Samuil cumprimentava um a um, recebendo condolências e olhares que não sabiam como olhar. O tema das conversas era sua esposa, sobre como sua vida tinha se desenvolvido e sobre como a infelicidade carregou-a até a cova. Perguntava-se o que tinha feito para merecer uma tarde como aquela. Ficava o tempo todo ao lado do caixão, rezando silenciosamente e fazendo com que todos pensassem que rezava para ela, quando na realidade rezava para que ele não viesse.
Na casa de uma família cujo teto desabara, restava às paredes desfazerem-se em tristes pedras. Faltavam somente duas, completamente independentes.
Um rosto desconhecido surgiu na casa. Samuil sabia que não se tratava de uma pessoa da vila, pois o rapaz era alvo de olhares curiosos que acompanhavam os seus passos feito sombras. Era jovem, provavelmente com não mais de vinte anos, a idade que Samuil temia que ele tivesse. As feições do rosto eram semelhantes às de Natássia, o que aumentavam as chances de um encontro que sabia que um dia chegaria. Vestia um terno preto especialmente para a ocasião, o que eliminava qualquer possibilidade de ser um viajante qualquer.
Ele parou ao lado do caixão e observou-o silenciosa e demoradamente, enquanto tentava digerir o fato. Não havia mais dúvidas no viúvo. Aquele era o rapaz que ele esperava e temia ao mesmo tempo. Aproximou-se até ser notado e recebeu do visitante um olhar completamente diferente dos demais, que não se desviava nem por um instante e possuía um pesar que surpreendeu Samuil.
“O senhor é Samuil Ivanov, não é mesmo? Eu recebi a notícia e vim o mais rápido possível. Minhas condolências.”
A formalidade e a educação também o surpreenderam. Samuil cumprimentou-o desconfiado, imaginando o que aquele jovem sentia vontade de dizer de verdade.
“Hyoga, certo? Obrigado por ter vindo de tão longe.”
O fato de ele ter conseguido chegar a tempo ao velório significava que possuía dinheiro para pagar a passagem de avião. Em um dia tão triste, envergonhava-se por pensar que aquele dinheiro devia ser sujo.
“É uma pena termos de nos reencontrar deste jeito.”
Ele lançou ao caixão um olhar que quase convenceu Samuil de que ele sentia pela perda de sua esposa. Mas o que aquele rapaz sabia? Era a primeira vez na vida que ele via aquele rosto, só sabia que ela era sua parenta, mais nada.
“Já faz muito tempo, mas posso ver claramente as semelhanças com mama. Eu gostaria muito de tê-la conhecido antes, mas acho que isso não a faria feliz.”
‘Você a mataria também?’ Foi o que Samuil quase perguntou, mas preferiu calar-se. Viu que novos convidados chegavam e achou que aquela era a desculpa perfeita para distanciar-se dele, pelo menos por enquanto.
“Acho que ela teria gostado... Agora, com a sua licença...”
“Claro, não se importe comigo.”
Aquela educação irritava-o. Tudo naquele rapaz tornava-o amargurado, pois ele era a prova viva da destruição de sua família, a causa da morte de todos.
O dia prosseguiu lentamente desde o velório até as palavras do padre em frente ao pedaço de terra que escolheram para ela. Hyoga permaneceu o tempo todo quieto e Samuil não sabia se essa era sua personalidade ou se agia daquele jeito devido à ocasião. Ressentia-se por não saber quem era o seu neto de verdade. Quando as pessoas saíram, Samuil achou que era melhor não deixar aquela chance passar, já que provavelmente não o encontraria tão cedo de novo.
“Filho”, custou-lhe chamá-lo daquele jeito, “por que não me acompanha numa garrafa? Quero esquecer este dia.”
Samuil jogou o conteúdo do copo na garganta, querendo embriagar-se o mais cedo possível. Ele reparou que Hyoga preferia beber aos poucos, em meio a pensamentos que o mantinham distante. ‘Não posso culpá-lo: seu sangue não é totalmente russo, não deve agüentar um pouco de álcool’, pensou. Samuil encontrou no copo a força para fazer uma pergunta cuja resposta já conhecia.
“Então, o que você faz, Hyoga?”
“Eu vivo em comunidade na aldeia, com algumas transações comerciais e pesca.”
Ele não mentia, mas também escolhia qual verdade diria.
“Além de ser um daqueles cavaleiros de Athena?”
A surpresa no rosto do rapaz era como a de um garoto que foi descoberto fazendo algo errado.
“Vocês sabiam...?”
“Já faz um tempo, sua avó e eu contratamos um detetive para descobrir o paradeiro de Natássia. Foi então que soubemos do naufrágio e de você, Hyoga. Soubemos que... suas mãos estavam sujas de sangue. Que desgosto teve quando soube que seu neto tirava as vidas de outras pessoas...”
“Foi por minha causa que ela... Eu sinto muito, senhor Ivanov.”
Samuil reparou que Hyoga de fato sentia, não dizia apenas para ser educado. Não era como ele tinha imaginado, como um rapaz de personalidade agressiva que não se preocupava com a vida alheia. Parecia tão normal quanto qualquer outro jovem de sua idade. Não. Ele era mais sério e maduro, talvez pelo fato de ser um cavaleiro. Suas mãos eram ásperas e cheias de cicatrizes, mais do que as dos trabalhadores que ele costumava ver na cidade.
“Não se culpe. Tudo isso aconteceu por causa de outra pessoa.”
Hyoga sabia de quem se tratava. Desta vez, o rapaz não teve pena do copo, levou-o até os lábios e bebeu em um único gole, querendo esquecer. Olhou para a mesa, enquanto esperava os efeitos do álcool, mas não pôde afastar aquela imagem de sua mente.
“Sabe... Mama levou-me naquele navio para que eu conhecesse o meu pai. Ela vivia me dizendo que ele era um homem justo e de caráter. Após o acidente, um navio mercante levou-me para o Japão e tive de deixar o navio de mama para trás. Quando cheguei lá, encontrei somente um rico empresário que me deu as costas e disse que me deixaria em um bom orfanato.”
E reenchendo o copo, desabafou:
“Eu me senti como se fosse jogado numa linda e enfeitada lata de lixo. Se o senhor soubesse quantas pessoas sofreram por causa de Mitsumasa Kido...”
“Aquele velho desgraçado destruiu mais famílias além da nossa?”
“Umas cem. E não estou exagerando.”
Hyoga possuía mais informações que Samuil obteria por conta própria. O velho sempre tivera curiosidade de saber quantos podres havia por trás do homem que tinha levado sua filha. De repente todas as respostas encontravam-se ao seu alcance, do outro lado da mesa do bar.
“Cem famílias... O que mais ele fez além de forçar você a ser cavaleiro?”
“Ele não me forçou a ser cavaleiro, senhor Ivanov. Essa foi uma decisão que eu mesmo tomei.”
Aquela era uma surpresa para Samuil, pois soubera pelo detetive que Mitsumasa Kido forçara Hyoga para ser um cavaleiro.
“Mas... Por que decidiu uma coisa dessas, filho? O que você pensou naquela época?”
“Os outros garotos foram forçados, mas o treinamento de cavaleiro interessava-me porque eu queria resgatar o corpo de mama do fundo do mar. Queria ser forte o suficiente para trazê-lo à tona e velá-la com honra.”
Aquele era um motivo que Samuil jamais imaginara ouvir. Algo diferenciava aquele rapaz dos outros, algo que não tinha a ver com o fato de ele ser um cavaleiro.
“E você conseguiu?”
“Eu consegui me fortalecer, mas não pude tirá-la de lá. A temperatura da água é tão baixa que o corpo de mama quase não mudou com os anos. Ele ficou protegido naquele quarto que, quando vi, não tive coragem de mexer. Eu senti que aquele merecia ser o seu leito final, que se ela permanecesse ali, sua beleza seria... eterna.”
Definitivamente, o que surpreendia Samuil não era o fato de aquele rapaz ser cavaleiro, mas a alma que ele possuía. A reverência que ele possuía pelo passado e pelas pessoas que se foram era algo que o mundo moderno abandonara em alguma esquina do tempo.
“Eu a visito todos os dias, levando um galho de uma única flor para o seu leito. Alguns dizem que é uma obsessão minha, mas eu não ligo. Se não fosse por ela, não estaria aqui.”
“Eu gostaria muito de visitá-la também... De vê-la mais uma vez. Ela saiu tão repentinamente de casa depois que discutimos. Você era só um bebê, deste tamanho mais ou menos.”
Hyoga tomou mais um gole enquanto via o tamanho que Samuil indicava com as mãos. Era de um bebê recém-nascido.
“Afinal... O que aconteceu em casa, senhor Ivanov? Eu era muito novo quando mama morreu, por isso ela nunca me contou sobre os problemas da família. É claro, eu não poderia entender.”
Era a pergunta mais difícil e óbvia que Hyoga tinha feito. Samuil sabia que devia aquela resposta ao neto, que agora não era mais tão inocente.
“Nós jamais apoiamos o seu nascimento, filho, nem o relacionamento entre sua mãe e Mitsumasa. Nós achávamos que... um japonês que estava lá apenas como turista não traria nada de bom para ela. Ele era tudo o que eu odiava. Era um homem que podia ter qualquer coisa com o seu dinheiro, que largaria sua mãe sem receber nenhuma punição, como o fez. Toda vez que eu olhava para você no berço... sentia nojo de sua metade. Mas agora eu vejo que estava errado.”
Hyoga não pareceu se importar com o fato de Samuil detestar sua metade japonesa.
“Eu também tenho nojo desta metade de meu sangue. Não pelo fato de ser japonesa, mas por ser do Mitsumasa. Quanto a isso, não posso fazer nada. Até que hoje não me importo tanto por ele ter me abandonado no orfanato. Foi lá que comecei a viver com os meus meio-irmãos.”
Diante da surpresa de Samuil, Hyoga perguntou-se se o detetive era péssimo ou se a Fundação era sigilosa demais.
“Não sabia? Todos os filhos não-oficiais de Mitsumasa foram parar em orfanatos no Japão. O senhor não encontrará um filho único com tantos irmãos como eu. Todos eles foram forçados a virarem cavaleiros. Somente dez conseguiram, incluindo eu. Mas não posso odiá-lo tanto. Graças a isso, tenho amigos de verdade, que me escutam e me apóiam.”
O choque foi tão grande que Samuil não pôde evitar dar um soco na mesa.
“Aquele miserável! Por que ele precisava ter feito isso com vocês?”
“Isso já é complicado explicar. Digamos que o destino nos empurrou para as vidas que temos. Precisamos ser pacientes e aceitar com bravura aquilo que nos chega. Foi isso que meu mestre me ensinou.”
“Seu mestre?”
“Sim. O cavaleiro Camus de Aquário. Ele foi como um pai para mim, ensinou-me tudo o que sei até hoje. Nós, que crescemos sozinhos, aprendemos que o sangue faz pouca diferença se a relação não é profunda. Camus sempre será muito mais pai para mim do que Mitsumasa, porque foi ele que me educou. Meus irmãos sempre serão mais amigos do que irmãos, pois essa é a nossa verdadeira relação.”
“E eu sempre serei o sr. Ivanov para você, não é mesmo?”
“Infelizmente... sim. Mas eu ainda me sinto mal pela sra. Ivanov. Ela era a mãe de minha mãe, afinal. Se houver algo que posso fazer por vocês, por favor, me diga.”
“Sou eu que tenho que me sentir mal, filho. Foi minha culpa ela ter morrido.”
“Como?”
“Ela não morreu de desgosto por você ser um cavaleiro, filho. Ela morreu de tristeza por não poder conhecê-lo. Eu achava que você, por ter o sangue de Mitsumasa e por ser um cavaleiro, seria uma decepção para ela. Ou pior, achava que você a machucaria. Mas ela teria ficado tão feliz por saber que o neto era um jovem educado e bom como você. Se minha cabeça não fosse tão dura, com certeza ela ainda estaria aqui.”
Samuil sentiu os olhos arderem, apesar de ter chorado a noite toda. Hyoga viu que o copo dele ainda estava cheio, quase até a boca, e achou que devia dizer algo para evitar que ele chorasse à sua frente.
“Não disse que queria esquecer este dia, sr. Ivanov? Por que não termina o copo?”
Samuil pegou o copo e derramou-o no chão, atraindo olhares das pessoas do bar. Ele não se importava.
“Decidi que não quero mais esquecer. Não quero acordar amanhã e não lembrar de você. Pode beber o resto da garrafa, nosso sangue é forte.”
Hyoga sorriu brevemente, o primeiro e último sorriso que Samuil veria.
“Não, obrigado. Não se esqueça de minha outra metade. Eu preciso voltar agora, sr. Ivanov, para continuar a trabalhar. Foi um prazer conhecê-lo.”
“Mande lembranças a Natássia por mim.”
“Pode deixar. Cuide-se.”
Hyoga deixou o dinheiro em cima da mesa, que Samuil agora sabia que viera do suor do neto e não do bolso de Mitsumasa. Educadamente virou-se e partiu, deixando para trás só o pai de sua mãe e toda a história que precedeu o seu nascimento. Ainda sentia a vontade de perguntar sobre ela, como era sua mãe quando criança, como ela cresceu, entre outras curiosidades. Mas engoliu as perguntas e continuou resoluto, pois sua família não era mais aquela. Ele era a parede que sustentava outro teto.
Samuil sentia-se um pouco tonto por causa do álcool, as informações sobre Mitsumasa Kido rodavam em sua mente em um coquetel de desespero e culpa. Segurando-se à cadeira, tentava organizar os pensamentos. Sentia-se horrível.
Seu ódio por Mitsumasa não tinha diminuído, mas ele sabia que não era pior. O que ele fizera com o neto? Dera as costas à filha e ao neto, jogara-o no lixo! Vendo aquele tímido rapaz, sentia-se um monstro, um criminoso. Dera as costas à esposa, não permitindo que ela conhecesse Hyoga. Percebeu que era tão horrível quanto o próprio Mitsumasa Kido.
Não queria esquecer Hyoga. Mas queria esquecer seus crimes, sua solidão, sua angústia. Poderia recusar a garrafa e viver com seus crimes, ou aceitar e fingir que não causara mal nenhum à sua família.
Sentou-se novamente à mesa do bar, agarrou a garrafa e bebeu o resto de uma só vez.
*FIM*
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