Cicatrizes da Vida na Morte

 

 

        O rapaz observou o alto céu ao enxugar seu suor. A imagem se distorcia com os bafos quentes expelidos do vulcão, como se transparentes lentes flutuassem ao seu redor, atrapalhando a visão. Até mesmo as ondas que quebravam em suas pernas transmitiam o calor daquela ilha. A sensação era a de que estava em uma frigideira, em fogo baixo e queimando aos poucos. Sensação esta que jamais esquecera desde a última vez que estivera ali.

        Por que ele havia voltado? Poderia ter permanecido no Japão, ao lado de seu irmão e de seus amigos. Ou, caso não quisesse companhia, poderia ter ido a qualquer outro lugar ou país, como fazia normalmente. Por que, então, aquele impulso pelo passado, o qual ele gostaria de ter enterrado bem fundo em suas lembranças? O que o fizera pagar tanto por uma viagem que sabia que não iria agradá-lo?

        Aquele ar, aquela temperatura, aquela paisagem... Só traziam doloridas lembranças de uma época em que a esperança parecia mais morta do que viva, e que logo em seguida de fato morreria. Seus olhos cerraram-se por instantes, revivendo em sua imaginação a cena que tanto assombrava seus pesadelos. Mas agora ele não mais tentava impedi-la, e sim deixá-la correr como o estalo de um chicote, submisso. Ele já havia se acostumado com o gosto amargo da tristeza.

        E como que acordando do breve pesadelo, ouviu um chamado por trás. Ao tornar-se ao navio, deparou-se com a enorme e pesada carga chocando-se contra o seu corpo. Seus braços responderam com rapidez e ele a suportou com firmeza. O marinheiro esbravejou-se com ele, exigindo o trabalho prometido em troca da viagem. O jovem fitou o furioso homem por alguns segundos sem nenhuma expressão, virou-se sem responder e continuou com o descarregamento.

        E do silêncio nasceu um sorriso irônico. Estava recebendo ordens novamente. Ele, Ikki, o cavaleiro de Fênix, que sempre odiou submeter-se a uma outra pessoa. E justo naquela ilha, a ilha da Rainha da Morte, onde a tantas ordens obedecera. Mas aquela seria a última vez. Não viera para dominar e nem ser dominado. Queria apenas olhar um pouco para trás, ter certeza daquilo que ele enterraria em seu coração.

        Terminado o descarregamento do navio, ele estaria livre para agir como bem entendesse, tal como sempre desejou na infância. Constatou com os olhos a repetição do cenário de anos atrás: o chão duro, constituído principalmente de pedras e areia quente; o vulcão em constante atividade, amedrontando os visitantes e ameaçando os moradores; e a melancolia daqueles que arrastavam consigo penosas lembranças dos sofrimentos que ali tiveram. O rapaz sentiu um frio percorrer-lhe a espinha lentamente ao ouvir gritos de dor, mas logo voltou a si: era tudo uma diabrura da imaginação.

        ‘Mal cheguei e já começo a imaginar coisas ruins. Talvez vir para cá não seja uma boa idéia, afinal. Mas agora não há volta.’

        Os primeiros passos foram tímidos, mas logo ele reganhou determinação para continuar e sua postura mudou para a de curiosidade. Apesar do lugar ser o mesmo, a maior quantidade de pessoas ali residindo tornava-o menos assustador. A curiosidade também invadia os transeuntes, que ficavam se perguntando o que aquele estranho japonês fazia em lugar como aquele. A ilha da Rainha da Morte era afastada demais da terra, desconhecida, não oferecia nenhum atrativo turístico. Muito pelo contrário, ela não podia ser descoberta por ninguém, pois a única lei que ali vigorava era a da sobrevivência.

        Ikki sabia disso. E melhor do que ninguém. Nascer na ilha da Morte significava ter um de dois trágicos destinos: ser opressor ou oprimido. Para os moradores dali, não existia meio-termo em sua hierarquia, apenas os extremos. Para os fracos, a miséria e a escravidão; para os fortes, a pobreza e a dominação. O sistema, ele tinha certeza, dificilmente mudaria. Vivera ambos os extremos: de início, fora um pupilo, que quase não se distinguia de um escravo; depois, fora mestre, dominado pela loucura e a ambição. E nenhuma das duas vidas se encaixou em seus princípios. Jamais lhe agradou a idéia de receber ordens e ser humilhado, mas também não era seu desejo destruir outras vidas.

        Não tardaria para que ele ouvisse gritos de dores novamente. Mas desta vez não eram apenas um devaneio, e sim, a real vida da ilha. Uma das centenas de escravas trabalhando em troca de nada sendo fustigada por um conhecido chicote. Ele o reconheceu de imediato, e cerrou os punhos com força, não sabia se era mais de raiva ou de força para não se mover e cometer uma loucura. Dado o primeiro passo, sabia que perderia o controle sobre si próprio.

        As dementes palavras correram mais uma vez em sua mente. ‘Odeie, odeie, odeie!!’ Ikki fechou os olhos em desespero. Não esperava ouvi-las novamente. Mentalizou a tenebrosa máscara de seu mestre repetindo-lhe constantemente o mesmo verbo, no imperativo. Odeie o inimigo, odeie o mestre, odeie os amigos, odeie os pais, odeie o irmão... Odiar o Shun! Quantos erros cometera por ser fraco diante do ódio! Não podia mais aceitar. Furioso, abriu os olhos e bradou:

        “Basta!!”

        Um velho interrompeu o caminho de sua mão que segurava o chicote contra as costas da garota. Sentiu o medo agarrar-lhe o espírito, não pela força do grito de Ikki, mas por reconhecer a voz que o interrompera. Maior ainda era a surpresa por encontrá-lo vivo. O maldito japonês que treinava para ser cavaleiro. Ele quis correr, mas seu orgulho ordenava que ficasse ali mesmo e o encarasse sem medo. Mas sabia que estava se arriscando à morte. Mexer com um cavaleiro era assinar o atestado de óbito.

        Apesar de estar um pouco distante, Ikki não quis arriscar sua sanidade. Procurou manter a mente fria, enquanto constatava a gravidade dos rasgos nas costas da escrava causados pelo chicote. Eram tão parecidos com aqueles que ele costumava ver. Tão profundos e cruéis, como naquele dia ele constatara de perto.

 

 

        “Está com medo?”

        “Um pouco, mas não deveria ter. Afinal, estou com você...”

        Ikki não respondeu. Sabia que Esmeralda tinha o total direito de ter medo, e por isso procurava se encher de máximo cuidado possível. Alcançou o rosto dela com gentileza e, embora aquela prisão fosse escura, pôde vê-lo corar levemente. Sorriu e viu seu sorriso ser respondido por outro.

        “Não vou fazer nada que não queira...”

        O toque foi tenso. As escravas da ilha da Rainha da Morte não eram apenas obrigadas a realizarem serviços pesados, como também eram usadas como objetos de prazer de seus donos. E com Esmeralda não era diferente. Ao senti-la estremecer ao primeiro toque em seus braços, Ikki sentiu-se borbulhar de ódio pelo dono de sua amada. Como ele queria massacrá-lo e fazê-lo pagar pelos traumas que ela carregava!

        Esmeralda tinha certeza de que não temia a Ikki. Mas tinha medo das lembranças. Tinha medo de reviver naquele momento, que deveria ser o melhor de sua vida, outros momentos que foram os piores. Mas ela não queria ficar presa a eles para sempre. Abraçou o companheiro com força e aproximou seu rosto ao dele. E se deliciou com a diferença do beijo de Ikki com o de seu dono. Era gentil e macio ao partilhar sentimentos e não violento como a dominação.

        Ele era diferente dos outros. Deixava ser humilhado diariamente para o bem de um alguém querido e não por causa do destino. Tinha orgulho de ser quem era, de ser o Ikki, não um escravo ou um opressor e era por ele que ela queria viver. Arriscara sua vida ao fugir até aquela prisão, onde ele era confinado após o treinamento de cavaleiro, mas não se importava. Ikki oscilava entre o amor e o ódio, entre o bem e o mal, e Esmeralda sabia que era a única em quem ele podia se apoiar. Um dia ela haveria de morrer de qualquer jeito, ficaria feliz se fosse por ele.

        Um pouco receoso, Ikki escorregou sua mão da nuca para as costas de Esmeralda. Esta aceitou o carinho com mais beijos, mas interrompeu com um gemido. Ele também parou, atônito. Acidentalmente esbarrara com seus dedos em um ferimento causado pelo chicote do velho, que castigava Esmeralda com freqüência. Era óbvio que os machucados cicatrizassem com dificuldade. Amaldiçoou-se mil vezes pela ignorância.

        “Me desculpe, Esmeralda...”

        “Está tudo bem, Ikki... Não precisa se preocupar...”

        “Hoje ele bateu em você de novo, não é?”

        “Sim...”

        Esmeralda se afastou um pouco dele e se desvencilhou do vestido vermelho que escondia um pouco os outros tons da mesma cor. Apalpou suas costas com uma das mãos e observou nela o sangue da ferida ainda não cicatrizada com os olhos molhados de lágrimas. Até mesmo sem estar lá o seu dono continuava sendo um obstáculo para Ikki amá-la. Estavam escondidos, tinham certeza de que ninguém os incomodaria ali, mas mesmo assim, a ilha da Rainha da Morte tentava impedir seu único consolo. Olhou para baixo, entristecida. Sabia que Ikki também carregava graves ferimentos no corpo. Como poderia ela, então...?

        Ikki não permitiu que ela continuasse seus pensamentos. Aproximou-se novamente e a fez encostar sua cabeça contra o peito. Sussurrou como se tivesse medo de que as paredes ouvissem:

        “Vem aqui... Perdoe-me... Pode tocar em meus machucados à vontade, eu agüento... Vamos...”

        Mas as lágrimas já pingavam no chão de pedra. Quando abusada por seu dono, suas costas a paralisavam de dor devido aos arranhões que levava naquele lugar. O velho parecia se deliciar com seus gritos. Ikki tocara em um dos cortes de leve e pedira imediato perdão. Ela simplesmente não sabia se chorava de tristeza pelo sofrimento como escrava ou de alegria por ser acolhida por um homem como ele.

        Foi nesse momento que Ikki viu de perto, através do abraço, a profundidade dos ferimentos de Esmeralda. O rasgo em que tocara era recente, daquele dia mesmo, e era natural que ainda não estivesse fechado. Marcas de chicotadas antigas cediam o lugar às novas, e parecia não haver um pedaço de pele sem cicatriz. Não se sabia se a marca da primeira chicotada ainda estava lá ou se já havia sido coberta pelas outras. Mas mais do que os danos físicos, ele viu de perto a dor da escrava e a impossibilidade de protegê-la como gostaria. Tencionava secar-lhe as lágrimas quando se deu conta de que seus próprios olhos mal retinham o salgado líquido. E permaneceu imóvel.

 

 

        “Já chega, velho. Você ainda abusa de suas escravas. Já não basta o que fez com Esmeralda?”

        O velho tremia da cabeça aos pés. Não estava mais diante do aprendiz de cavaleiro, submisso a todas as ordens recebidas na ilha, mas sim de um cavaleiro formado, livre, a quem agora devia obediência. Mesmo na época de treinamento, sabia que poderia ter sido morto por ele. E agora aquele maldito japonês era um cavaleiro, tomado de uma enorme força sobrenatural, e trazia a prova pendurada em suas costas, numa urna de bronze: a sagrada armadura de Fênix. Não conseguia se conformar, aquele moleque continuava sendo o mesmo insolente de sempre.

        “Não pense você que pode mandar em mim, moleque. Pode ser um cavaleiro agora, mas não pode controlar minha vida. Esta é a minha escrava e eu tenho direito de fazer o que bem entender com ela! E eu não fui o responsável pelo que aconteceu com Esmeralda, foi você que...”

        “Não fui eu que violentei Esmeralda, maldito!!”

        Ikki fervia de ódio. Suas unhas já cravavam na carne de sua mão e faziam seu punho sangrar. Já estava mais próximo da loucura que da sanidade. As palavras novamente invadiram sua mente, ‘odeie, odeie, odeie’, a principal lição de seu mestre na ilha da Rainha da Morte. Ser um cavaleiro do ódio, do mal, um verdadeiro demônio. Ele sentiu que já estava se aproximando de seus limites. O rosto do homem, que de início procurou esconder as marcas de ira, tomou um tom vermelho ao mesmo tempo em que seus olhos fitavam o cavaleiro de maneira desafiadora:

        “Você ainda não consegue enterrar o passado, garoto? Esqueça aquela inútil da Esmeralda! Esqueça esta ilha! Vá embora daqui, seu idiota!!”

        “Chega!! Como pode falar assim dela?!”

        E o primeiro passo foi dado. Ikki correu e saltou sobre o velho, pronto para golpeá-lo no peito, como fez uma vez com seu próprio mestre. Sua consciência gritou em um apelo, mas o punho continuou apontado para o coração do homem, que caiu ao chão e esperava o temido golpe em lágrimas. Mas o cavaleiro não se importava. Queria matá-lo. Há anos queria esmigalhar aquele podre coração e jogá-lo na lava do vulcão. Queria jogar em suas costas o peso do mundo, do Sol, de todos os planetas do Universo! Haveria de vingar Esmeralda!

 

 

        “Esmeralda, sua inútil, não sabe fazer nada direito?!”

        “Por favor, me perdoe, senhor! Estou tentando fazer o melhor...”

        Mas o velho não escutava. O chicote estalava sem parar nas costas da escrava. Sem forças, ela não tinha nem mesmo como se proteger. Naquele dia, o treino de Ikki havia se estendido até as terras do dono de Esmeralda e, em um violento golpe de seu mestre, o pupilo fora atirado contra a parede de um poço, o único da ilha, quebrando-o. No entanto, nenhum cavaleiro ou pupilo deveria assumir a responsabilidade pelo estrago. Cabia ao proprietário do terreno consertar qualquer dano. O velho encarregara Esmeralda de tal tarefa, mas os limites de suas forças a impediam de carregar as pedras que seriam utilizadas.

        “Você realmente não presta pra nada, garota estúpida! Merece mais é morrer!”

        O chicote estalou com mais força, formando um rasgo no vestido da escrava. Esta já não tinha mais forças para reagir. Provavelmente seu dono a levaria para a cama mais uma vez naquela noite a fim de descontar a raiva. Não havia mais escapatória. A cada segundo, um novo golpe, a cada golpe, mais uma dor. Até que se cessou repentinamente.

        “Pare com isso agora mesmo!”

        Ikki correra ao local ao ouvir os gritos de Esmeralda. Tremia de raiva e seus olhos fulminantes já impediam a continuidade da tortura. Naquele momento, nenhum golpe em Ikki poderia ser mais profundo do que aquele que acabara de presenciar. Não podia admitir o sofrimento de um ente querido sem a mínima possibilidade de ajuda.

        “Você de novo, seu japonês idiota! Já disse para não interferir!”

        “Agora é que eu te mato, maldito!!”

        Ao ouvir a tão conhecida voz, Esmeralda levantou a cabeça do chão em desespero:

        “Não, Ikki, Pare!”

        Era tarde. Ikki não podia aceitar mais uma vez aquele pedido. Iniciou uma série de golpes no rosto do homem, furioso. Ele não precisava de uma arma para matá-lo. Bastava seu punho para apagar a última chama de vida daquele velho que tanto odiava. Com isso, Esmeralda ficaria livre dos estupros e das chicotadas. Ela começou a chorar freneticamente e agarrou um dos pés de Ikki:

        “Chega, Ikki, você não deve matá-lo! Não deve!!”

        Ikki interrompeu o ataque como se acordasse de um transe com o punho a um centímetro do rosto do inimigo. Observou-o por um segundo com imensurável desprezo antes de largá-lo sobre uma rocha com força e de ir ajudar Esmeralda a se sentar sobre uma das pedras. Logo em seguida, também o fez, mas no chão e acompanhado de um profundo suspiro.

        “Seria tão mais fácil se ele morresse...”

        Ela sabia o quanto ele estava decepcionado por não ter atingido o velho mortalmente, mas estava satisfeita. Ikki perdia seu olhar no infinito, mais calmo, com um tom triste em suas palavras. Ela ainda não o havia perdido. Muitos discípulos de cavaleiros perdiam a razão após matar naquele lugar. Movidos por ódio, apenas restaria para eles o ódio e nada mais. Ela não podia permitir que Ikki se desviasse para tal caminho, por mais que sofresse.

        “Ninguém tem o direito de matar, Ikki... Por favor, não se preocupe comigo... Vou estar bem...”

        “Isso eu nunca vou aceitar, Esmeralda, nunca!”

        Dizendo isso, levantou-se e fitou-a nos olhos:

        “Não posso deixar de me preocupar com você. Já me ajudou tantas vezes e nunca pude fazer nada para compensar...”

        Era verdade. Esmeralda sempre arriscava a vida, indo visitá-lo à noite em sua prisão para curar-lhe as feridas. E ocupado com o treinamento, ele ainda não tivera uma chance para agradecer pelo apoio. Mas naquele dia, seu mestre encerrara o treinamento mais cedo por ter outros compromissos. Decidido, Ikki aproximou-se do velho, que começava a se levantar lentamente da rocha, estonteado. Agarrou-lhe a camisa com força e disse, em um tom ameaçador:

        “Eu assumo a responsabilidade, velho. Conserto seu precioso poço, contanto que deixe Esmeralda em paz! Está muito fraca e precisa de descanso, além de uma alimentação decente! Se não mantiver a palavra, não terei piedade da próxima vez!”

        O dono, temeroso de novos ataques, mal raciocinou a fala de Ikki para concordar. Mesmo que um discípulo de cavaleiro valesse tanto quanto um escravo na ilha, ele sabia que nada impedia que fosse morto por aquele japonês.

        “E-Está bem... E-Eu... faço...”

        Aborrecido, Ikki o largou novamente e foi carregar as pedras. Ao se aproximar de Esmeralda, tocou sua mão em um rápido carinho:

        “Deixe que eu cuido do resto. Vá descansar.”

        E ergueu uma das pedras sobre o ombro sem muito esforço. Foi neste instante que o velho percebeu a inversão de papéis. Ikki não era mais o monstro que tinha o poder de matá-lo, mas sim um escravo temporário às suas ordens. Daquela forma, ele adquirira a autoridade para descarregar sua ira no discípulo de cavaleiro que tanto o infernizava. Em seus lábios, surgiu a forma de um sorriso mordaz e repulsivo. Agarrou seu chicote com firmeza e causou, com seu estalo, uma linha de sangue nas costas do garoto:

        “Faça direito, seu moleque cretino!”

        Ikki sentiu o golpe e pensou em revidar, irritado. Não o fez. Xingou o homem mentalmente e continuou o trabalho em silêncio.

 

 

        O velho chorava sem parar. Ao lado, uma enorme cratera causada pelo golpe de Ikki. Este permanecia imóvel, na mesma posição de ataque, como se o tempo simplesmente tivesse parado ao tocar o chão com seu punho. Não conseguiu matá-lo. Pela mesma razão de anos atrás. Pelo chamado que o impedira naquela vez.

        “Você tem muita sorte. Se dependesse de mim, esta cratera estaria no lugar de seu miserável crânio.”

        Ikki se levantou silenciosamente e partiu. Não queria permanecer mais nenhum minuto perto do homem que tão pouco valia. Sentira Esmeralda chamá-lo no instante do golpe, impedindo-o, e por isso não pudera realizar sua vingança. Quase havia se esquecido do desejo de sua amada. Ela jamais quisera a morte de ninguém da ilha, nem mesmo de seu cruel dono. Sua vida era apenas tortura, mas ainda assim a valorizava.

        De fato, ele estava detestando aquela visita. Gostaria de ter trazido seu irmão Shun, como segurança para que não cometesse nenhuma loucura como quase acontecera, mas sabia que ele se sentiria culpado. Originalmente, Shun é quem deveria ter sido mandado para a ilha da Rainha da Morte para treinar como cavaleiro, mas Ikki o poupou de tal sofrimento. Ikki prometera-lhe voltar como cavaleiro ao Japão, e por sua palavra agüentou todas as humilhações que teve de passar no inferno sobre a Terra. Seu irmão já se sentia culpado por tê-lo deixado passar por tantas tristezas, e observar de perto a crueldade da ilha poderia agravar seus sentimentos.

        O jovem cavaleiro fez seus passos lentamente até um dos pontos mais altos da ilha. Seu verdadeiro objetivo da viagem. Dois pedaços de madeira atados perpendicularmente na forma de uma cruz marcavam o local. Um túmulo simples, mas grande em valor. Ikki abriu a urna de sua armadura, não para retirar sua veste como sempre fazia, mas sim uma coroa de flores trazida de sua terra natal. Pendurou-a na cruz e sussurrou uma breve oração. Em seguida, seus dedos passearam pela madeira da cruz, enquanto ele se encontrava imerso em pensamentos. Respirou fundo, antes de iniciar uma fala envergonhada:

        “Eu quase fiz de novo, Esmeralda. Quase o matei. E você me deteve mais uma vez. Pareço um tolo, quanto trabalho lhe dou por ser teimoso... Você tinha medo que eu perdesse a razão como aconteceu com os outros, fez de tudo para impedir, mas não pôde... Eu fui um fraco e ainda sou. Mas você... Como foi forte em agüentar tudo aquilo, como foi sábia... Como o meu irmão... Se eu tivesse sido mais forte naquele dia, quem sabe você ainda estaria aqui, ao meu lado. Em parte, o velho tem razão. Fui o causador de sua morte de uma maneira indireta, e não sei se algum dia vou me perdoar por isso. Sonho a toda hora com aquele dia horrível e hoje acredito que é alguma forma de penitência. Sei que essa idéia não lhe agrada...”

        Ele suspirou e sentou-se no chão como fizera naquele dia em que a resgatara. Sorriu melancolicamente, sem tirar os olhos da coroa de flores que balançava suavemente à brisa, a confusão dissipando-se de sua mente.

        “Você pode me perdoar...?”

        Fechando os olhos, Ikki não sentiu o tempo passar. A noite caiu sem que ele percebesse. E não importava. Mesmo estando no túmulo, mesmo sem poder conversar com ela, tocá-la ou simplesmente vê-la, sentia-se reconfortado, calmo. A viagem em nada lhe agradou até aquele túmulo, o caminho era árduo mentalmente, mas a recompensa era única. Podia sentir a presença dela. Não no solo sobre o qual sentava, mas dentro de suas lembranças, tão forte quanto o presente.

        E a ironia aparecia mais uma vez. Um lugar sagrado no meio do inferno, um momento de paz dentre torturas e humilhações. Se de início ele não quis fazer essa viagem, agora não queria encerrá-la. Aquela pessoa era a única que ele gostaria de salvar do passado, para fazerem tudo que a ilha da Rainha da Morte os impediu de fazer. A coroa de flores que ele trouxera, uma migalha do que ele gostaria de mostrar-lhe. Aquele momento, uma fração desprezível comparado com o tempo que com ela gostaria de partilhar. Era o resto da vaga noção de felicidade que experimentara em vida, o seu único impulso para o passado. Era quase nada, e ao mesmo tempo, tudo.

        Se o infinito permitisse, infinitamente Ikki gostaria de lá ter ficado. No entanto, ele tinha de cuidar de seu presente, de seu irmão e de seus amigos. Com alguma relutância, ergueu-se e pendurou a caixa de sua armadura nas costas. Desejou olhar mais uma vez para a coroa de flores, usufruir mais um pouco daquele valioso momento. Contudo, somente sua boca se moveu, para originar um enigmático sorriso e marcar sua partida.

        Enquanto embarcava no navio que o levaria de volta à sua terra natal, observou demoradamente cada morador daquela ilha. Os escravos arrastavam-se pesadamente entre as pedras, carregando outras pedras. Os donos gritavam com violência, reclamando do trabalho malfeito, de suas vidas e infelicidade. Um grupo de homens pescava, sem conseguir o suficiente para a sua subsistência. Aquela era a ilha da Rainha da Morte. Um lugar mais morto do que vivo, mas de onde floresceu uma vida com toda a sua força e beleza. Uma vida que ele jamais esqueceria. A medida em que o navio se afastava, Ikki via o horizonte devorar lentamente aquele minúsculo pedaço de terra para o nada.

 

*FIM*

 

 

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