O Crepúsculo do Herói

   

            Siegfried não sabia ao certo o que se passava em sua mente. De um lado havia sua recente posição de guerreiro-deus de Odin; e do outro havia seus próprios sentimentos, que o atormentavam incessantemente. Enquanto permanecia ajoelhado em frente àquela a quem deveria proteger, oscilava entre o que ele já havia sido um dia e o que ele era naquele momento. Era uma transformação tão abrupta que nem todo o gelo de Asgard poderia se comparar ao frio que dominava sua alma.

            O que se fazia nos corações do povo nórdico? De repente, de um ideal pacífico, o país erguera-se em armas almejando o sagrado domínio de Athena. Era tudo tão diferente do passado que o guerreiro-deus não pôde deixar de sentir uma ponta de receio sobre o que o destino traria sobre todos a partir daquele momento. Os ares mudavam de uma eternidade tediosa para um espírito revolucionário e provocador.

            Ele sabia que aquele momento chegaria algum dia para o povo. Sabia que todos os anos de duro treinamento valeriam a pena para algo. Mas não esperava que aquela nova chance viesse do espírito mais pacífico que conhecera, a representante do deus Odin sobre a Terra, Hilda de Polaris. O pensamento fez seu corpo estremecer. O que estava acontecendo na doce Hilda de sempre?

            “Siegfried.”

            O chamado fez o rapaz voltar do mundo da divagação por um momento e servir à sua senhora, submisso:

            “Sim, senhorita Hilda...?”

            “Parece pensativo. Se algo o está incomodando, terei o prazer em ajudá-lo. Que problemas tem em mente?”

            Siegfried sentiu um pouco de terror ao trocar o olhar com a jovem princesa. Sentia uma inexplicável malícia em sua voz, algo que não havia há alguns dias atrás, quando ele ainda não havia recebido o título de guerreiro-deus. O olhar também parecia estar mudado. No lugar de olhos gentis e puros, ele via ambição e ousadia. Seria aquela uma manifestação de Odin em Hilda?

            “Nenhum, senhorita. Não há motivos para lhe incomodar.”

            Hilda riu e se aproximou lentamente. A vontade que se manifestou em Siegfried foi a de se retirar o mais breve possível, mas fora educado para jamais ir contra à representante de Odin. No salão, não havia mais nenhum guerreiro-deus. Dispensados, cada um dirigira-se ao seu respectivo aposento, restando apenas Siegfried, que se perguntava naquele mesmo instante: por que só ele?

            Hilda agachou até que sua cabeça ficasse à mesma altura do guerreiro. O olhar tímido dele encontrou a face da jovem invadindo seu espaço individual e forçando-o a permanecer na mesma posição. Siegfried sentiu os braços de Hilda alcançarem suas costas e seu sorriso tornar-se mais venenoso do que nunca:

            “Bem, já que não há nenhum problema, não quer deitar comigo?”

Imediatamente, Siegfried colocou seus sentidos em alerta. Sentia-se como uma caça para onde não pudesse fugir. Ele queria ficar com Hilda, queria segui-la para onde fosse, mas algo o puxava para trás. Ele era Siegfried, guerreiro-deus da estrela Alfa. Até onde iam os seus direitos e deveres para com Hilda? Indeciso, permaneceu em absoluto silêncio nos próximos segundos.

            “O que houve, Siegfried?”

            Ele fechou os olhos com força. Sabia que a proposta de Hilda era indiretamente uma ordem, diferente das outras vezes, e que jamais havia recebido tanta pressão da jovem. Mas aquela era uma maneira diferente de ver a vida. Era aquela Hilda que traria o fim do sofrimento de tantas pessoas, de seus próprios pais e irmãos. Aquela era a pessoa a quem ele devia fidelidade, mesmo na morte. Abriu os olhos lentamente e buscou um sorriso que a agradasse, embora falso:

            “Não é nada. Estou à sua disposição, senhorita.”

            Satisfeita, Hilda sorriu e se levantou junto com o seu guerreiro-deus.

 

 

            Agora se sentia um idiota. O quão estúpido ele fora, para não perceber a verdade! Aquela não poderia ser a mesma Hilda que ele conhecera, era simplesmente o oposto da outra! Como ele fora estúpido a ponto de ser enganado por Poseidon, que havia dominado a representante de Odin! Mas agora era tarde. A guerra contra os cavaleiros de Athena chegava ao seu momento decisivo, e ele estava envolvido nele.

            Todos os guerreiros-deuses além dele caíram em vão. E sobrara ele, guerreiro da estrela Alfa, a acabar com o último dos cavaleiros de Athena. Mas se ele emitisse aquele golpe, estaria dando a vitória a Poseidon e não a Hilda. Estaria sendo o mesmo boneco que foi durante os últimos tempos. E ele não estava mais disposto a cometer o mesmo erro agora que conhecia a verdade. A verdadeira Hilda jamais precisara tanto dele e ele não podia decepcioná-la. Não mais.

 

 

            “Siegfried, treina diligentemente.”

            Ao ouvir a voz de Hilda, Siegfried parou e enxugou a testa molhada de suor com a manga da blusa. Treinava desde manhã na encosta da montanha que havia sido escolhida para ser o abrigo dos guerreiros de Odin, a montanha de Valhara.

            “Sim, senhorita. Não posso deixar de pensar que devo estar preparado se algo acontecer à Asgard ou à senhorita.”

            O olhar de Hilda enterneceu e ela se aproximou do rapaz entre as rochas com que treinava. Este se apressou em ajudá-la a descer até o local sem se escorregar nas pedras soltas.

            “Você está sempre pensando nisso, Siegfried. Enquanto nós ainda arranjamos um tempo para nos divertirmos, está sempre se esforçando para melhorar as suas técnicas de luta. Mesmo que até hoje não nos tenhamos envolvido em grandes combates e que os guerreiros-deuses não tenham ainda renascido, pode-se dizer que você sempre viveu para a luta. Saiba que Odin o admira muito.”

            Siegfried não sorriu, embora cada elogio de Hilda recompensava-lhe todos os machucados que sofrera durante o rigoroso treinamento para se tornar um guerreiro do palácio.

            “Da mesma maneira como a senhorita reza todos os dias ao senhor Odin, desde quando era uma criança, eu gostaria de me esforçar igualmente para agradá-lo.”

            Hilda sorriu e aproveitou a ocasião para admirar a paisagem daquela encosta. O Sol não era visto em lugar algum, apenas a tênue claridade indicando que ainda era de dia tornava visível as montanhas eternamente brancas de Asgard, acompanhadas das coníferas e das vilas do pobre povo da região.

            “Mas eu peço para que não se esqueça de uma coisa, Siegfried. Não é apenas o nome de Odin que protegemos, trata-se de toda essa vida ao nosso redor. Nosso povo tem sofrido muito, desde muito antes de nós nascermos. E é dever nosso procurar amenizar essa dor o quanto puder. Existem várias maneiras de se fazer isso. Lutar é uma delas. Mas a guerra para mim é o último dos recursos que usaria para ajudar o povo nórdico.”

            “Senhorita...”

            “Sei no que está pensando, Siegfried. É muito nobre sacrificar-se para proteger os outros, e faz jus à sua personalidade. No entanto, procure não carregar todo o peso em suas costas. Hagen, Shido e os outros estão aqui para dividir este mesmo fardo com você. E eu também estou. Quando o momento da batalha chegar, você lutará não pelo que treinou, mas pelo que viveu. Portanto, vamos aproveitar esta dádiva de Odin juntos.”

            Hilda começou a subir as pedras, até que alcançasse a escassa grama que começava a surgir com a vinda de um tempo menos frio.

            “Eu bem me lembro, Siegfried, que me contou sobre a sua origem na nobreza. Não gostaria de me acompanhar na floresta? Ainda se lembra como era cavalgar por lá, não?”

            Siegfried sorriu desta vez. Não conseguia deixar de admirar a bondade que fluía de Hilda em todos os momentos. Mesmo ela sendo a detentora de todos os poderes políticos sobre Asgard, sempre mantinha uma posição simples, mesmo com seus servos, e jamais abusava do poder que lhe tinha sido entregue. Era uma pessoa que ele definitivamente queria proteger com a força que adquirira.

            “Sim, é claro que eu me lembro, senhorita.”

            “Então, eu tenho a certeza de que estarei segura.”

            Naquele momento, Siegfried jurou para si mesmo que não seria apenas naquele dia que ela estaria segura, haveria de protegê-la para sempre. E juntou-se à jovem para o passeio, que seria o primeiro entre muitos.

 

 

            Siegfried observou o cavaleiro de Athena que estava à sua frente. Aquele era o cavaleiro de Pégaso, que se arriscara além de todos os sentidos para salvar a sua deusa, e encontrava-se quase morto naquele momento. Para salvar Athena, precisava desesperadamente da pedra guardiã do guerreiro-deus, a safira de Odin de Alfa, e faria qualquer coisa para tê-la. Os olhos demonstravam um toque de fúria, pois anteriormente Siegfried fizera cair Shiryu, o cavaleiro de Dragão, que era com certeza um estimado colega. E mais do que fúria, havia a maior determinação que o guerreiro encontrara nos olhos de alguém. E aquele olhar o convenceu de vez.

             Não era contra os cavaleiros de Athena que ele deveria lutar.

            Siegfried percebeu no mesmo instante que tanto ele quanto Seiya tinham muito em comum. Ambos queriam salvar mais do que as deusas. Ambos estavam dispostos a darem muito mais do que as próprias vidas. Mas um deles estava errado. Praticamente não existia diferença de forças entre os cavaleiros de Athena e os guerreiros de Asgard e a razão de ele estar em desvantagem no dado instante era óbvia. Agora ele não tinha mais dúvidas quanto às suas futuras ações como guerreiro-deus.

            Como se a dor maior fosse no interior do que a física, Siegfried segurou a respiração no segundo seguinte. O sangue escorreu pelos dedos do guerreiro-deus antes que o cavaleiro de Pégaso pudesse entender o que estava acontecendo. Mas não era o sangue de Seiya. Siegfried golpeara a si mesmo com violência na cintura, onde exibia a sua pedra guardiã. Os dedos transpassaram sua armadura e afundaram na carne sem o menor resquício de hesitação.

            O cavaleiro de Athena, sem entender o repentino movimento do adversário, presenciava sem palavras a dor de Siegfried no golpe. Jamais esperara tal atitude de seu próprio oponente, nem ele e nem Hilda.

            Siegfried sentiu um certo alívio em sua dor. Sentia raiva de si mesmo por não ter percebido a verdade antes. Se tivesse, poderia ter evitado a morte de muitos companheiros e ter salvado a sua senhorita antes de querer invadir o sagrado domínio de Athena. Mas o golpe era para que ele se castigasse e aliviasse um pouco o arrependimento que brotara com a verdade. Além disso, permitiu que o guerreiro-deus finalmente sorrisse brevemente. Um sorriso genuíno. Reunindo toda a força do corpo, estendeu a mão ensangüentada com a safira ao cavaleiro de Athena:

            “Tome... Pegue-a, por favor, Pégaso... Pegue-a...”

 

 

            “O inverno se aproxima. Parece que será bastante rigoroso este ano.”

            “Tem razão. Eu gostaria de poder fazer algo pelo meu povo para que ele não tivesse que sofrer tanto...”

            De dentro do palácio, Siegfried e Hilda observavam a neve que caía mais impiedosamente a cada dia que passava. O rapaz voltou-se à princesa, para fitar os puros olhos que sempre se preocupavam com o país que governavam. Estavam marejados, tristes em um momento raro.

            “Senhorita Hilda, sabe que faz o seu melhor para trazer menos sofrimento às pessoas de Asgard. O nosso povo sabe. Mesmo se um dia eu me tornasse um guerreiro-deus, não poderia fazer por eles nem mesmo metade do que a senhorita já faz.”

            “Será que eu realmente faço, Siegfried? Às vezes eu me pergunto se isso é mesmo verdade ou não. Nosso povo de Asgard tem vivido neste gelo eterno desde a época da mitologia, comandado pelos representantes de Odin. Mas enquanto nós permanecemos aqui, neste palácio, centenas de pessoas estão passando fome ou sendo atacadas por doenças e infelizmente Asgard não tem condições de reverter esta situação. E eu sem poder fazer nada...”

            “Sabe que é verdade sim. A senhorita Hilda sempre procurou as melhores escolhas mantendo sempre a segurança de nosso povo em primeiro lugar. Mesmo que o crepúsculo dos deuses viesse para destruir Asgard, não haveria sofrimento que nos impedisse de acompanhá-la até o fim. Odin não poderia ter feito melhor escolha ao tê-la tornado sua representante.”

            “Eu diria o mesmo se você fosse escolhido para ser um dos guerreiros-deuses, Siegfried. Seria o mais nobre de todos... São palavras gentis, mas mesmo assim... Meu povo continua lá fora, enfrentando cada dia com a força inesgotável de seus corações. Mas eles continuam sofrendo, Siegfried, a cada tempestade, a cada instante. E eu sofro por eles... O tempo todo, Siegfried.”

            As lágrimas que teimavam em sair enfim derramaram sobre o chão do palácio. Siegfried sabia que como representante de Odin na Terra, Hilda devia ser uma pessoa firme e forte, sem arrependimentos, mas ele também sabia que ela era uma mulher e tinha os seus momentos de fraqueza como qualquer ser humano. E o seu dever era protegê-la de qualquer coisa. Fosse de um perigo à sua vida até da tristeza. Os braços tímidos a aproximaram para perto com cuidado.

            De início Hilda demonstrou surpresa, mas logo se aconchegou ao peito do rapaz. Sentia-se uma tola por precisar do conforto de um guarda para enfrentar suas fraquezas. Afinal ela era a representante de Odin, precisava ser firme, decidida e impessoal quando o assunto fosse governar Asgard. Mas Siegfried não a soltava, não importa que pensamentos cruzassem sua mente, ele continuava firme e imóvel e ela também não se separaria dele. Embora ela soubesse que protegê-la era uma das obrigações de Siegfried, havia algo mais que o tornava especial, mais especial que todos os outros. E ela sabia que aquele sentimento nascia da alma e não da mera comparação racional entre os guerreiros mais dedicados de Asgard.

 

 

            Seus dedos fraquejaram, a safira de Odin caiu. Em um momento que parecia interminável, o chão tão distante e a safira em uma queda quase que em câmera lenta, ela veio a tilintar no chão do palácio invadido, com um som que parecia anular qualquer outro ruído no local. Siegfried observou mais uma vez os olhos do cavaleiro de Athena. Não havia mais dúvidas quanto a eles. Voltou-se na direção de Sorento, o mensageiro de Poseidon, com o ódio emanando de seu espírito. Aquela guerra toda fora apenas para enfraquecer a força de Athena e não para oferecer ao povo de Asgard uma chance de viver no reino do Sol. Usaram uma força que era destinada apenas à defesa como um inútil ataque.

            E aquela era a hora de se refazer de sua vergonha. Como poderia um homem que fora considerado um herói de Asgard ser uma ameaça contra o seu próprio povo? Ainda mais, como poderia ser ele, Siegfried, um empecilho para a salvação de Hilda? Ele, que era aquele que mais desejava protegê-la! Que Odin o destruísse se algum dia ele desejasse fazer algum mal ao seu país.

O guerreiro-deus fechou o punho com uma nova determinação. Não mais importava o seu título, sua postura ou sua vida. Era apenas o desejo ardente de trazer de volta o olhar puro e gentil de sua princesa. Agora tudo estava claro em sua mente. Em seu íntimo, sabia o tempo inteiro que aquela Hilda gananciosa e maliciosa não poderia ser a mesma que ele sempre amara. Não era o imperativo que o deixava com receio, mas sim, a mudança que se fazia na personalidade dela. Chegava a hora de ele cumprir o seu destino como guerreiro-deus. ‘Só mais um pouco, minha princesa. E eu irei salvá-la...’ Era o pensamento que agora o dominava.

 

 

            “Siegfried, agora é tido como um grande herói em nossa terra.”

            O rapaz riu baixo, e se ajeitou melhor na cama, tomando o cuidado para não forçar seus ferimentos:

            “É como se todos os meus machucados perdessem o valor nesta fama que o povo me oferece.”

            Hilda negou lentamente, sentada na poltrona ao lado da cama:

            “Está enganado, Siegfried. Eles o saúdam pelo esforço que você fez para nos proteger. Definitivamente, merece todos os créditos.”

            Siegfried virou o rosto para o lado, pensativo. Ainda não havia se acostumado com a idéia de ser considerado um herói de Asgard, mesmo que um de seus maiores sonhos fosse ganhar o título de guerreiro-deus. Desde que se aproximara de Hilda, seus objetivos pareciam estar se alterando pouco a pouco.

            “A senhorita Hilda sabe, que muito tem me ajudado durante o treinamento. Ser um guerreiro-deus envolve muito mais do que ostentar um título e ser aclamado pelo povo. Talvez um dia eu ainda possa ser um, mas isso realmente não me importa mais. Como a senhorita disse uma vez, existem muitas maneiras de ajudar Asgard. Meu nome pode ficar registrado na história como Siegfried, o homem que matou o terrível dragão, ou quem sabe o guerreiro-deus. Mas não importa mais.”

            Naquele momento, Hilda abriu um sorriso que contagiou a séria expressão de Siegfried e tocou sua mão em um gesto carinhoso:

            “É por esse motivo que terá o seu nome na história. E o tem, no meu coração...”

            Ela se levantou da cadeira e deitou-se ao lado de Siegfried na cama, tomando o cuidado para não tocar em seus ferimentos. Este, sem dizer nada, apenas a envolveu em um abraço gentil e silencioso. Não havia mais palavras a se trocar. Buscou os lábios de Hilda no desejo que não receava mais mostrar. Desde quando aquilo começara?

Não importava mais.

 

 

            Siegfried concretizara o salto para a morte. Chegara o momento de realizar uma ação digna de Asgard. Se com aquele esforço ele pudesse ajudar os cavaleiros, mesmo que um pouco, teria cumprido o seu papel, caso contrário, seu desespero eliminaria o que lhe restava de esperança. Sua armadura de Alfa para nada mais lhe serviria a não ser para aumentar suas chances de sucesso. Sua vida seria útil para uma última tentativa de salvar Hilda. Nada mais. Se pudesse ser assim, ele morreria com orgulho.

            Do ataque desesperado, Sorento não deixou de se defender. Usando o braço como uma lança afiada atravessou o peito de Siegfried com violência. Antes que sentisse a centelha de vida que lhe restava apagar, o guerreiro-deus prendeu firmemente o corpo do inimigo, invocando o poder de sua estrela Alfa. Ao custo de sua vida, levaria consigo Sorento, o servo de Poseidon, para que os cavaleiros de Athena pudessem quebrar o feitiço do deus dos mares sobre a Hilda e assim ela recuperasse a bondade.

            De toda Asgard, pessoas viram a estrela Alfa brilhar mais intensamente que as demais. A luz da estrela desceu à terra e levou um guerreiro-deus. Compreendendo o acontecimento, o povo de Asgard choramingou silenciosamente o desaparecimento do herói que vivera com honra a causa de Hilda. Sabiam que aquele nome não mais desapareceria da história de Asgard. O guerreiro-deus Siegfried da estrela Alfa.

            Nos últimos segundos de consciência, Siegfried pediu ao cavaleiro de Athena que cuidasse de Hilda. Era certo que ele antes fosse o seu inimigo, que fosse a primeira vez que o conhecia, mas era o suficiente para o compreender. A devoção que Pégaso tinha por sua deusa não era diferente da que ele tinha por Hilda. Rezou em silêncio pela felicidade de Hilda, antes que se entregasse definitivamente ao destino.

 

 

            “Hilda...”

            Fler abraçou sua irmã por trás, na fonte onde Hilda e Siegfried sempre conversavam, enquanto Hilda permanecia calada com os olhos inexpressivos.

            “Preciso ser forte, Fler... Ele o foi por mim e por Asgard, até o último momento. A partir de hoje, não posso mais fraquejar. Preciso ajudar os cavaleiros de Athena, já que eles nos salvaram. Preciso reparar os danos que causei ao povo de Asgard enquanto estava dominada por Poseidon. Não tenho tempo para fraquejar.”

            Fler sentia as lágrimas vindo aos seus olhos por Hilda. Sabia que ela e a irmã tinham perdido muito mais do que os guerreiros-deuses da constelação da Ursa Maior. Ela enfim havia percebido o quanto era feliz ao lado dos jovens que tanto treinavam para se tornarem guerreiros-deuses. Sabia que Siegfried não era menos importante para Hilda quanto Hagen era pra ela. E estava tudo acabado.

            “Anime-se, Fler. Hagen não gostaria de vê-la com um rosto tão triste. A luta dos cavaleiros de Athena contra Poseidon continua, e temos que ajudá-los de alguma maneira.”

            “Hilda...”

            “Mais um capítulo da história de Asgard se encerra aqui. Os nomes dos guerreiros-deuses ficarão marcados não por seus feitos surpreendentes, mas por seus corações que mantiveram este palácio cheio de calor humano, apesar do frio congelante de Asgard.”

            Hilda sorriu gentilmente para a irmã:

            “Vamos, Fler, talvez possamos achar algo na biblioteca que ajude os cavaleiros.”

            E seguiu por entre os corredores vazios do palácio, administrando com a força de vontade a dor que ainda pairava em Asgard. Fechou os olhos sem derramar nenhuma lágrima, pois esperava que ainda pudesse reencontrar aquele guerreiro algum dia. Não o guerreiro-deus de Alfa, que destruiu o terrível dragão que aterrorizava as terras de Asgard e se tornou praticamente invencível ao banhar-se em seu sangue; mas apenas Siegfried, aquele que havia desistido de tudo por amor a ela.

 

 

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.