Frágil
Vida
Aquela noite estava mesmo impossível de prosseguir. Já começava a
deixar de sentir minhas pernas, sinal que já deveria ter parado. A tempestade
continuava a me empurrar com ferocidade e o cansaço tomava conta de mim. Era
uma sucessão de tempestades que nunca paravam ao longo de duas semanas
inteiras. Ao longe, quase imperceptível, uma floresta. Com certeza ainda
faltava muito para a próxima vila, e levaria no mínimo mais dois dias para se
chegar a Kohotek. ‘Ótimo’, pensei, ‘vou chegar atrasado e congelado’.
Antes de partir, havia prometido à Arisha que tentaria chegar a tempo de
ver o bebê nascer. Provavelmente não conseguirei mesmo, a não ser que ele me
espere mais um pouco para vir ao mundo. Não queria perder isso. Arisha sempre
foi tão boa pra mim desde que comecei o meu treinamento de cavaleiro na aldeia.
Ela já aliviou muitas das minhas tristezas e não cumprir a promessa a deixaria
chateada. Contudo, se não saísse do meio do gelo, minhas pernas congelariam.
De repente uma luz ao longe me chamou a atenção. Quem quer que fosse,
tenho certeza que daria abrigo nem que tivesse que negociar. Minhas pernas
realmente estavam se desligando de mim e me apressei pra chegar logo.
Era uma cabana simples, mas bem conservada. Bati na porta, já imaginando
uma cama e cobertores. Era difícil eu sentir tanto frio, mesmo aqui na Sibéria,
mas essa era uma tempestade bem pesada.
“Por favor, estou procurando abrigo!”
“Vá embora! Eu não quero ninguém aqui!”
A voz de dentro era de uma mulher e soava em um tom de choro. Essa era
nova. Já havia pedido abrigo a inúmeras pessoas, mas encontrar alguém nesse
estado, jamais.
“Por favor, senhora! Minhas pernas então congeladas!”
“Eu não quero saber! Vá embora!”
Esse era o tipo de situação em que o Ikki arrebentaria a porta a golpes
sem se importar com quem estivesse atrás.
“Senhora, por favor! Eu posso prestar serviços a você enquanto
estiver aí, mas eu não tenho para onde ir!”
“Eu não preciso de você! Me deixe em paz!”
O vento se tornou mais forte e dava um arrepio de frio nas costas, mesmo
através do grosso casaco.
“Senhora, posso ouvir você chorar, mas se você não me der abrigo
esta noite nem isso poderei fazer amanhã de manhã! Prometo que não vou
incomodar!”
Depois de um breve silêncio do outro lado, a porta se abre pela metade e
uma jovem põe a cabeça pra fora, observando-me da cabeça aos pés com os
olhos vermelhos. Não pude perceber pela voz de choro, mas se tratava de uma moça
de cerca de 20 anos ou mais.
“Quem é você?”
“Eu sou Hyoga, e só estou viajando para a aldeia de Kohotek.”
Ela olhou para o meu rosto, que provavelmente devia estar um pouco pálido
e abriu mais a porta, dando passagem.
“Entre logo.”
“Obrigado por me deixar passar a noite aqui.”
“Ali tem uma cama e cobertores no armário.”
A moça mal terminou de falar, já se dirigiu ao quarto, com certeza para
continuar a afogar a tristeza. Estava curioso para saber o que poderia tê-la
deixado tão triste, mas se intrometesse nesse assunto, ela possivelmente me
jogaria pra fora da casa. Dirigi-me ao pequeno cômodo e tratei de descansar
para o dia seguinte. Iria perder o nascimento do primogênito de Arisha muito
provavelmente e minhas chances diminuíam ainda mais se não prosseguisse a
viagem noite adentro. Mas não tinha escolha.
Eu sei que deveria estar com o sono pesado naquela noite, mas o som do
choro da jovem se aproximando me despertou. Alguns ruídos se seguiram e logo
depois ela voltou para o seu quarto. Não querendo chamar-lhe a atenção, dei
uma espiada discreta do quarto.
Era um berço de madeira que ela carregou e depositou no canto da sala.
Chegando mais perto, pude perceber um bebê dentro, mas para o meu horror, não
estava vivo. O pequenino estava pálido como a neve, e seu pulmão não mais
inspirava ar, o que explicava a tristeza da mulher. Voltei para a cama e pensei
em decidir no dia o seguinte o que fazer.
Quando acordei, preparei as coisas para ir embora. Não queria perder
nenhum minuto para chegar a Kohotek. Mas antes eu iria prestar homenagens ao
pobre bebê. Quando entrei na sala, encontrei na mesa uma cesta com pães e
vinho.
“Sirva-se.”
Olhei para a moça, que carregava nos braços o pequeno cadáver enrolado
em uma manta. Dava-se pra perceber através de seus olhos que dormira pouco e
chorara muito naquela noite. Continuei olhando pra ela, meio surpreso depois da
recepção tão fria quanto minhas pernas estavam.
“Desculpe por ter sido rude com você ontem. Eu não estava me sentindo
muito bem.”
Depois de dizer isso, ela pegou uma pá e saiu da casa lentamente. Eu me
sentei a mesa e fiquei observando o prato, enquanto a tristeza inundava meu
humor. De repente chegar logo a Kohotek não me pareceu a coisa certa, mesmo com
a promessa feita a Arisha.
Depois do lanche, vesti o casaco e sai. Ainda estava aquela tempestade
irritante e vi um pouco abaixo a moça olhando para o túmulo do filho. Corri
para a floresta no desespero de tentar encontrar alguma flor para oferecer, mas
obviamente não tive sucesso. Foi então que me ocorreu uma idéia melhor.
Aproximei-me lentamente da moça até colocar-me ao seu lado. Minha
presença não a incomodou e nós dois permanecemos quietos durante os próximos
minutos. Ao lado do pequeno túmulo, havia também um maior. De repente um fio
de pranto percorreu-lhe o rosto ela olhou pra baixo.
“Ele ficou doente há uma semana atrás. Nem eu, nem Yosef, meu marido,
sabíamos o que era. Ele saiu imediatamente para procurar ajuda, mas não
voltou. Encontrei o corpo dele próximo daqui, há dois dias. Ele havia sido
atacado por algum animal, provavelmente um urso. Pelo menos eu sei que ele não
estará sozinho no outro mundo...”
Isso me deixou mais furioso ainda. Andei um passo a frente e acendi o meu
cosmos. A jovem andou alguns passos atrás, aterrorizada com o brilho deste.
“O que está pensando em fazer?! Você é alguma espécie de
monstro?!”
“Não se preocupe.”
Continuei a aumentar o meu cosmos até perceber o sétimo sentido.
Queimei-o até o fim, para garantir. A terra foi se congelando, formando camadas
de gelo, até que formassem dois blocos de gelo, cada um ostentando uma cruz. Os
esquifes que aprendi de Camus.
“Eles não vão mais descongelar, nem mesmo no verão.”
A mulher observou os esquifes por alguns instantes, assustada, e depois
se jogou contra o meu peito, chorando sem cerimônias. Deixei que ela
desabafasse por quanto tempo quisesse. Depois sorriu de uma maneira doce, como
se desculpando pelas lágrimas.
“Desculpe por ter perdido o seu tempo. Sei que tem pressa pra
partir.”
“Eu precisava estar aqui. Vai ficar bem sozinha? Não quer ir para a
aldeia ou para a cidade?”
A moça negou, enxugando o rosto e voltando para a cabana.
“Vá embora.”
Não querendo trazer-lhe nenhuma preocupação, peguei minhas coisas e
parti. A tempestade não mais me incomodava, mesmo sendo tão forte quanto a de
antes. Também não tive muita fome nos dois dias de caminhada que se seguiram.
Minha cabeça continuava na jovem, que tão cedo já era viúva e mãe de um bebê
morto. Ainda mais depois de se ter a alegria de dar à luz ao primeiro filho.
Ocorreu-me que Arisha poderia estar muito bem no lugar dessa jovem, enfrentando
as mesmas dificuldades. Isso dava um desespero muito maior em mim.
Quando cheguei à vila, Yacov aproximou-se correndo com um grande sorriso
nos lábios.
“Hyoga, que bom que você chegou! O bebê de Arisha nasceu anteontem à
tarde! É uma garotinha!”
Larguei as minhas coisas em casa de qualquer jeito e fomos direto na casa
de Arisha. Ela estava sentada na cama e ao seu lado, o marido, Fokei, e a mãe,
já idosa, mas sempre alegre, Kristya. Em volta da cama, os amigos. Todos eles
me viram transformar em um guerreiro naquela pequena aldeia. Nos braços da mãe,
a pequena se mexia sem parar. Tudo indicava que era uma criança bem saudável.
Arisha sorriu ao me ver, mesmo eu estando naquele estado semi-acabado. Eu sorri
de volta, tentando esquecer o que havia acontecido há dois dias, embora não
pudesse.
“Desculpe, Arisha, não consegui chegar a tempo, mas pelo que vejo,
agora é mãe de uma linda garotinha.”
“Vem aqui, Hyoga. Você quer segura-la?”
A menina passou dos braços de Arisha para os meus com cuidado. Ela não
me estranhou, talvez porque eu já tivesse ajudado a cuidar de vários bebês da
vila. Nesse momento, pensei em quando aquela jovem carregou o cadáver do filho
com o mesmo cuidado de como se ele estivesse vivo para enterra-lo lá fora.
Enquanto
a segurava, uma enorme explosão simultânea de alegria e de tristeza invadiu o
meu espírito.
*FIM*
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