Entre a Esperança e o Destino

 

 

            “Onde você está, neesan? Onde você está... Não quero ficar sozinho...”

            As palavras tristes nasciam do estado febril que se instalara no pequeno menino de seis anos de idade. A respiração era ofegante, tentando amenizar o fogo que o dominava e o queimava por dentro, uma sensação de cansaço impedia-o de retomar sua alegria infantil. A noite de inverno em nada ajudava para conter o sofrimento que era expresso em inconscientes delírios.

            O menino chamava constantemente pela irmã mais velha, entre um soluço e outro, como que procurando desesperadamente um remédio para os seus problemas. Ao seu lado, olhos marejados e inconformados traziam o martírio da impossibilidade, a irmã que não sabia curar a febre. Ela lhe trazia o conforto que podia dar, nos seus tenros limites de uma garota de nove anos de vida, tentando diminuir a temperatura do rosto do irmão com um lenço embebido de água fria.

            A noite e o silêncio contemplavam aquela fraternal cena, que se passava no orfanato da Fundação Grado, uma poderosa empresa do Japão dirigida por um homem chamado Mitsumasa Kido. Contudo, não se podia dizer que aquela era uma casa onde reinava a felicidade. Das crianças que viviam neste orfanato, muitas carregavam trágicas histórias de martírio e lágrimas. Eram pequenas vítimas que haviam perdido os pais por meio de desavenças, acidentes e assassinatos.

De dia a tristeza era disfarçada quando as crianças eram entretidas com os momentos mais leves do orfanato. Mas de repente os brinquedos que lá permaneciam espalhados pelo chão perdiam o total interesse dos infelizes seres que lá rondavam. Muitas crianças viviam em constante depressão, marcadas por traumas de adultos, mesmo que o diretor do orfanato tentasse, sem sucesso, devolver a alegria a algumas.

Talvez Seika estivesse englobada neste grupo se não fosse a companhia de seu irmãozinho caçula Seiya, um garoto que, apesar de nunca ter conhecido os pais, podia ainda aproveitar um pedaço de felicidade que a ingenuidade lhe trazia. Dispensava o triste semblante de outras crianças para dar lugar às travessuras, como se o presente fosse a única coisa que lhe importasse. Endiabrado, levava todo e qualquer tipo de bronca das jovens professoras do orfanato, sem nunca deixar ser afetado pelos sermões que diariamente se repetiam, partindo sempre em seguida para novas molecagens.

Conhecido como uma das piores pestes do lugar, sempre arranjava brigas com outros meninos que lá viviam e se entretinha com sua melhor amiga, uma garotinha da mesma idade chamada Miho. Era repreendido por Seika quando, nos momentos em que o controle lhe fugia, judiava da pobre menina. Porém Seika nunca precisou ser muito dura com o irmão, sendo que uma vez flagrou a peste do orfanato entregar gentilmente uma flor a Miho, arrependido por uma brincadeira de mal gosto que a fizera chorar.

Era com essas e outras pérolas do cotidiano que Seiya lhe oferecia que Seika podia suportar a trágica realidade dos órfãos daquele lugar, sem ser dominada pela amargura de não poder ser como as outras crianças. Às vezes se perguntava se sua mãe estaria mesmo vigiando-os lá do céu, pois era de lá que caiam as tempestades que enchiam de trevas e de desânimo os pequenos corações.

Era aquele pensamento que penetrava em sua mente enquanto tentava aplacar a febre de Seiya. Fitava desesperada o irmão menor gemer, chamando por ela, e sentia que a responsabilidade caía em seus ombros de maneira penosa. Começou a derramar lágrimas, deixando pequenas gotas mancharem o lençol da cama onde Seiya repousava. Este, sem perceber a tristeza da irmã, continuava com as palavras que feriam:

“Onde você está, neesan? Não quero ficar sozinho...”

Em meio ao desespero, Seika, sem saber o que fazer, respondia segurando as mãozinhas do irmão entre as suas:

“Aqui, Seiya, estou aqui... Você não está sozinho!”

A conversa prosseguiu até que a febre apaziguasse e Seiya adormecesse, vencido pelo cansaço. Seika então pôde se acalmar para sentir com toda a força a raiva que a dominava por causa da notícia que recebera: aquela era a última noite que ela e Seiya passariam juntos, pois no dia seguinte, Mitsumasa Kido os separaria.

O velho dono da grande Fundação Grado reunia crianças órfãs pra que fossem enviadas a diversas partes do mundo para se tornarem guerreiros chamados cavaleiros de Athena, e por algum motivo não revelado, arrancou o pequeno Seiya de Seika. Quando foi informada da separação, Seika chorou, brigou e agiu com toda a agressividade que era tão imprópria de sua personalidade. Porém, tudo foi em vão.

Seiya também se revoltou à sua maneira e avançou furioso sobre o milionário com a intenção de agredi-lo. Por ser uma criança, é claro, nada pôde fazer, e como resposta recebeu com violência um tapa no rosto de um dos fortes seguranças que acompanhava e protegia Kido. Avistou sua irmã chorar e tentou reter as lágrimas para não deixá-la mais triste, enquanto sentia a dor no rosto se perder na do seu coração.

E se manifestava:

“Não podem fazer isso! Não podem!!”

Mas Mitsumasa podia, a vida de todos aqueles órfãos dependia de sua fortuna, portanto ele fazia o que bem entendesse com ela. Se estava determinado que Seiya não mais viveria ao lado da irmã, estava determinado e ninguém mais tinha o poder de mudar o destino.

Inconsolados, Seiya e Seika se recolheram mais cedo naquele dia, e Seiya foi de encontro com uma súbita febre. Seika viu a má sorte pousar implacavelmente sobre o destino dos dois irmãos e tentou proteger Seiya do jeito que pôde do mal-estar que reinava no orfanato da Fundação Grado, aguardando, temerosa, o dia seguinte.

Dia que fora o mais cruel até aquele momento. As últimas lembranças que marcaram a memória de Seika foram as lágrimas que escorriam sem parar do rosto desesperado, do garoto que ia embora arrastado pelos fortes seguranças de Mitsumasa Kido enquanto gritava o seu nome.

Depois daquele dia, Seika deixou de ser, pois a vida sem o Seiya simplesmente não existia. Não havia tempo, nem dor, nem alegria. Era o nada.

 

 

“Neesaaaaaan!!!”

O grito irrompeu o ar, quebrando um silêncio que pairava há anos, mas que para Seika foi como alguns breves segundos. Seus olhos responderam imediatamente ao chamado, como quando na época em que ela estava no orfanato. Aquela voz, tão querida e gravada no seu espírito despertou a Seika que há muito havia deixado de ser.

O espaço em volta assumiu as cores e Seika pôde finalmente voltar a si. Encontrou pessoas desconhecidas ao seu redor, todas a fitando com uma expressão de espanto. Mas estranhamente nada a surpreendeu, a não ser o grito emocionado que ouvira, que despertou um sentimento profundo, irreal e além de qualquer expectativa: a voz da pessoa que ela mais amava, a voz de seu irmão.

Era mais grossa, mais madura, era a voz de um rapaz e não de um menino de seis anos de idade. Possuía em sua vibração muito mais coragem e determinação, sem deixar de demonstrar com sua inclinação de choro a inocência da criança que estivera adormecida. As portas do sentimento de Seika, que estiveram trancadas até então se abriram e a saudade voltou a apertar em seu peito de irmã. As lágrimas que por muito tempo estiveram secas voltaram a brotar, e Seika pôde se deixar dominar completamente pela emoção esquecida pelos anos.

“Seiyaaaaaaaaaaa!!!”

As pessoas em volta de Seika, amigos de Seiya, viram fascinadas o retorno da memória da garota:

“Oh... Ela mencionou o nome do Seiya...”

“A memória dela...”

“A memória dela voltou!”

Ignorando os comentários, Seika experimentava extasiada a sensação de esperança que brotava em suas entranhas e a contaminava, numa força radiante, como jamais sentira em vida. Era a força que o irmão sempre lhe trouxera quando eram pequenos, era o amor que sempre os ligou apesar de suas diferenças, e Seika sentiu que o seu maior sonho nunca estivera tão perto de ser realizado. Sim. Sentia a felicidade correr pelo seu espírito livremente, como jamais ocorrera. Aquele sentimento não podia ser falso. Ele ia voltar.

Os amigos de Seiya que a protegiam perguntavam-se se aquele seria mesmo o fim de Seiya e de seus companheiros ao sentir que eles passavam por sérias dificuldades.

“Não... Eu ainda ouço... A voz da vida de Seiya... Até agora, eles não se curvaram diante da morte. As vozes de todos... É uma canção de alegria... É uma luz de esperança... Enquanto Seiya e os outros continuarem a cantar a canção de suas vidas... Eu também não vou jogar fora a esperança... Jamais...”

Aquelas eram as palavras que surgiram naturalmente desta esperança. Chegavam à garganta suavemente, como se já estivessem prontas há anos. Seika sorriu e rezou continuamente por seu irmãozinho que guerreava em outro mundo. Foi como um passe de mágica ou um sopro divino que permitiu a luz banhar generosamente os domínios de Athena. As nuvens escuras se dissiparam e os cavaleiros no Santuário respiraram aliviados a derrota de Hades. O Grande Eclipse falhara.

Um dos cavaleiros de Athena, maravilhado, mal conseguia contentar sua alegria:

“Vejam, é o Sol! Athena venceu!”

Seika o observou intrigada. Aquele rapaz que agora comemorava às lágrimas a vitória da deusa também fora um dos órfãos mandados ao treinamento de cavaleiro contra a vontade. Tudo que eles passaram, todo o sofrimento e lágrimas pareciam não ter importância naquele momento de comemoração. Onde estava o arrependimento de ter seguido o caminho de cavaleiro? Será que o seu irmão encarava seu presente da mesma forma e havia uma espécie de compensação para toda a vida que eles não puderam ter? Ela não sabia.

A única coisa que ela havia guardado durante todos esses anos era a amargura de ter sido cruelmente separada de seu único parente vivo, a única pessoa que a afastava da melancolia. Mas todos pareciam ignorar completamente isso vendo que Seiya e seus amigos tinham triunfado. Mesmo que naquele momento não houvesse mais outra alternativa, para Seika, não parecia certo seu irmão conviver com tanta violência ao nome de uma pessoa.

Seus pensamentos dissiparam-se quando Marin, a mestra de Seiya, apontou para a dianteira das Doze Casas, de onde surgia um intenso brilho produzido por um cosmos. Embora surpresa, Seika não conseguia pensar em outra coisa a não ser na volta do irmão, e pouco se preocupava de que maneira ele voltaria, fosse um por milagre ou não. Todos se aproximaram do local lentamente, formando um círculo em torno da luz que tomava formas. Shina desfez sua postura de defesa quando teve certeza da presença. Com certeza era o cosmos de Athena.

Podia-se enxergar nas retinas de Seika o discreto reflexo de lágrimas. Mas ainda sua reação era indefinida, assim como eram as silhuetas que se formavam na ofuscante revelação. A imagem tornou-se clara para todos, que a observavam perplexos. Saori e os cavaleiros de bronze haviam voltado, mas não vestidos das costumeiras armaduras de bronze e sim, de ouro. Eram ainda mais reluzentes que as armaduras dos doze sagrados cavaleiros de ouro e ainda continham a forma de suas respectivas constelações.

Mas Seika parecia ignorar a existência das armaduras, de Athena e dos demais cavaleiros de bronze. Nos braços de Shiryu um rapaz também envolvido por uma armadura, mas coberta de sangue, permanecia imóvel. A garota sentiu as pernas falharem e correu cambaleante na direção do rapaz. Voltou-se nos olhos do cavaleiro de Dragão, que disse brevemente entre lágrimas:

“É tarde...”

E repousou o corpo do amigo no chão, enquanto todos se reuniam em volta. Seika caiu de joelhos ao lado do corpo do irmão, completamente desiludida. Custava-lhe acreditar na imagem que estava a sua frente, a armadura tão reluzente manchada de sangue, o rosto sujo e sem vida com uma expressão serena. Sem voz, Seika tentava desesperadamente imaginar-se acordando de um pesadelo e encontrando-se com o irmão, vivo e saudável, com o mesmo sorriso travesso de sempre. Mas por mais que sua mente tentava fugir, a dor que crescia progressivamente com a visão do peito agressivamente rasgado pela espada de Hades tomava-lhe as esperanças.

As lágrimas derramadas misturavam-se com o sangue no rosto de Seiya. Os cavaleiros de bronze assistiam ao sofrimento de Seika em silenciosas lágrimas. Por todo o período em que trabalharam ao lado do jovem cavaleiro, acabaram considerando-o um valioso irmão, com quem dividiam as vidas e os sentimentos. Tinham consciência do quão ardente era o sonho de Seiya em poder reencontrar a irmã mais velha e a sua dor, por nunca ter conseguido realizá-lo. Agora era tarde demais. Cada um deles culpava-se por não ter conseguido impedir o golpe que destruiu a última chama de vida do amigo, e punia-se, sentindo a infelicidade de Seika. Esta apenas segurava as mãos do irmão como há anos atrás no orfanato, murmurando entre constantes soluços:

“Onde você está, Seiya... Eu não quero ficar sozinha...”

   

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.