coisa boa, só não esperava que fosse de tamanha grandeza.

            “Espere, Hermes! O que pensa que está fazendo? Aquela vila é inocente!”

            “Eles estão sendo punidos por egoísmo, cavaleiro de Athena. Deveria entender isso, já que zela pela justiça.”

            “Mas isso não é justiça, Hermes! Você mal os conhece e já se vê no direito de castigá-los? Não posso permitir isso! Eu peço a você! Não faça isso!”

            O deus interrompeu o ataque e olhou para o rapaz, surpreso:

            “É esse o pedido que faz depois de ter-me recebido em sua casa, cavaleiro?”

            “Se puder salvar a vida dessas pessoas, sim. É isso que peço.”

            “Que seja, então. Mas não vejo lógica nesta sua justiça. Aquelas pessoas eram rudes e egoístas, não quiseram dar a um desconhecido um simples abrigo para a noite.”

            “Deveria entender, pois faz a mesma coisa que elas.”

            Se aquele rapaz não fosse o que recebera em sua casa, Hermes com certeza o teria castigado por tamanho ultraje. Como comparar os atos dos humanos aos dos deuses?

            “Você me ofende, humano! Não me surpreende que os cavaleiros de Athena tenham atraído a ira dos deuses!”

            “Não estou ofendendo, apenas digo o que me é lógico. As pessoas da vila, que não o conheciam, recusaram-lhe o abrigo. Mas você, que também não as conhece, castiga a vila e lhes faz mal! Não importa se são egoístas ou não, nossa bondade não deve fazer distinção.”

            “É uma boa resposta, mas devo alertar-lhe: o dever dos deuses também é eliminar o mal existente em seu meio. Todas essas pessoas receberão, mais cedo ou mais tarde, o castigo quando a hora chegar. Poderia ter pedido que trouxesse o seu mestre de volta dos mortos ao invés de poupá-las.”

A idéia de trazer seu velho mestre de volta com certeza era atraente. O cavaleiro ponderou e lembrou-se do que aprendera na batalha de Hades. Não se podia trazer de volta uma flor que murchara. Todos possuíam apenas uma única vida.

“Não, não poderia. Por mais querido que ele tenha sido para nós, seria errado trazê-lo de volta. Mas não é errado desejar que essas pessoas continuem vivendo. Eu já me decidi.”

“Não devo contrariá-lo, então. Agora, minha missão terminou. Transmitirei suas palavras ao meu pai, cavaleiro de Athena. E agradeça à jovem Shunrei por mim.”

            O cosmos do deus desapareceu, assim como sua presença, deixando Shiryu sozinho. Este retornou para casa lentamente, enquanto sua mente absorvia o recente acontecimento. Shunrei já o esperava na porta quando chegou.

            “Shiryu, onde esteve? E o senhor viajante, o que aconteceu?”

            “Ele já partiu. Foi se encontrar com o pai.”

            “Ele poderia ao menos ter esperado até de manhã...”

            “Ele me pediu para agradecer-lhe em seu lugar.”

            O rapaz entrou em casa como se nada tivesse acontecido. Estava quase amanhecendo e, agora que a preocupação desaparecera, o cansaço e a noite mal dormida caíram sobre seus olhos. Dirigia-se ao seu quarto, enquanto Shunrei o observava.

            “Eu fiquei preocupada com você. Eu fiquei pensando o tempo todo que esteve fora... Talvez não tivesse sido uma boa idéia deixá-lo passar a noite conosco.”

            Shiryu parou e voltou-se a ela, com um olhar terno.

            “Não diga isso, fez a coisa certa. Tenho certeza de que ele precisava de nossa ajuda. Nosso mestre a criou para ter esse coração, Shunrei. Por favor, não o perca por minha causa.”

            ‘E não é que você acabou de novo salvando a minha vida com isso?’, acrescentou mentalmente. A garota sorriu e corou, numa expressão que ele não cansava ver. Mais tarde, quando se deitou na cama, Shiryu enfim sentiu seu coração mais leve. Até sentia-o mais leve do que antes de se encontrar com aquele viajante. Mesmo sem seu mestre por perto, sabia que, aos poucos, continuava crescendo em seus ensinamentos e, satisfeito, conseguiu finalmente fechar os olhos com tranqüilidade.

   

*FIM*

 

 

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