Ao Acaso

   

            A mulher andava distraída enquanto carregava uma pesada sacola de compras. Quase não notava as pessoas que passavam ao seu lado e os ruídos urbanos de Tóquio. Seus pensamentos estavam voltados para os problemas quem circundavam sua vida e seus pés comandavam o trajeto rumo ao seu pequeno apartamento inconscientemente.

            Em breve ela teria de fechar a loja. Com a pouca clientela de seu estabelecimento era impossível passar por mais um mês de aluguel. Ela já procurava um lugar para trabalhar, sem sucesso, e se perguntava como iria fazer para superar os maus tempos. Parecia não haver nenhuma solução. Indignada, Saeko suspirou profundamente e se religou com o mundo à sua volta.

            No fim da longa avenida, era possível avistar o Coliseu, obra da Fundação Grado de Saori Kido. Recentemente haviam sido realizados lá combates entre os ‘cavaleiros de Athena’, como diziam os jornais. Uma grande e sanguinária realização na opinião de Saeko. O campeonato foi cancelado durante sua realização, apesar de ter sido de ampla divulgação e de ter faturado eu seus poucos dias mais do que ela conseguiria em dezenas de anos. Semanas depois, o Coliseu foi misteriosamente incendiado. Diziam alguns que era obra de algum cavaleiro revoltado com o término das batalhas. Diziam outros que se tratavam de pessoas revoltadas com a violência do torneio.

            ‘Pelo menos esse show horrendo foi cancelado’, pensou a jovem comerciante logo em seguida. Ela já não suportava ver violência, e mais enojada ficou quando soube que alguns rapazes que participaram desta competição chegaram a ser internados no hospital da Fundação Grado em estado crítico. De fato, todos eles pareciam ser mais um bando de delinqüentes que não davam valor às suas próprias vidas.

            Saeko observou a enorme construção por mais alguns segundos, sem interromper a caminhada, até que seu pé deslizasse na guia e a fizesse perder completamente o equilíbrio. Desesperada, largou sua sacola para amenizar a queda e não pôde evitar que suas compras se espalhassem rapidamente pela rua, em uma fração de segundo. Tal fato, somado aos problemas financeiros que vinha enfrentando e o estresse, causou-lhe uma enorme angústia. Os olhos começaram a arder e ela lutou para evitar derramar lágrimas.

            Apenas não o fez porque ouviu uma voz em seu socorro. Um rapaz de provável origem estrangeira, que a fitava preocupado através de belos olhos azuis. Seus cabelos loiros reforçavam a imagem. Ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar, antes que ela pensasse em perguntar quem ele era.

            “Está tudo bem?”

            “Ah, sim, muito obrigada...”

            Desnorteada, Saeko só desejava estar o mais depressa possível livre daquela situação embaraçosa. Segurou o braço do rapaz, que a puxou para cima, mas sentiu uma dor aguda em seu tornozelo direito. Soltou um gemido, e o jovem rapidamente deixou que ela voltasse a se sentar na calçada.

            Saeko se amaldiçoou imediatamente. Além de ter passado por tudo aquilo, ainda teria que agüentar a dor da torção nos próximos dias. Perguntou-se como tanta coisa ruim podia acontecer em só uma época e novamente, quase chorou.

            “Está machucada... Espere, eu já te ajudo.”

            O moço rapidamente tratou de pegar as compras espalhadas e recolocar tudo na sacola semi-rasgada. E antes que Saeko conseguisse agradecer, ele já a ajudava a caminhar apoiada apenas na perna esquerda, com um cuidado excepcional, até que alcançassem um banco onde ela repousou.

            “Descanse aqui um pouco, até que consiga andar de novo. É melhor não ter pressa.”

            “Muito obrigada pela ajuda. Eu sou tão desastrada.”

            “Apenas aconteceu.”

            “Não, foi culpa minha. Estava distraída observando o Coliseu e nem me dei conta do degrau. Já bastassem as lutas que tiveram lá...”

            Ele riu para si mesmo, antes de concordar:

            “É verdade.”

            Sentindo que a dor apaziguara um pouco, Saeko se levantou com cuidado.

            “Acho que agora eu consigo andar. Muito obrigada mesmo...”

            “Não quer ajuda?”

            “Não, obrigada de novo. Desta vez vou chegar sã e salva.”

            “Tome cuidado então.”

            E com isso, ele partiu correndo. Receber a ajuda daquele rapaz fora o único consolo de Saeko no dia. Teria que esperar um pouco até que melhorasse para prosseguir o fechamento de seu negócio. Segurando firme sua sacola e desta vez prestando atenção no caminho, ela retornou lentamente para o seu apartamento.

 

 

            Dois dias depois, Saeko esperava impacientemente alguém entrar na pequena loja, Seu tornozelo estava inchado, mas melhorava aos poucos. Sentada em uma cadeira, observava inconsolável as pessoas passando em frente à loja, completamente desinteressadas em comprar algo. Já pensava em desistir quando sua irmã, Naho, se aproximou segurando uma revista.

            “Você viu isso, oneechan, a dona da Fundação Grado declarou que não há nenhuma chance de haver uma segunda Guerra Galáctica dos cavaleiros.”

            Saeko, desanimada, respondeu irritada:

            “Naho, pare de ler sobre essa besteira. Não sei o que você vê neste campeonato ridículo.”

            “Mas oneechan, todas as estações de TV estavam ansiosas pela volta do torneio, e ouvi dizer até sobre um abaixo assinado pela volta das lutas.”

            “Pra que, pra que mais lutadores acabem em um hospital?”

            “Eu li numa reportagem que todos eles concordaram em lutar e que estavam cientes de que poderiam até mesmo morrer na arena. Cada um faz o que quer da vida, não é mesmo?”

            “E que vida mais sem sentido eles tem, não é? Concordar em arriscar a própria vida pra entreter um público é o que eu chamaria de burrice. Você não vê, Naho, que eles estão estragando a vida naquela arena? Como pode se interessar em um bando de homens idiotas e violentos se matando e se exibindo pro público?”

            “Você não entende, oneechan, eles...”

            Naho interrompeu imediatamente sua fala ao se deparar com o olhar curioso do jovem parado em frente ao balcão, e sua pele adquiriu um tom levemente pálido. Saeko, sem perceber a presença dele, estranhou o comportamento da irmã:

            “Naho?”

            “Estou vendo que vocês estão em uma discussão acirrada, não? Querem que eu volte mais tarde?”

            A voz foi imediatamente reconhecida por Saeko, e finalmente ela fita o rapaz, o mesmo que a amparara antes quando escorregou na rua. Era tamanha coincidência, que seus olhos piscaram inúmeras vezes antes de reconhecerem a visão como real. Naho, por sua vez, tentou rapidamente disfarçar seu constrangimento:

            “B-Bem-vindo! Fique a vontade, não ligue pra gente, não estávamos falando nada sério... Não, não é isso, d-digo, não tínhamos a intenção de...”

            O jovem riu e fez um gesto com a mão, interrompendo sua fala:

            “Ah, não se preocupe. Eu não me importo com essas coisas.”

E voltando-se para Saeko:

“Entrei aqui por acaso, e fiquei surpreso ao encontrá-la. Seu pé melhorou?”

“Sim, ele melhorou bastante. Muito obrigada por ter me ajudado naquele dia. Por favor, fique a vontade.”

“Obrigado. Eu digo o mesmo para vocês.”

Dizendo isso, ele se voltou para as prateleiras de salgados, escolhendo um petisco para a tarde. Enquanto isso, Naho puxou Saeko para perto de si e mostrou uma imagem da revista que trouxera. Confusa, Saeko não sabia se prestava mais atenção no rapaz ou na foto, não conseguindo ver nenhum dos dois direito. Neste mesmo instante, dois homens entraram na loja, chamando a atenção das duas irmãs. Contente por ver dois possíveis clientes, Saeko se adiantou:

“Bem-vindos! Posso ajudá-los?”

Um dos homens retirou imediatamente uma faca de dentro do casaco, ameaçando-a:

“Talvez, se nos der todo o dinheiro do caixa.”

Vendo a enorme arma apontada pra irmã, Naho imediatamente começou a recolher o pouco dinheiro que lá havia, passando para o bandido. Saeko, quase chorando, permaneceu estática, tremendo de medo. Quando Naho terminou de passar todo o dinheiro, os dois homens foram se afastando aos poucos, de costas:

“Nem pensem em chamar a polícia, meninas, ou vão se arrepender.”

O ladrão que pegara o dinheiro esticou o braço para abrir a porta do estabelecimento, mas não pôde encontrar a maçaneta. Em uma velocidade impressionante, o rapaz nocauteara os dois antes que percebessem que ele havia reagido. Naho sorriu maravilhada para a atuação do jovem, enquanto Saeko observava abobada.

“Você conseguiu, puxa!”

Ele, com uma expressão neutra, pôs-se junto dos ladrões, tomando o cuidado de que eles não tentassem escapar casso voltassem à consciência:

“Chamem a polícia.”

Mais tarde, o jovem estava relatando o ocorrido para os policiais, enquanto Saeko respirava aliviada o fracasso do furto. Naho finalmente pôde alcançar novamente a revista e mostrar a tal figura para a irmã:

“Era isso que eu estava tentando lhe dizer naquela hora, oneechan! Ele é um deles!”

A face de Saeko, que havia recuperado um pouco de cor, voltou a ficar pálida quando viu a foto do rapaz na revista entre vários competidores da Guerra Galáctica. E ele a havia escutado falar mal dos lutadores que participaram do evento! No mesmo instante, a alma gelou, e o constrangimento anterior de Naho passou para ela.

“N-Naho... Por que você não me avisou antes?”

“Eu tentei, oneechan, eu bem que tentei!”

 

 

            Já à noite, Saeko se despedia do jovem guerreiro, entristecida:

“Queira me perdoar pelo meu comportamento... Ajudou tanto, e nem pude retribuir de maneira adequada.”

            “Não tem o que pedir desculpas. Não fez nada de errado.”

            Saeko desviou o olhar para baixo, envergonhada:

            “Fiz sim... Eu não sabia... Não sabia que você era um deles... Não tive a intenção de magoá-lo... Nem o conheço, mas acaba de me ajudar em dobro, enquanto eu só agradeço com ofensas... Eu estava errada e falei sem pensar, fui tão boba...”

            Ele riu, quebrando o clima pesado que Saeko insistia em impor pra ocasião:

            “Eu gosto de franqueza, é bom que traga uma opinião. E agora sabe o que sou e quem sou. Meu nome é Hyoga.”

            “Eu sou Saeko, Hyoga. É um enorme prazer. Pode ter certeza que de agora em diante, vou pensar duas vezes antes de falar mal dos cavaleiros.”

            Hyoga sorriu, pegou seu tão almejado salgado e acenou um adeus:

            “Talvez ainda nos encontremos. E podem falar mal à vontade deste torneio, pois ele merece!”

            O novo encontro com o jovem que a ajudara fez Saeko renovar suas esperanças quanto à resolução de seus problemas, que aliás se extinguiram depois do assalto. Naho contou para todos os amigos do bairro sobre o heróico ato do cavaleiro que as salvou do assalto. E, apesar de Saeko ter ficado furiosa com a irmã, a história trouxe o salto decisivo para a prosperidade do pequeno estabelecimento.

 

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.