Conversando

 

 

            “Como vai, Rozan? Faz muito tempo que não converso com você. Desde que saí das Cinco Montanhas para lutar em Hades. Desde que meu mestre esteve em sua companhia pela última vez. Agora ele não está mais aqui, mas voltei para não deixá-la triste.”

            Shiryu estava de pé à frente da cachoeira de Rozan, sorrindo suavemente e sentindo alguns respingos refrescarem-lhe a face. Não podia ver a grande massa de água que descia continuamente, continuava cego devido à luta com Krishna em Poseidon, mas podia senti-la de outras maneiras, através do olfato, do tato, da audição e do espírito.

            “Ele não vai mais voltar, Rozan, infelizmente. Roshi era um humano, e nós não somos imortais. Ele me contou que você nasceu há muito tempo, na criação do Universo, e que suas águas são galácticas. Você é uma cachoeira imortal, sempre despejando sua força sobre nossos frágeis corpos. O tempo que Roshi esteve ao seu lado, apesar de ser mais que uma vida inteira para nós, deve ser pouco para você. Mas acredito que deva sentir a falta dele. Eu também sinto.”

            O cavaleiro quis receber uma resposta mais direta, encostando as palmas das mãos nas águas fortes e violentas. Sentiu-as duras e frias como sempre, porém de alguma forma reconfortante.

            “Eu sei que não posso preencher a falta que ele lhe faz. Mas eu cresci junto a você e quero continuar aqui, nessas montanhas, com Shunrei também. Quero que ela seja feliz. Roshi desejava isso antes da batalha de Hades. E agora entendi o que ele quis dizer com aquilo. Acho que acabei me prendendo muito a questões que envolviam a humanidade como um todo, esquecendo que eu também sou um humano e tenho o direito de ser feliz. Você viu, não viu, Rozan? Eu não posso enxergar e nem estava aqui para verificar, mas eu sei o que aconteceu. Shunrei permaneceu a sua frente o tempo inteiro rezando pra que eu voltasse. Ela chorou, não chorou?”

            O olhar de Shiryu entristeceu. Lembrou-se de quando tentou se despedir de Shunrei ao sentir a morte se aproximar em Hades. Seu coração sabia que ela tinha recebido a mensagem. E se arrependeu.

            “Foi minha culpa, Rozan. Não deveria ter dito adeus. Eu a encontrei espalhando um ambiente tão triste às Cinco Montanhas e senti os soluços que de leve ela não pôde evitar. E só pude pensar o quanto eu não queria magoá-la assim... O golpe foi duro demais, pois ela ainda teve que enfrentar a morte do mestre. Eu fui forte para dar-lhe um apoio, mas a verdade é que eu mesmo me sentia fraco, e precisava dela. Consegue entender essas coisas, cachoeira? É sábia, deve ter visto muito mais do que todos nós. Se pudesse falar, me explicaria? Sou jovem, inexperiente, falhei em compreender as palavras de meu mestre antes... Mas acho que ele não tinha o mesmo problema com você, não é, velha amiga?”

            A cachoeira, é claro, não podia responder como os humanos o fariam. Mas Rozan tinha uma magia especial. Era imponente, fria, dura e forte, mas sabia ser gentil e acolhedora com aqueles que a amavam. Shiryu sorriu.

            “É claro que não... Porque você também foi minha mestra. Um exemplo de vida. Li Po a comparou com a Via Láctea caindo do céu. Isso mesmo, como uma ponte entre o céu e a terra. E meu teste para me tornar um cavaleiro foi cruzar essa ponte, como um dragão subindo às estrelas. Desde pequeno eu a escalava. Talvez eu seja pouco à sua grandiosa vida, mas você é muito para mim. Mesmo quando treinava o meu ShouRyuHa na sua queda, suas águas sempre voltavam ao normal em questão de minutos. Gostaria de poder ser tão forte quanto você para nunca mais fazer Shunrei derramar lágrimas.”

            Ele ficou cabisbaixo, meio confuso:

            “Mais uma vez eu toco neste assunto. Você já deve estar cansada de me ouvir falar tanto sobre a Shunrei. Não consigo tirar aquele rosto triste da minha mente... Se lembra quando saí para lutar em Poseidon, Rozan? De como ela me olhou e começou a chorar? Nunca mais esqueci. Mas eu não tinha como evitar, certo? Meus amigos precisavam de mim... Você deve estar se lembrada deles. Eles passaram o Ano Novo aqui. Shun, Hyoga, Ikki, Saori e.. Seiya... Aquele de cabelos curtos e pretos era o Seiya. Ele...”

            As palavras não queriam sair. Shiryu tentou afastar a tenebrosa imagem da mente, suspirou e enfim falou com os olhos marejados:

            “... ele também não está mais entre nós... Foi levado pela Batalha de Hades junto com Roshi... A guerra é uma coisa estúpida, não é mesmo? Você deve até ter vergonha de nós por tanta violência. Nós deveríamos tê-lo trazido vivo de Hades, Rozan, era mais que uma obrigação. Ele já salvou a minha vida, lembra? Quando saí daqui pela primeira vez para participar do Torneio Galáctico... Meu coração parou e foi ele que o trouxe novamente à vida. E eu não pude fazer nada... Naquele momento, minhas lágrimas caíram como as suas águas, Rozan. Ou talvez suas águas sejam lágrimas desta condição humana tão triste...”

            Desta vez, a mão de Shiryu entrou nas águas profundamente. A pressão era enorme, mas o forte braço que ali foi treinado suportou o peso com facilidade. E isso o impediu de dar um soco em qualquer lugar, de inconformação. Logo ele se acalmou e abaixou o braço:

            “Deve ser difícil pra você ter de observar nossas tristezas. Porque você é bondosa, Rozan, como o meu mestre. Mas pouco pode fazer nessa condição, apenas nos observar e chorar, não é mesmo? Lágrimas doces tão sinceras que caem sem parar desde o seu nascimento... Mas você também me viu crescer aqui, Rozan. Deve ter visto eu treinar arduamente nas suas rochas. Deve ter visto o amor que sinto pelo meu mestre e Shunrei crescer aqui. E isso não é bom? Quem sabe as suas lágrimas não sejam de alegria... Gosto de pensar deste jeito. Sei que sou um simples mortal, mas quero trazer alegria para você também. Talvez tentando ser feliz...”

            Já estava anoitecendo. Shiryu pôde perceber a mudança através da temperatura e dos sons dos pequenos animais que habitavam as Cinco Montanhas.

            “É uma pena que eu não possa enxergar, Rozan. Senão poderia ver as estrelas nesta noite tão agradável. Eu apenas sinto que elas estão presentes, através de meu espírito. Pode ver a constelação de Dragão, Rozan? Será que está brilhando? E a de Libra? Esta eu tenho certeza que sim! Roshi sempre estará presente entre nós, assim como eu sempre estarei aqui para você, não é preciso ser fisicamente. Basta o coração. Ele nos guia na escuridão, Rozan, meu mestre me ensinou. Ele já disse isso a você? Quando cheguei aqui, com oito anos de idade, ele me disse que eu vivia na escuridão, e meu coração iria me guiar pelo caminho certo.”

            Perto da cachoeira de Rozan, ficava a casa de Shiryu. Lá estava Shunrei, preparando um jantar especial para a volta do cavaleiro de Dragão. O cheiro de comida chegou então a ele, que sorriu:

            “Será que você pode sentir aromas, Rozan? Pode sentir o cheiro da janta que Shunrei está preparando com tanto carinho? Roshi dizia que Shunrei cozinhava muito melhor quando eu estava aqui. Se você pode sentir aromas, deve saber disso também. Você deve também saber o quanto ela é forte. Mesmo sem possuir cosmos ou qualquer outro poder sobrenatural, salvou a minha vida quando eu lutava contra o Máscara da Morte. E fez isso apenas com a força de sua oração. Ela fez tanto por mim que me parte o coração toda vez que tenho uma nova batalha. Quero deixá-la feliz, mas sou um cavaleiro de Athena também. Não posso evitar em cumprir meu dever. Mas eu juro pela minha constelação que voltarei bem. Sempre. Shunrei não pode mais chorar, pois você sabe como a quero bem.”

            O clima caseiro das Cinco Montanhas trazia um clima tão próximo e terno que Shiryu sentiu-se mais amado que nunca. Estava sem o mestre, sem dúvida, mas se sentia pronto para continuar em frente.

            “Você vê, cachoeira, que ainda podemos sorrir, embora com tantas tristezas, e eu acho que é por isso que você sempre continua viva. Está sempre aqui para conversar comigo. Mas agora preciso voltar para dentro, pois Shunrei me espera.”

            No entanto, Shiryu não pôde virar para trás, pois antes sentiu um toque gentil nas costas. Era Shunrei que o abraçava, encostando a cabeça em seu ombro:

            “Está conversando com a cachoeira, Shiryu? Mas ela não é um ser vivo.”

            Shiryu sorriu e respondeu ao gesto segurando a mão da companheira com carinho:

            “Ela é sim, Shunrei. Como eu, você... Também faz parte da mãe natureza, de toda essa beleza. Nós crescemos juntos com ela, bebendo sua água, nos banhando nela... É testemunha de nosso amor, uma grande senhora a quem devemos contar apenas sentimentos verdadeiros. Não imagina como ela tem vida!”

            Shunrei olhou sorrindo para Rozan e suas águas que caiam infinitamente, uma ponte do Universo à Terra. Uma ponte do Dragão a ela.

 

 

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.