Confinadas
Lágrimas
“Venha, rápido!”
O garoto era arrastado pelo braço pelo homem coberto de cicatrizes. Ele
tentava se livrar da mão que o machucava, em vão. Alex não queria ir com
aquele sujeito mal encarado e bruto. Ele queria estar perto dos pais e dos
quatro irmãozinhos, onde estaria seguro. Faminto, mas seguro.
“Me deixe, eu quero ficar com os meus pais!”
“Você não é mais dos seus pais, garoto! Agora você é meu e terá
que trabalhar pra mim!”
“Mamãe!!”
A mãe olha para o lado, tentando esconder as lágrimas do filho que
partia. Ela sentia-se impelida de ir atrás dele e devolver o dinheiro que
recebera. Se ao menos ela pudesse ter condições de sobreviver sem ter que se
desvencilhar de cada filho que gerara, mesmo que muito mal, estaria feliz.
Eles embarcam em um pequeno e mal conservado barco. O destino seria uma
das ilhas perto, a ilha da Rainha da Morte, onde residiam vários guerreiros
sanguinários. Com certeza o dono de Alex devia ser um deles. O homem finalmente
o solta, mas não deixa de permanecer por perto.
“Chegaremos mais ou menos em uma hora. Quando isso acontecer, começará
a trabalhar imediatamente. Tem muita coisa pra se fazer.”
O homem observava calmamente o mar, sem dar a mínima para as lágrimas
que Alex derramava.
Alex despeja o balde cheio de comida pros porcos e volta pra casa.
“Já terminou?”
“Já.”
“O que acha de darmos uma escapada?”
“Não acha que o mestre Jango ficará zangado?”
“Ah, Alex, se você pensar só desse jeito, nunca se divertirá um
pouco! O mestre Jango nem ficará sabendo, ele está treinando aqueles garotos
de novo!”
Helen lhe oferece a mão e os dois saem correndo. Já fazia quatro anos
que Alex tinha chegado à ilha da Rainha da Morte e conhecido Helen, outra
escrava de Jango. Helen era diferente de outras garotas escravas da ilha. Mesmo
sendo rigorosamente castigada por Jango, continuava com aquele espírito forte
de liberdade que mantinha enquanto cumpria as mais duras tarefas. Desde o
primeiro dia, Alex quis conhece-la melhor e não fazia muito tempo que eles
namoravam.
Os dois chegam a um campo cheio de flores. O único lugar da ilha que
tinha alguma beleza e era o preferido dos dois. Mesmo com a sua situação
atual, a presença de Helen permitia que ele tivesse forças para agüentar o
cruel cotidiano da ilha.
“Alex, eu quero dar uma escapada.”
“Ora, nós já não demos?”
Helen ajeita a cabeça no peito de Alex, pensando nas melhores palavras
de dizer o que queria.
“Não, quero dizer escapar de verdade, ir embora dessa ilha para
sempre.”
“Mas se fôssemos para uma outra ilha, mestre Jango nos acharia.”
“Eu quero dizer um lugar além das ilhas, bobo. Existem navios que
trazem aqueles garotos que querem treinar. Talvez se nós pudéssemos entrar em
um deles sem que ninguém nos visse, poderíamos escapar do mestre Jango.”
Alex refletiu. A idéia não era nada má. Mas se Jango os descobrisse,
iria castiga-los tanto a ponto que desmaiassem. Ele tinha certeza disso, pois
diversas vezes não conseguia se levantar depois de levar um castigo de Jango.
“Mas... se Jango descobrisse...”
“Eu sei, querido. É um risco que estou disposta a correr. Mas eu não
penso em fazer isso sem você do meu lado.”
Alex queria fazer aquilo, mas ainda sentia uma ponta de receio. Ao
perceber a preocupação em seu olhar, Helen o abraça com carinho.
“Não quero forçá-lo a fazer isso, Alex. Você também precisa querer
com certeza. Esperarei o quanto tempo for necessário pra fazer isso.”
“Eu vou pensar nisso, sério mesmo.”
Os dois caíram em silêncio. Uma brisa quente, mas gentil, trazia um
pouco de paz para os dois.
De repente, um barulho vindo por trás chama a atenção dos dois num
sobressalto, com o medo de que fosse Jango. Era apenas um outro casal que também
viera se desligar um pouco da tortura. Eles tinham mais ou menos a mesma idade
que Helen e Alex e como eles, também sofriam horrores lá.
“É a Esmeralda.”
Helen conhecia praticamente todos os escravos daquela ilha, pois adorava
sair conversando com todos lá, embora a maioria fosse um bando de pessoas
individualistas e mesquinhas. Mas Esmeralda não era desse jeito. Ela sempre se
dirigiu a todos de maneira doce.
O rapaz que acompanhava Esmeralda era um daqueles jovens que treinava
para ser um guerreiro. Era fácil reconhecer um deles, pois normalmente eles
carregavam mais cicatrizes que os outros, além de estarem sempre treinando,
mesmo quando o mestre não estava presente. Helen observava os dois sem sair do
lugar.
“Aquele é Ikki. Esmeralda me contou que ele está treinando pra poder
voltar à terra natal como um cavaleiro para rever o irmão mais novo. Parece
que todos os dias ele fica quase morto com a surra que o mestre lhe dá. Acho
que deve ser mais difícil que ser um escravo, mas pelo menos ele tem chance de
sair daqui sem ter medo de ser pego...”
De repente, o dono de Esmeralda aparece e começa a surra-la. Helen e
Alex saltam para trás de uma pedra, com medo de terem sido notados lá. Ikki se
enfurece e parte pra cima do velho, jogando vários golpes. Alex observava cada
movimento dele, os golpes que saiam com perfeição e a força com que ele os
aplicava. Apesar de ele ser um jovem bastante forte por causa dos diversos
trabalhos pesados que era obrigado a realizar, ele não possuía metade daquela
força que Ikki estava usando para proteger Esmeralda. Se ele tivesse aquela força,
Helen nunca mais teria que sofrer os castigos que lhe davam tantas cicatrizes.
Desde
aquele dia então, Alex passaria a dedicar no mínimo umas três horas por dia
treinando luta, observando os garotos que lá treinavam. Helen estranhou o fato
de ele passar menos tempo com ela e mais treinando, como se ele quisesse se
tornar um daqueles guerreiros. E quando ela lhe perguntou, ele simplesmente
respondeu que não queria ser um daqueles guerreiros, mas queria ser mais forte.
Um dia, quando Alex praticava com umas rochas, sentiu uma energia
surgindo dentro dele, que saia pelo seu corpo e quebrava rochas com uma força
impressionante. Era essa a força que ele viu no Ikki aquele dia, e era essa força
que ele queria para proteger Helen. Haviam se passado quase dois anos desde
aquele dia, e ele sentia que chegava o momento.
“Helen, vamos
escapar.”
“Como?”
“Você não me disse que queria fugir para sempre dessas ilhas? Pois
bem, estou pronto pra isso. Já chequei tudo, um dos guerreiros me contou que
amanhã à tarde chegariam mais uns garotos para treinar e nesse momento
poderemos aproveitar pra fugir.”
“Mas o que aconteceu pra você mudar de idéia assim, Alex? Anteontem
você me disse que ainda não estava pronto para fugir comigo...”
“Acontece que agora eu não tenho mais medo de fugir, Helen. Quero sair
daqui o mais depressa possível, está de acordo? A primeira coisa que quero
fazer quando encontrarmos um lugar seguro será montar a nossa família.”
Helen sorriu, mesmo não compreendendo o comportamento de Alex naqueles
dias. Mas com certeza ela haveria de entender quando os dois estivessem longe
daquele lugar horrível.
No dia seguinte, ambos procuraram manter o ar normal e realizaram as
tarefas que tinham com rapidez. A força sobrenatural que Alex adquirira foi uma
ajuda decisiva para conseguir fazer tudo antes de se prepararem para partir e
Jango não desconfiasse deles.
Os dois pegaram os caminhos mais difíceis e íngremes, mas discretos
para se chegar ao cais, com toda a preocupação de não serem pegos. Enfim, os
navios apareceram e Alex e Helen puderam perceber marinheiros que entravam e
saiam concentrando o movimento em torno de um cargueiro. Era nele que eles
puderam ver os garotos descendo. Jango não estava a vista em nenhum lugar e os
dois sentiam a esperança de sair daquele lugar mais próxima que nunca.
“É a nossa chance, Helen! Por aqui!”
Alex conduziu Helen até o meio da multidão que esperava poder comprar
os mantimentos que eram trazidos lá. O barulho era grande e Alex segurou a mão
de Helen firme para que não pudessem se perder. Ele esticou o pescoço na
multidão e percebeu que Jango estava se aproximando ao longe. Era tudo ou nada.
“Helen, Jango está chegando, corra agora para o navio antes que seja
tarde, estou bem atrás de você, vai!!”
Helen obedece, mas já era tarde. Jango conseguiu encontra-la correndo em
direção ao navio e começou a persegui-la.
“Espere!”
Mas como ela estava próxima demais da entrada do navio e ele muito
longe, Jango lançou um golpe de cosmos de lá mesmo onde estava, que a atinge
violentamente nas costas.
“Não!! Helen!!”
Alex corre ao seu auxílio, mas era inútil: o golpe de Jango havia
atravessado-lhe o peito. Em um choque de raiva, Alex avança contra Jango, sem
se importar com o que poderia acontecer. Porém, apesar de possuir cosmos, Alex
nada pode fazer contra Jango, que era um guerreiro muito mais experiente e
conhecedor de técnicas. E como Alex previu caso Jango os pegasse, surrou-o até
que perdesse a consciência.
Quando voltou à consciência, Alex viu-se sozinho no cais. O navio que
trouxera os garotos já havia partido e a noite já caia. Próximo a ele, o cadáver
de Helen, manchado de sangue. Ele devia estar caído lá por pelo menos três
horas, mas ninguém teve a consideração de ter enterrado o corpo de Helen.
Apenas porque ela era uma escrava.
Mesmo com o corpo quebrado, Alex venceu as dores e carregou o corpo da
amada até o campo florido. Ao lado da enorme rocha onde se esconderam tantas
vezes, cavou com pedras e lágrimas seu leito de morte. Deitou-a com cuidado e
ofereceu-lhe o último beijo antes de entrega-la a terra. Seu espírito se
encheu de raiva e seu corpo de fraqueza. Ele queria sair atrás de Jango,
atirar-lhe um golpe que acabaria com sua vida da mesma forma que Helen, mas seus
músculos não mais respondiam. Ele adormece sobre a rocha, pois não podia mais
tocar as flores.
O ruído de passos faz com que ele volte a consciência novamente. Já
era de dia, e o forte brilho do sol ofusca-lhe a visão. Quando ele se acostuma,
percebe que quem estava lá não era ninguém menos que aquele rapaz que
treinava pra se tornar um guerreiro, Ikki. Ele estava de joelhos em frente ao túmulo
de Helen e rezava em silêncio.
Quando Ikki termina, olha para Alex e estende-lhe a mão para ajuda-lo a
se levantar.
“Eu soube do que aconteceu ontem. Sinto muito.”
Alex olha pra baixo, ainda com a cena de Jango matando Helen bem na sua
frente em sua mente, e tenta evitar as lágrimas.
“Posso lhe pedir um favor?”
Alex olha para Ikki, sem entender.
“Queria pedir a você que também rezasse por Esmeralda. Ela também se
foi ontem. O túmulo dela fica perto daqui, mas mais próximo ao vulcão. Vai
acha-lo com facilidade.”
Ikki solta Alex, que podia, ainda que muito mal, se equilibrar com as
duas pernas que doíam constantemente, e vai embora.
“Adeus.”
Alex observou Ikki partir lentamente. Apesar de eles nunca terem se
falado antes, ambos se compreendiam, pois carregavam o mesmo peso no coração.
Ver uma pessoa amada partir na sua frente, sem que pudesse fazer nada. Mesmo a
força de Ikki não foi capaz de proteger Esmeralda da crueldade que aquele
lugar proporcionava, e ele provavelmente devia estar odiando a si mesmo assim
como Alex odiava. Agora nada mais lhe importava. Tanto faz ele estivesse vivo ou
morto. Estava sozinho agora. Alex arranca umas flores e começa a andar com
dificuldade, perguntando-se qual seria o caminho mais fácil de se chegar ao túmulo
de Esmeralda.
“Jango!!”
Alex o encarava ameaçadoramente, sem medo. Jango não mais lhe causava
medo, mas sim um ódio que ia desde o primeiro dia em que se tornou escravo
deste. Ele pula sobre o cavaleiro negro, invocando o cosmos que conseguiu com
tanto sacrifício e aplicando um golpe surpresa, que Jango consegue desviar sem
grandes problemas.
“Heh! Estou vendo que você treinou um pouco enquanto tinha um tempo
livre, hein? Mas tenho certeza que recusará se eu lhe oferecer um cargo de
cavaleiro negro! Se aceitar, poderá sair desta ilha livre, para fazer o que bem
entende!”
“Minha liberdade não importa mais, maldito! Eu quero a minha Helen de
volta!!”
As lágrimas saiam livremente, assim como os golpes. Alex jamais tinha
lutado daquele jeito antes, era como se ele já dominasse as técnicas de luta
que viu os garotos da ilha treinarem. Mas mesmo assim, seus golpes de nada
adiantavam para bater Jango.
Jango aplica-lhe um forte golpe no estômago e Alex cai, atordoado. Ele
era muito mais fraco que o guerreiro, mas a fúria de ter perdido a única
pessoa que nunca o abandonou continuava viva dentro dele. Num impulso de ódio,
Alex se atirou desesperado e chorando sobre Jango acertando-lhe um forte soco no
rosto. Mas em troca recebera um golpe como o de Helen. Alex sentiu o gosto de
sangue antes de cair no chão.
“Que você aprenda uma lição. Nenhum escravo pode me derrotar. Você
não passa de um verme revoltado, agora me dê licença que estou esperando o
aspirante a cavaleiro que virá me desafiar.”
Jango dá as costas e volta a ficar na frente da caixa da armadura que
protegia. O objetivo de tantos garotos que vinham na ilha. Alex olhava para a
cena enquanto as últimas lágrimas percorriam-lhe o rosto. Um único golpe.
Esse único golpe simbolizava tudo que ele sofreu naquele lugar, tudo que Helen
sofreu. Era tudo que ele podia fazer.
“Maldição. No final das contas, continuo sendo fraco. E tudo que pude
lhe causar foi um soco no rosto que criará um hematoma, no máximo. Enquanto
que nós dois derramamos litros de sangue a chicotadas deste desgraçado. Eu
queria tanto ter o poder de lançar-lhe o golpe que tirou Helen de mim...”
Alex já nem sentia dor. A morte se aproximava rapidamente e a única
coisa da qual ele se arrependera é de não poder ter matado Jango antes de
partir. De repente ele ouve uns passos e alguém se aproxima dele. Ele usa suas
últimas forças para se virar e ver quem era.
Era Ikki.
“Não se preocupe, eu vou vinga-lo e a sua garota. Apenas morra em paz.
Prometo que velarei seu corpo depois.”
Alex sentiu-se relaxar com as palavras. Era Ikki o aspirante a cavaleiro
que iria enfrentar Jango. Ikki sim tinha capacidade para vencer Jango. Alex
odiava a si mesmo por não poder fazer nada, mas sentia-se feliz por saber que
alguém iria faze-lo. Um sorriso de esperança surgiu em seus lábios antes de
expirar pela última vez.
“Se ao menos eu tivesse mais força...”
*FIM*
Obs:
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