No Mar de Lembranças

 

           

            O bote estava se afastando, repleto de pessoas, e em movimentos pesados. Natássia sentiu uma vontade incontrolável de estar nele acometê-la e torturá-la de tal maneira que lágrimas foram derramadas mecanicamente. As mãos apertavam o peitoril do navio com mais força à medida que os gritos dos náufragos se afastavam e o único som audível era o do próprio navio, se despedaçando como se fosse uma pedra de areia.

            Ela não queria estar naquele bote para ser salva. Queria apenas ficar mais um pouco com ele. Hyoga gritava chorando, chamando-a sem parar, ‘mama, mama’, machucando-a. De seus olhos também fluíam lágrimas, a dor da separação invadindo seu corpo inteiro. E a impossibilidade de não fazer nada para acalmá-lo era uma dor ainda mais dilacerante para ela. Entre eles, a distância impossível de ser atingida por aquele simples corpo humano, mas o sentimento que ansiava sobrepujar tudo aquilo.

            Ela realizara seu derradeiro gesto de carinho para com o filho. Sacrificara a vida para fazê-lo chegar a salvo aos botes salva-vidas e com aquilo estava condenada a passar o resto da eternidade oculta no fundo do mar. O que estava para vir era aterrorizante e inevitável e, apesar daquele ser o maior sofrimento de todos os enfrentados até aquele momento, não se sentia arrependida. Apesar de cedo, estava na hora de Hyoga encontrar seu próprio caminho.

            Naquele momento, tudo parecia desaparecer para ela. O navio, os botes, os sons, as pessoas. Só havia ela e o filho. No eterno mistério do sentimento maternal, tudo deixava de ser importante, até ela mesma. O instinto selvagem de protegê-lo e dar-lhe conforto lutava com a lógica de que não era mais possível fazer algo por ele e Natássia começava a assimilar a idéia de que morreria dentro de poucos minutos. Os lábios se entreabriram pela última vez:

            “Do Cvidânija, Hyoga...”

            As palavras sofriam para serem pronunciadas corretamente. Cada uma correspondia a uma faca que era fincada em sua alma. Cada uma confirmava o destino e o curto período que Natássia pudera viver para moldar seu broto de vida, que agora partia junto aos botes em segurança. Pronunciar o nome do filho jamais fora tão difícil.

            Hyoga berrou ainda mais alto quando viu a mãe dar-lhe as costas e entrar em um quarto do navio. Sabia perfeitamente que ela jamais poderia sair dele e assustava-lhe a idéia de ter de se separar da única pessoa que amava. Não importava em qual lugar estivesse, fosse Rússia, sua terra natal, ou Japão, a terra do pai que jamais conhecera, queria unicamente abraçar a mãe e não soltá-la mais.

            Assim que Natássia fechou a porta atrás, encostou-se nesta, cerrando os olhos com pesar. Suas mãos tocavam no metal frio em um misto de vontade e hesitação para girar a maçaneta e voltar ao filho. O escuro da visão era substituído por lembranças antigas que pareciam ser recentes. A vida era relembrada como um vídeo ou um grande teatro minuciosamente detalhado. Ela estava deitada na cama da casa de seus pais, a dor e a alegria contagiando-a com o dom oferecido por Deus. As vozes alegres das pessoas se confundiam com o choro do bebê, sua primeira criança. Era um menino sadio e quieto.

            Quando aquela pequena porção de vida foi depositada em seus braços naquela noite, Natássia chorou. Hyoga acolheu-se em seu colo, cansado com o grande acontecimento da noite, e adormeceu tranqüilo. E Natássia chorou com tanto amor por aquele pequeno milagre. Dentre todos os fatos do mundo que vivera até aquele momento, o nascimento de Hyoga fora o que mais lhe marcara. Tudo nele despertava-lhe um imediato carinho que ia além da simples ligação física da gravidez.

            Foram sete anos desde então. Sete anos até se vir encurralada pelo naufrágio e ser obrigada a dar a vida pelo seu maior tesouro. Olhou para a cama no centro do quarto por alguns momentos, antes de se deitar nele, procurando reviver nas memórias aquele dia sagrado. A visão era embaçada pela água salgada dos olhos, virando manchas indefinidas de cores diversas. Mas sua mente estava em outro local.

            Seus pais olhavam para o bebê com neutralidade. Não havia a bondade dos avós e nem o ódio que nutriam pelo pai do menino. Mas Natássia o fazia se sentir especial, naqueles braços que jamais o rejeitariam, em uma ligação mais forte que qualquer outra, fosse com o pai de Hyoga ou com seus próprios pais. Isso a levou a sair de casa para lutar por uma vida feliz para o filho. Levara consigo seu rosário, alguns pertences e um pouco de dinheiro. Até terminarem naquela viagem.

            Natássia sorriu. A mão se elevou até o peito, tocando o corpo no local em que se situaria seu rosário, estivesse ele ali. Havia dado naquela mesma tarde para Hyoga, pedindo pra que guardasse bem, como sua própria mãe um dia o fizera. Assim ele teria para sempre um pedaço dela consigo, mesmo estando separados.

            Naquela hora pareceu-lhe estranho não estar acompanhada do filho. Em um lugar como aquele, tão distante da costa, da Rússia que ela amava, e ele não estava com ela. Quis se levantar da cama, mas não teve forças para fazê-lo. Não podia ver aquele rostinho querido triste de novo. Suas mãos seguravam o lençol com força, não por medo da morte, mas pelo pensamento de não poder mais vê-lo em vida. Anos atrás tanto fazia ter um filho ou não, mas agora ela não podia mais viver sem ele.

            As pessoas costumavam dizer que era uma criança quieta demais, falava pouco e observava a tudo com olhos curiosos e atentos, sem perguntar nada. Natássia respondia que ele não necessitava de muitas palavras para expor pensamentos e sentimentos, o que era verdade. Apenas o olhar de Hyoga já dizia como ele se sentia, e seus gestos normalmente diziam tudo que havia para se dizer. Às vezes parecia não estar prestando atenção no que lhe diziam, quando na verdade ele tinha sua atenção inteiramente voltada para isso.

Natássia sabia que nenhuma das pessoas que tivessem convivido com Hyoga por pouco tempo poderia imediatamente entender que não se tratava de esconder sentimentos, mas de expressá-los com uma sutileza que contrapusesse sua força. Apenas ela tinha certeza do quanto Hyoga era amoroso e do quão intensas eram suas emoções.

            Com as primeiras formações de sua personalidade, Natássia não se cansava de imaginar que tipo de homem Hyoga viveria para ser. Imaginava-o crescendo, no próximo ano, no seguinte e no que viria ainda depois. Naquela noite sonhara com ele quase adulto, um rapaz alto, bondoso e inteligente. Perguntava-se a que ele iria dedicar a vida, que passatempos teria, que trabalho escolheria e como resolveria seus próprios problemas. Tudo parecia uma grande promessa da vida para uma mãe, na espera do fruto que seu brotinho traria, cuidando e regando todos os dias.

            Mas aquela espera não teria um fim. Hyoga continuaria vivendo sim, mesmo com aquela tristeza, mas ela não poderia mais esperar o que a vida reservara ao seu filho. Podia apenas confiá-lo a Deus e rezar por sua segurança. A separação a torturava, nas seqüelas do acidente que provavelmente permaneceriam no menino até o final da vida, na falta de pais que pudessem dar-lhe educação e sustento até que pudesse cuidar de si mesmo. Suas lágrimas então saíram pelo sofrimento que aguardava o seu filho.

            A água começava a invadir o chão do quarto, e o som do fluído aumentou. O único consolo de Natássia era que Hyoga estava a salvo. Então uma estranha tranqüilidade lhe tomou conta, ao contrário do que esperava quando aquele momento chegasse. Estava protegida pelo sentimento maternal que reservava apenas ao filho. O nível da água subia e subia, chegando perto do nível do colchão, mas o sentimento que havia era o de alívio. Era um perigo que estava distante de ameaçar seu filho.

            E quando a água cobriu seu rosto, Natássia não buscou pelo resto de ar que o quarto dispunha, apenas fechou os olhos e procurou lembrar-se dos momentos felizes que Hyoga havia lhe proporcionado. O primeiro choro, a primeira refeição, as primeiras palavras, e nas lembranças ela estava sempre sorrindo. Voltou à primeira noite do nascimento. Sentia a respiração macia do bebê, os pequenos pulmões puxando e soltando ar, movimentando-se sobre o seu próprio peito. Sentia os pequenos membros, os braços e as pernas mexendo-se ocasionalmente, ao buscar uma posição mais confortável. E Natássia não pensava em nada, só sorria.

            O último sorriso apareceu no rosto de Natássia e sua mente foi tragada para a escuridão, deixando apenas o corpo inerte sobre a cama. Corpo que permaneceria congelado naquelas águas para sempre, conservando sua beleza oculta de todo o mundo. O navio se transformaria em uma morada de peixes que jamais conheceriam a história de uma mãe que ali decidira permanecer para salvar o filho.

            Eles também não saberiam quem era o rapaz que anos depois mergulharia até aquele ponto do mar sem nenhum equipamento de mergulho, ato aparentemente impossível para um ser humano comum. Levava uma rosa na boca e nadava entre os destroços do navio como se lhe conhecesse cada corredor e cada quarto. Um jovem alto, bondoso e inteligente, exatamente como um dia Natássia imaginara. Em seu pescoço, um rosário dançava graciosamente aos movimentos da água, sem deixar de acompanhar seu dono.

            Nenhum dos peixes que ali morava poderia dizer o que tinha aquele quarto de tão especial para receber um visitante humano e nem Hyoga se preocupava em dar-lhes atenção. Dirigia-se imediatamente para o corpo da mulher esquecido sobre a cama e reconhecia que sua beleza jamais mudava, mesmo com o passar dos anos sofridos. Quando estava lá sentia que o ambiente tornava-se consideravelmente diferente de qualquer outro lugar. O mundo podia desaparecer, mas aquele navio e sua mãe jamais poderiam mudar. Ficariam ali para sempre. Navsegda, como diria o rapaz.

            Unia as mãos e rezava emocionado, embalado por saudade e lembranças. Sentia o presente e toda a sua vida depois do naufrágio se dissolverem para voltar aos primeiros anos de sua vida, quando um elo indestrutível foi construído entre ele e Natássia. Mesmo não podendo emitir qualquer palavra naquele lugar, seus olhos diziam tudo que havia para ser dito. E cada visita trazia-lhe um conforto quase infantil, de uma criança que buscava o calor dos braços que jamais o rejeitariam. Dos braços de Natássia. Dos braços de sua mãe.

 

*FIM*

 

 

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