Dor

 

 

            Yacov mergulhou a cabeça em meu abdômen enquanto seus gritos ecoavam pelo vale. Ele era apenas uma criança...

 

 

            Três dias atrás o avô de Yacov dissera estar mais cansado que o normal. Ninguém suspeitara que essas seriam suas últimas horas de vida. Eu havia acabado de voltar da floresta quando ele me pediu pra que cuidasse da janta, que ia dormir um pouco até lá. Contudo, ele nunca mais abriu os olhos. Yacov foi chamá-lo para o jantar quando percebeu que seu avô não estava dormindo. Quando o encontrei, pude apenas observar estarrecido as lágrimas que jorravam furiosas.

            A morte pegou a todos da vila de surpresa e aquele dia de verão tornou-se o mais frio do ano. O avô de Yacov havia se tornado um dos membros mais importantes da vila pela sua sabedoria e bondade, e agora sua partida, silenciosa e ainda irreal concluía o fim de um tempo, de uma época que nos marcou eternamente. Naquela noite, reunimo-nos como há muito tempo não o fazíamos e rezamos pela paz de seu espírito. Yacov permaneceu a maior parte do tempo calado, fitando tristemente o corpo de sua única família.

            Quanto a mim, quis apenas registrar minha tristeza com um esquife congelado. Porém de meus olhos, não pude verter lágrimas. Era parte de uma promessa feita ao avô de Yacov. Desde a minha chegada na vila, aos oito anos de idade, o avô de Yacov tornou-se uma referência a minha inexperiência para sobreviver nas tundras siberianas. Foi com ele que aprendi a me virar no deserto gelado sem que precisasse depender dos adultos. E somado aos ensinamentos de meu mestre, ele foi um dos homens que me ajudou a definir meus princípios. De tudo isso, sua única exigência foi de que eu cuidasse da felicidade de todos daquela pequena aldeia. E assim seria.

            No fundo, estava aterrorizado. Não queria ter que me despedir dele tão cedo. Os moradores daquela aldeia simbolizavam em meu coração a paz que eu poderia alcançar algum dia, e ter que me despedir de um deles era abalar essa minha idéia de paz. É claro que era inevitável ter que me separar de pessoas que amava nessa longa jornada, tanto de companheiros guerreiros como de pessoas normais, mas era algo que me desagradava profundamente.

            Yacov recolheu-se em seu quarto e se recusou a sair no dia seguinte inteiro. As mulheres da vila tentaram faze-lo sair dali e se alimentar um pouco, mas era inútil.

            “Hyoga, por acaso vai ficar aí parado? Vá lá falar com ele! Por acaso não é amigo do Yacov?”

            Sim, eu ia ficar parado. E sim, eu era amigo de Yacov. Mas eu sabia que ninguém no mundo seria capaz de tira-lo do quarto senão o próprio avô. Como eu sabia? Simples. Fora assim que eu agi depois de ver mama naufragar. Ver a pessoa mais importante de sua vida desaparecer aos sete anos de idade era demais para ser aceito pacificamente. Yacov precisava ainda se encontrar para poder decidir o que faria e ele tinha quase a mesma idade que eu quando perdi a mama. Permaneci em sua casa o tempo todo e deixei alguma coisa para ele de noite, sabendo que provavelmente buscaria algo para comer de madrugada, como realmente aconteceu.

            No dia seguinte, Yacov apareceu à porta da sala timidamente. Embora eu já tivesse passado por aquilo, preferi não dizer nada, para não provoca-lo. Sem querer, acabei levantando um muro de silêncio naquela cabana.

            Os próximos dias seriam destinados às reflexões de todas as pessoas mais próximas do avô de Yacov, e como não podia deixar de ser, também fui procurar meu momento, próximo ao túmulo da mama e de meu mestre. Minha vida inteira foi dedicada às lutas, à solidão e ao sofrimento, e só agora que estava lutando ao lado de meus amigos e podia finalmente desfrutar de sentimentos que sempre sonhei, encontrava certas bases de minha vida se destruindo. Primeiramente foi o meu mestre Camus, que entregou sua vida pelo meu amadurecimento, e agora era o avô de Yacov, que me ensinou a viver no meio desse gelo.

            Quando o encontrei pela primeira vez, era um garoto que nunca poderia estar tão perdido na própria terra natal. O avô de Yacov percebeu e me ofereceu toda a base para que meu treinamento pudesse ter êxito. Ele foi uma das pessoas que mais se emocionou ao saber que minha mãe jazia naquele navio que naufragara tão próximo de sua vila. E é claro, jamais deixou de oferecer seu apoio moral ao meu treinamento para me tornar um guerreiro. E mesmo que ainda estivesse sofrendo pela perda da filha e do genro, cuidava de Yacov com todo o cuidado paterno que poderia oferecer ao mesmo tempo em que também tentava aliviar as febres que me atacavam na cabana mais afastada.

            Perdido em lembranças e saudades, não percebi quando Yacov se aproximou por trás.

            “Hyoga”

            Olhei assustado para trás e vi Yacov vindo se juntar a mim, sentando ao lado sem levantar o olhar.

            “Veja, o gelo já está se derretendo e formando icebergs. Logo vai fazer nove anos que perdi a minha mãe.”

            “...”

            Yacov parecia mais triste naquela hora. Mas não por ele, e sim por mim.

            “Eu nunca tive um lar fixo enquanto estava com ela. Nós nunca ficávamos muito tempo em uma vila e por isso eu nunca tive outra pessoa em quem pudesse me apoiar. Mas eu jamais vou me esquecer de quando ela me punha na cama. Um sorriso tranqüilo, protetor ao mesmo tempo triste...”

            “Você ainda sente muita falta dela, não é?”

            Assenti com calma e vi mais um pedaço de gelo se separar de um enorme bloco.

            “Como é que você agüentou tudo isso, Hyoga? Dói muito...”

            “É, dói sim... Mas é normal... Costumamos nos apegar muito ao passado e depois quando precisamos deixa-lo ir é difícil. Nos sentimos sós, desesperados, perdidos, sem futuro. É como se o mundo caísse nas suas costas e você simplesmente cedesse ao seu peso.”

            Yacov abaixa a cabeça, melancólico. Era tão difícil vê-lo triste daquele jeito! Era tão diferente daquele garoto que sempre vinha para mim sorrindo, esperando que eu tivesse um tempo para brincar... Aquele garoto que eu vi brotar contente enquanto eu executava dolorosos treinamentos diariamente parecia agora perder todo o brilho que mostrou na infância.

            “Mas por incrível que pareça, você vai aprender a conviver com essa dor, e até mesmo sorrir com ela. Tem muita vida inexplorada pela frente, Yacov, surpresas boas e más. Sempre haverá momentos em que a cicatriz começará a doer de novo, mas então você estará mais fortalecido.”

            “Eu ainda não consigo entender.. como uma dor dessa pode diminuir...”

            “Pela mesma razão pela qual você a está sentindo agora. Amor. Você ama o seu avô. E você sofre porque não pode mais estar ao lado dele. Mas esse amor fará você crescer, superar obstáculos, o tornará uma pessoa melhor. E jamais esquecerá. É por isso que mesmo que você ainda sofra, saberá olhar para trás e sorrir.”

            Yacov olha para mim intrigado.

            “Não entendo, Hyoga...”

            Apenas meu sorriso foi o suficiente para pará-lo.

            “Não se preocupe, é algo que você só vai entender de verdade quando sentir.”

            Olhei para o mar e não pude deixar de soltar um suspiro.

            “Eu também sinto muita falta dele. Ele me tratava como um filho e jamais poderei medir minha gratidão...”

            “Ele se preocupava de verdade com você, Hyoga, porque você sempre ficava muito machucado com o treinamento e se esforçava demais...”

            “É por isso que eu jamais poderia medir a gratidão que sinto por ele... E pretendo honrar a sua memória dando o máximo de mim nas lutas. Não é mesmo, irmãozinho?”

            “Sim...”

            A voz tremida chamou-me a atenção. Yacov se joga em mim, gritando e anunciando a sua dor para as geleiras siberianas. Fiquei com raiva. Ele tinha apenas oito anos, ainda era uma criança...

   

*FIM*

 

 

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