Lamentos

 

 

Estou morto. Mas isso não importa. Tanto faz eu estivesse vivo ou morto, minha missão como mestre acabou. Hyoga alcançou o zero absoluto e nenhum cavaleiro de gelo agora será capaz de derrota-lo, como prova a minha derrota nessa batalha. Minha missão está cumprida.

Mas Hyoga, me perdoe. As lembranças de sua mãe realmente impediam-no de alcançar o sétimo sentido, mas tira-la de você não resolveria nada. O fato não é que você, esquecendo essa obsessão, iria se concentrar mais na batalha. O fato é que você era um guerreiro muito solitário, mesmo entre companheiros leais. E sua fuga era a sua mãe.

Talvez por eu também fugir disso. Talvez por eu também ser assim. Mas minha fuga era diferente. Eu cheguei a acreditar que não precisava de amigos. Eu cheguei a pensar que um guerreiro era mais forte se esquecesse os sentimentos. Mas você provou o contrário. Pra que eu protegeria esse mundo se eu não tivesse, nem que fosse por um momento, saboreado as alegrias e belezas que ele nos fornece? Não digo apenas as belezas naturais, mas as relações que o homem possui.

Você protegeu as pessoas que amava nessa batalha e por isso eu perdi. Por que suas razões eram mais fortes que as minhas. Enquanto eu estava lutando cego, você enxergava mais longe do que qualquer um. Eu havia perdido desde o começo. Desde a primeira vez que você se levantou. Eu já estava morto.

Eu estava me escondendo, Hyoga. Me protegendo. Talvez porque eu também era como você. Eu não tinha um ombro. Eu não tinha ninguém. Desde quando eu sou assim, Hyoga, eu não lembro. Talvez foi quando o sangue tocou os meus pés ao ver minha mãe caída. Talvez foi quando o assassino dela tornou-se o meu mestre. Talvez foi quando eu descobri que ele era o meu pai. Mas isso deixou de ser importante a partir do momento em que fui vencido por você.

O fato, Hyoga, é que eu cresci sozinho, e os anos secaram as últimas lágrimas que me restavam. Assim como o vento siberiano acalmou a sua raiva, Hyoga, ele também acalmou a minha. Mas eu fingia que esse sentimento não estava acumulando dentro de mim e se transformando em tristeza. Hyoga, me perdoe. Ambos carregávamos fardos muito pesados e nunca os dividíamos. Eu nunca soube como era ser pai, ainda que adotivo. Ainda mais de um garoto que aprendeu tão precocemente o significado da solidão. Não devia ter fugido. Eu sabia que na sua vida eu seria o único pai.

E você se superou sozinho. Você deu a volta por cima, passando a lutar pelos seus amigos, pelas pessoas que dividiam o seu fardo. Enquanto eu continuei a carregar o meu sozinho. O fundamento de sua luta criou vida, e foi nesse momento que eu morri. Eu podia ter feito diferente, eu sei que podia. Existem pessoas que abriram seus corações para mim. Mas eu continuava fugindo. Eu sou um idiota, Hyoga.

Eu sei que é tarde dizer isso, meu discípulo. Eu sei que você não pode ouvir isso. Porque agora você está descansando depois de livrar o Santuário de todo o mal, depois de mostrar ao mundo a sua coragem, revelando a verdade enterrada há anos. Porque depois você irá desfrutar momentos alegres ao lado das pessoas que ama e não poderá ouvir essas palavras.

Os seus sentimentos, a partir de agora, levarão você a uma terrível guerra. Mas eu tenho certeza que você aprenderá a usa-los para obter a vitória. Será um guerreiro que servirá de exemplo ao seu mestre e aos futuros cavaleiros junto com os seus companheiros. A partir de agora você deixará de fugir nas lembranças e partirá sem medo no caminho rumo a felicidade. E como seu pai, tudo que eu posso desejar é que tenha sucesso nessa longa jornada que tive medo de realizar. Não quero que se detenha por mim, Hyoga, eu jamais saí da escuridão.

 

 

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.