De Volta para Casa

 

 

            O começo de sua jornada parecia inaugurar a chegada de um tempo mais frio. Logo nos primeiros dias, a neve caiu silenciosa e inocentemente, mas trazendo estragos por onde passava. Os caminhos naturais de terra tornavam-se brancos e profundos, congelando as pernas dos animais que saíam para caçar.

            Audaz sentia as três patas que tocavam o chão tão duras que mal podia levantá-las. A quarta, erguida e semi-imóvel, apenas servia de fardo na parte traseira de seu corpo. Após ter sido atingido por um caçador, não voltou pular ou a correr tão rápido quanto qualquer outra raposa. A desvantagem chegou a ameaçar-lhe a vida inúmeras vezes. Olhava em volta, não conseguia distinguir os objetos com tanta clareza por causa de uma cicatriz em seu olho esquerdo, preço por tentar desarmar uma armadilha. Com o orgulho ferido, não podia mais se gabar de ser uma raposa independente e forte.

            “Audaz? Está tudo bem?”

            Sussurro deu meia volta e aproximou-se do companheiro. Sentia que seus filhotes nasceriam logo, por isso não queria perder tempo. No Parque do Cervo Branco, conseguiria um futuro brilhante como membro dos famosos animais do Bosque dos Vinténs, o grupo que viajou léguas enfrentando o fogo e a água para chegar àquela reserva natural. Raposa, o líder dos animais e pai de Audaz, seria o exemplo perfeito para seus filhotes seguirem.

            Mesmo sem saber se agüentaria muito mais, Audaz andou um pouco e tentou resgatar sua antiga aparência de força.

            “Eu estou bem. Vamos continuar.”

            Apesar de cansado, ele não queria parar. Temia por sua saúde e não sabia se conseguiria chegar vivo ao parque. Não dizia nada a Sussurro, mas sentia a força de seu corpo diminuir a cada passo que dava. Tantas coisas faziam sentido para ele agora, como por que ela o aceitara como companheiro quando ele estava debilitado por causa da perna aleijada e da cicatriz em seu olho. Dificilmente outra raposa o aceitaria como companheiro em tais condições, mas Sussurro parecera não se importar com aquilo. Tudo porque Audaz trazia o sangue de seu pai.

            A um passo de cada vez, ele ia vencendo a neve, enquanto focava seus pensamentos em um só objetivo: levar Sussurro e os filhotes ao Parque do Cervo Branco. Mesmo sabendo que só havia sido aceito por ser o filho do Raposa, amava Sussurro e desejava que eles ficassem seguros no parque, ao invés de arriscarem as vidas em campos de caça. Mas ao mesmo tempo, sabia que não podia voltar.

            Ele não queria depender de ninguém para sobreviver. Desejava desesperadamente se livrar da sombra de seu pai e viver como uma raposa com suas próprias forças, sem a ajuda de qualquer animal. No entanto, desde o dia que saíra do parque, recebera ajuda de inúmeros animais. Primeiro foi Sombra, a texugo, que o socorreu quando foi aleijado. Depois foi seu amigo Corvo, que o guiou até a cidade.

            Os animais do Bosque dos Vinténs possuíam um juramento de sempre se ajudarem em qualquer situação. Audaz sempre procurou fugir dessa regra para ser livre. No entanto, fora dos limites do parque, sentiu que jamais traíra o juramento. Destruíra a si próprio com sua luta e agora estava fadado a encarar seu pai como um derrotado.

            “Audaz, está quase amanhecendo. Devemos procurar um abrigo para passar o dia. Fique aí, eu já volto.”

            “Está bem.”

            Sussurro saiu correndo, tão leve quanto o seu nome, deixando o companheiro para trás. Audaz sentou-se na neve, apesar do chão gelado. Por não ter o que fazer, respirou fundo e procurou recuperar as forças perdidas na caminhada. Cansava-se tão fácil que era difícil acreditar que um dia fora uma raposa forte e saudável.

            Ruídos de passos aproximaram-se e a raposa viu, a uma distância respeitável, uma lebre parada no meio da neve. Metade de seu corpo estava imerso no gelo, mas o pequeno animal não se importava. Audaz parecia tão fraco que até suas caças já não tinham mais medo dele.

            “Você parece bem cansado.”

            Audaz rosnou e levantou-se sobre suas três pernas, irritado. Sabia que não tinha mais capacidade de caçar uma lebre, mas não podia admitir que fosse zombado por outro animal.

            “Vá embora se não quiser que eu a coma!”

            “Ora, se você realmente pudesse me comer, já o teria feito. Aleijado assim na perna traseira, jamais conseguiria alcançar uma lebre saudável como eu.”

            “Você brinca com a sorte... Uma raposa é uma raposa.”

            “E você é uma raposa muito orgulhosa. Você sabe, viajando nesse estado, certamente morrerá.”

            “Eu não me importo mais... Ah... Conversar com uma lebre me faz lembrar dos meus amigos do Parque do Cervo Branco.”

            “Lebres amigas? Então talvez você seja o famoso Raposa do Bosque dos Vinténs!”

            Audaz não agüentava mais ouvir o nome de seu pai. Para qualquer lugar que fosse, todos conheciam os animais dos Vinténs.

            “Ele é meu pai. Mas eu não entendo por que o idolatram tanto.”

            “Ele é um herói! Protegendo animais mais fracos, inclusive os que caçava antes de fazer o juramento, ratos, coelhos, lebres! Se está indo nessa direção, quer dizer que está voltando ao parque, não é?”

            “Sim... Embora tenha jurado que nunca mais voltaria para lá...”

            “Por que não?”

            “Eu queria ser livre... Ter minha própria vida sem a proteção de meu pai...”

            “Eu entendo seus sentimentos. Quando era mais jovem, não queria aceitar o conselho de meus pais. Uma pena para você, que está aleijado. Eu consigo ser livre com minha pernas.”

            A lebre ouviu um rosnado e olhou para o lado. Sussurro voltava correndo, determinada a caçá-la. Audaz não tinha força para apanhá-la, mas sua fêmea sim. Assim a lebre se virou e fugiu assustada. A desenfreada corrida seguiu-se por vários minutos. A lebre tentava se distanciar de Sussurro, mas a raposa também era ágil. O resultado sairia quando uma das duas se cansasse. E esta foi a lebre. Sussurro a mordeu no pescoço e a sacudiu, matando-a de uma vez. Em seguida, ajustou-a entre os dentes e voltou vitoriosa para o companheiro.

            “Vamos, precisa comer antes de continuarmos.”

            Apesar de saber que aquela lebre não estava vinculada a ele através do juramento, Audaz sentiu um quê de pesar. Aquela conversa, por mais curta que fosse, de alguma forma os aproximou. Mas ela era apenas uma caça e ele, uma raposa. Seria aquela simpatia que sentira pela lebre o que movia seu pai a proteger os mais fracos? Mas a lebre era uma caça. E nada mais natural que Sussurro caçá-la.

            Audaz já não era mais forte. Mesmo o seu pêlo denunciava os sinais de fraqueza. Ele era tudo que não seria ser. Seus dentes cravaram-se na carne da lebre, enquanto perguntava-se se o sacrifício dela seria mesmo de alguma ajuda. Não lhe restava muito tempo. Sussurro não compreendia que o matava pouco a pouco.

            “Vamos, querido, precisa descansar.”

            A perna traseira sofreu para levantar seu corpo. A sua perna mais forte. Continuou a mancar atrás de Sussurro, com o restante da força. Apenas o desejo de vê-la bem era o que o movia agora. Ignorava as fortes dores, levava uma pata à frente da outra, deixando as pegadas de uma raposa aleijada. Logo elas seriam apagadas pela neve que caia sem parar.

 

*FIM*

 

 

Obs: Animais do Bosque dos Vinténs (The Animals of Farthing Wood) pertence a BBC e a Colin Dann.