Momentos
O ar gelado que até então envolvia o navio começa a dissipar. Abandonamos a região dominada pelos icebergs e o navio aumenta a velocidade. O começo de um ar mais quente ia de encontro ao seu rosto, que não mudava de expressão há minutos.
Seu olhar era vago, em outro tempo, provavelmente no passado traumático. Seus dedos entrelaçados sobre o peitoril do navio agarravam-se com força enquanto os últimos pedaços de gelo eram deixados para trás, como um rio.
De repente ele abre um leve sorriso. Seu pensamento deve ter cruzado com alguma lembrança agradável. Sorrio com ele nesse breve momento de descontração. Ele põe-se a caminhar pelo enorme navio. Teria ele trabalhado muito para conseguir aquela passagem?
Satisfeito com o sereno momento, ele volta para dentro, fechando-se em seu quarto. Observo-o com calma. Ele deita na cama, espalhando sua preguiça e fechando os olhos lentamente. Seu rosto adormecido transmitia muita paz e inocência, apesar de tantos sofrimentos. Permaneci junto dele na cama e quis tocá-lo, mas não podia. Ele se vira molemente para o lado unindo os dois braços, e o imagino criança em um mundo totalmente diferente. Um breve sonho.
Agilmente ele deixa o quarto, carregando sua pesada bagagem. O navio acabara de portar em Tóquio. Ele salta e confunde-se na pequena multidão caminhando em direção às pessoas que vieram recebê-la. Dois jovens sorriem ao vê-lo. Um deles, bastante alto, tinha cabelos longos e vestia trajes chineses. O outro, mais baixo, estava de jeans e uma camisa sem mangas vermelha. Ele os cumprimenta e conversa animadamente, esquecendo por hora seus problemas. Eles eram seus amigos. Justamente aquilo que ele precisou naquela época.
Os três deixam o porto caminhando e rindo e eu me senti subitamente feliz. Seus gestos eram relaxados, alegres, puros. Os amigos o acompanhavam, escutando cada palavra que ele dizia, compreendendo cada sentimento. Quis que ele mostrasse esse sorriso para mim, um sorriso que deixava de ser solitário e passava a ser mais brilhante.
Notei que seus passos também eram mais leves. Talvez porque a segurança do caminho que ele trilhava era maior e sua certeza vinha do espírito sem nenhum compromisso com o dever. Em um momento ele salta. Era um salto majestoso, livre, que mostrava aos seus amigos e a mim seu atual estado de espírito. Uma belíssima união do corpo e da alma na expressão dos sentimentos.
Chegamos a uma enorme mansão. Era uma entrada enorme, que trazia a impressão de estarmos em algum tipo de paraíso. Os rapazes, aparentemente acostumados com o lugar, atravessavam todos os portões, a medida em que os funcionários, finamente trajados de terno e gravata, permitiam-lhes o caminho com um delicado gesto.
Ao portão da mansão, surge um alto mordomo que autoriza a entrada. Uma jovem então aparece em um vestido fino e em jóias que provavelmente deviam carregar nobre valor. Eles a cumprimentam e todos seguem para uma espaçosa sala que provavelmente era o seu escritório. Os dois amigos sentam-se no sofá, enquanto ele apóia as costas na parede, cruzando os braços.
A jovem lhe fala e ele tranqüilamente responde, com um pequeno sorriso nos lábios. Depois eles começam a conversar sobre um outro amigo deles, que estava distante no momento. De repente um dos amigos solta um comentário e todos riem. Gostei tanto de vê-lo rindo... Uma breve explosão de alegria, que se desfaz em sons...
O mordomo aparece na porta da sala, dizendo que alguém tinha chegado. A jovem, que provavelmente era a dona de tudo aquilo, volta-se ao outro jovem que acabara de chegar. Vestindo uma camisa verde e calça branca, o rapaz cumprimenta a todos, sereno, senta-se em uma cadeira e participa da conversa, embora parecesse ser mais tímido. Era um outro amigo.
A jovem sai da sala, deixando-os à vontade para conversarem e eles lembram das cenas passadas, tempos agradáveis e difíceis, felizes e tristes. Contam o que aconteceu com as pessoas que encontraram no caminho e imaginam o incerto futuro. Eles, que deveriam carregar os mais pesados fardos. Inclusive ele.
A noite é vaga. É onde os segundos se encontram com as horas e qualquer noção do tempo é perdida. Ele observa pela janela o céu oriental e procura uma constelação. A sua constelação. A sua vida. Seus olhos brilham ao encontrá-la. Como se ela o reconfortasse, dizendo-lhe ternas palavras. Uma pequena mensagem de esperança.
Os empregados haviam deixado tudo preparado. Sua cama, feita, esperava que ele depositasse seu sono nela. Um sono que ele ainda não tinha. Seus pensamentos haviam encontrado algo mais interessante, e eu me atento às suas reações. Elas eram mais importantes do que nunca pra mim. Ele fixara os olhos no escuro da noite, sério, esquecendo de toda a realidade. Eles se tornam brevemente tristes, aparentemente por desconhecerem algum fato.
Ele volta a si e se afasta da janela. Querendo esquecer os problemas, tira de sua mala um grosso livro. Ele o lia na cama, mergulhando em seu mundo, esperando que o sono finalmente vencesse. Ao conseguir, ele adquire mais uma vez aquele rosto cheio de paz, inocente, sem preocupações. Ao querer tocá-lo, imaginava que tipo de sonhos ele vivia toda vez que seu descanso transmitia tal expressão.
Sua visita ao Japão foi mais breve que pude imaginar. Tomando o navio no dia seguinte, ele retorna com o coração mais leve. Se outrora ele observava tenso os icebergs encontrados no caminho, agora ele sorria tranqüilamente para eles, enquanto procurava se lembrar dos bons momentos passados no Japão.
Trilhava ele um caminho árduo para a felicidade, que era para os outros tão facilmente alcançável. Se por algum motivo ele se deixasse dominar pelos sentimentos negativos, haveria sempre uma brecha de esperança que lhe devolveria a paz novamente. Até onde fosse, até o próximo momento.
De volta à terra natal, ele puxa para o fundo do peito a gelada brisa, que apesar de tão fria, trazia consigo a quente vitalidade da saudade. Seus pés se movem na neve, acostumados com o rigoroso clima. Um clima que conseguia ser gentil com sua mórbida sombra.
Ele se aproxima de uma grande planície de gelo. Um lugar sagrado cujo guardião era ele e sua alma. O mar havia se congelado novamente depois do moderado verão e ele adquirira a mesma obrigação de todos os anos.
Ele levanta o braço, emitindo uma forte aura branca. Ela se junta em torno de um ponto no chão e vai se solidificando em gelo. Um poder que é o resultado da luta de uma vida inteira. Uma cruz de gelo, que em momentos passados fora usada para trazer pessoas ao chão e cumprir com o título de guerreiro. Um profissional das guerras. Um profissional da morte.
Hyoga se ajoelha no chão, com um doce sorriso em direção à recém-feita cruz. Os olhos, cheios de ternura, buscavam nela a querida imagem.
“Estou de volta, Mama...”
Sim. Eu sei, meu filho.
“Um
homem nasce... cresce...
Ama
alguém... odeia alguém...
Ri...
chora...
Luta...
é ferido...
Sente
alegria... sente tristeza...
E
no fim ele é coberto por um sono eterno chamado morte.” (Shaka
– The Hades)
*FIM*
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