O Conto do Jovem Nobre do Gelo
(Hyogen
no kikoshi)
"Você
não pode ver as lágrimas do meu coração? Elas se tornam mais brilhantes a
cada dia que passa..." (Diamond Dust - Make Up)
O
vento siberiano ia de encontro ao rosto do jovem que enfrentava o início de uma
nova tempestade. Protegido apenas pelo casaco de pele de urso, ele procurava
calmamente um lugar que pudesse se abrigar. O gelo que chegava a machucar a pele
de uma pessoa sem proteção não lhe fazia nenhum mal, mesmo que o casaco não
chegasse a cobri-lo totalmente.
Um
pequeno vulto se aproxima do jovem siberiano. Logo ele percebe que se tratava de
uma silhueta infantil. Era uma garotinha de cerca de 6 anos caminhando com
dificuldade e aparentemente perdida e ele decide socorrê-la. O jovem retira o
casaco ficando apenas com uma camisa sem mangas e a calça jeans preta,
envolvendo a pequena garotinha em seu calor e a toma em seus braços. Ele se põe
a caminhar para uma pequena aldeia situada nas redondezas.
"Você
está bem?"
"Sim.
Obrigada."
"Você
mora naquela aldeia do vale?"
A
garota afirma com a cabeça, ainda com frio. O rapaz percebe que ela já estava
com início de hipotermia e a abraça, aquecendo-a gentilmente.
"Qual
é o seu nome?"
"Yuliya."
"Yuliya,
levarei você até sua casa. Seus pais devem estar preocupados. Poderia me
indicar qual é?"
"Hu-hum..."
Ao
chegar na vila, Yuliya aponta para uma modesta cabana de madeira, entre as
poucas da aldeia. O jovem bate na porta e uma alta senhora de cabelos loiros
agita-se ao ver a garota.
"Yuliya,
graças a deus você está bem! Não deveria ter ficado lá fora por tanto
tempo! Poderia ter se machucado!"
A
mãe toma a garota nos braços e volta-se para o jovem, que esperava
tranquilamente.
"Deus
o abençoe por ter salvo a minha filha da nevasca. Já estava de saída para ir
buscá-la. Meu nome é Natalya. Nunca o vi antes por aqui, mas a tempestade lá
fora está muito forte e seria um prazer ter a sua companhia esta noite, já que
teve a bondade de nos ajudar.
O
jovem, sempre mantendo sua tranquilidade no ar, sorri.
"Não
foi nada. Meu nome é Hyoga e aceito seu gentil convite, estava mesmo me
dirigindo a esta vila para procurar um abrigo para a noite."
"Deve
estar com frio depois de andar numa nevasca sem agasalho desse jeito. Entre e se
aqueça. Sinta-se a vontade enquanto termino de preparar a janta"
"Muito
obrigado"
Hyoga
entra e põe-se a observar as poucas fotos na estante enquanto Natalya terminava
de cozinhar. A garotinha procurava se aquecer perto do fogo enrolada em um
cobertor. De repente, uma foto chama a atenção do rapaz.
Natalya,
percebendo o interesse do jovem na foto, pára por um instante.
"Essa
garota na foto é minha irmã mais nova. Nós fomos criadas juntas pelo nosso
pai depois que nossa mãe faleceu. Oh, desculpe-me, não quero chateá-lo com
essa história."
"Não
se preocupe."
Após
servir os pratos, Natalya sentou-se junto a mesa.
"Hyoga
é um nome bastante incomum. Por acaso você é estrangeiro?"
"Não,
sou siberiano mesmo. Nasci nessa região, embora já tenha morado no Japão.
Moro numa aldeia não muito distante daqui, a Kohotek. Estava voltando para lá
esta noite, quando a tempestade começou."
"De
fato, viajar com esse tempo é perigosíssimo. É melhor que você pare de
desafiar o gelo, meu jovem, já vi muitas almas desaparecerem nessa planície
siberiana."
Hyoga
responde com um sorriso amigável. De fato, o aconchego que ele recebe da terra
natal e dos amigos é sua família. Não importa que ele estivesse com
estranhos.
"Não
há com o que se preocupar. Já fiz essa viagem várias vezes e nunca me
aconteceu nada. Pra falar a verdade, o frio é mais meu aliado que inimigo de tão
acostumado que estou com ele."
Após
a janta, o frio aperta e Natalya põe a pequena Yuliya na cama, cobrindo-a de
todos os cuidados depois do incidente. Depois de colocar mais lenha na lareira,
ela prepara um chá e oferece ao hóspede. Hyoga agradece e ambos começam a
conversar animadamente.
"Então,
Hyoga, você disse já ter morado no Japão, não foi? Como foi?"
"Na
verdade, morei lá durante apenas um ano e alguns meses, mas constantemente
viajo para lá pra visitar meus amigos."
Natalya,
tomando um gole do chá, mostrava-se curiosa diante de um rapaz tão diferente
dos outros. Ela sentia que ele tinha algo de especial, mas não sabia dizer o
que era.
"Mas
seus pais não ligam que você viaje tanto assim? Afinal, um ticket daqui para o
Japão não é nada barato."
"O
dinheiro da passagem é fornecido por uma amiga minha, que é dona de uma
organização no Japão. Infelizmente não tenho pais que se preocupem por mim.
Perdi minha mãe quando tinha 7 anos de idade num naufrágio que foi perto
daqui."
"Sim,
eu já ouvi falar desse naufrágio, mas achava que não havia tido nenhuma vítima.
Me desculpe por tocar no assunto."
Hyoga
sorri.
"Não
mesmo. Não me importo em falar. Até algum tempo atrás isso importava sim, mas
agora..."
"Mas
agora você já superou. Mas e quanto ao seu pai?"
Por
um instante Hyoga hesita, mas mantém seu sorriso e tranquilidade.
"Meu
pai era japonês. Seu nome era Mitsumasa Kido. Ele deixou minha mãe um pouco
depois de engravidá-la e nunca mais apareceu. Mamãe trabalhava duro para
conseguir me dar uma infância digna sozinha. Ela me dizia que meu pai era um
homem muito interessante. Depois que ela faleceu, fui encaminhado para um
orfanato no Japão e lá fiquei durante um ano até voltar pra Sibéria
novamente."
Natalya
empalideceu-se rapidamente, mas logo depois se recompôs. Hyoga percebeu, mas
fingiu que não houve nada. Ela volta a sorrir, tentando disfarçar sua
surpresa.
"É
uma infância dura para um jovem como você. Normalmente rapazes assim acabam
sendo jovens revoltados, mas não é o seu caso. Você sempre mantém essa
tranquilidade, coisa que admiro muito em você, Hyoga."
"É
que eu já passei pela minha fase de rebeldia há algum tempo. Minha vida agora
é somente seguir em frente."
"Entendo...
Está ficando tarde agora, acho melhor irmos dormir, não?"
Hyoga
afirma e Natalya recolhe as xícaras. Ela lhe oferece uma cama e cobertores e
ele curiosamente aceita apenas um, apesar de todo o frio. Ela lhe pergunta se não
sentiria frio e ele assegura-lhe que não. E ambos vão dormir.
Hyoga
acorda pela quinta vez. Ele não estava conseguindo dormir na madrugada daquela
noite, com tantos pensamentos que rodeavam a sua mente, e resolve sair para
tomar um pouco de ar. Ele encontra Natalya na varanda, mas não fica surpreso.
"Eu
não sabia que minha mãe tinha uma irmã."
Natalya
olha para o jovem siberiano, seus olhos vermelhos de tanto chorar.
"Por
que Natassia tinha que morrer naquele naufrágio? Eu não compreendo..."
"Mamãe
sacrificou-se por mim naquele acidente. Na verdade, ela foi a única vítima
fatal do naufrágio. Nós fomos os últimos a procurar pelos botes salva-vidas e
como só havia espaço para um de nós, ela cedeu seu lugar para mim. Agora seu
corpo descansa no fundo do mar da Sibéria."
Natalya
volta a chorar e esconde seu rosto nas palmas das mãos. Sem mudar a expressão,
Hyoga continua.
"Depois
do acidente, jurei que voltaria a vê-la novamente. Disseram-me que me mandariam
para o meu pai no Japão, que estaria me esperando no aeroporto, e quando
cheguei lá, o dono da mesma organização da minha amiga havia vindo me buscar.
Apesar disso, ele sempre me tratou como um órfão qualquer. Ele me propôs
entrar em um projeto no Japão que enviava diversas crianças a várias partes
do mundo para se tranformarem em cavaleiros protetores da deusa Athena e eu
aceitei. Talvez por destino acabei voltando pra cá."
"Aquele
desgraçado... Não soube nem mesmo cuidar de seus filhos..."
Subitamente,
Natalya se levanta, enxuga as lágrimas e volta-se para Hyoga.
"Hyoga,
poderia me mostrar o local do navio agora, por favor?"
"Claro."
Natalya
pede a um dos vizinhos que tomasse conta de Yuliya, e depois parte com Hyoga em
direção ao navio. Já estava amanhecendo quando eles chegaram até o local do
navio. Hyoga mantendo uma expressão séria, não deixava de zelar por ela.
"Quer
que eu a deixe sozinha por algum tempo?"
"Sim,
por favor."
Hyoga
parte para Kohotek, que ficava a não mais de 30 minutos de caminhada de lá.
Natalya permaneceu lá, imóvel, sem poder acreditar na dura realidade. A irmã
tão querida estava no fundo do mar, no escuro, em decomposição.
"Foi
tudo culpa dele. Se ele não tivesse aparecido, isso jamais teria acontecido.
Ela estaria conosco e seu filho não teria sofrido tanto assim. Mas ele nem
sequer existiria se não fosse por Ele. Além de abandonar Natassia, Kido não
pagou pelo sofrimento que causou a ela..."
Hyoga
esperou até o quase o fim do dia. Quando ele retornou ao local, encontrou
Natalya no mesmo lugar, sentada na mesma posição, encolhida com o frio. Seu
rosto estava pálido com a luz da verdade e ela não queria deixar o navio.
"Natalya,
venha. Já está esfriando e não é bom que fique aqui fora. Vamos para a minha
casa em Kohotek, Yuliya ficará bem."
"NÃO!!"
Natalya
se livra da mão que tentava gentilmente levantá-la.
"Não...
Não posso deixar Natassia aqui. Não posso..."
"Minha
mãe não está aqui de verdade. Apenas seu corpo. Ela não está mais entre nós,
não há nada que possamos fazer a não ser rezar..."
"É
dessa maneira que você encara a morte de sua mãe? É dessa maneira?! Não vai
conseguir me tirar daqui, Hyoga, jamais!!"
Hyoga
agacha-se e seu braço esquerdo a envolve. Seu braço direito terminava em um
punho, pronto para o golpe.
"Perdão..."
Natalya
não percebeu quando Hyoga a golpeou, fazendo-a perder os sentidos em seus braços.
Ele a leva para sua cabana em Kohotek e a coloca na cama, cobrindo-a com
cuidado. Ele coloca mais lenha na lareira, procurando manter o ambiente o mais
quente possível.
"Perdoe-me,
Natalya, mas eu precisava fazer isso. Sei como é duro perder alguém que
amamos, mas você precisa entender..."
Natalya
acorda no dia seguinte e procura por Hyoga no quarto, inutilmente. Na lareira,
os restos de lenha que não queimaram na noite passada. Ao seu lado, um vaso
cheio de rosas vermelhas, as preferidas de Natassia. Silenciosamente, as lágrimas
vasavam, sem limites. Enxugando-as, Natalya se levanta e volta para o local do
navio, mas seus olhos se espantam ao se deparar com o gelo.
Um
enorme rombo na grossa camada de gelo separava Natalya da água. Ao lado, um
cobertor de pele de urso.
"Não
pode ser, ele não teria feito..!"
Natalya
não sabia se devia chamar por alguém ou se devia esperar pelo sobrinho. Ninguém
podia sobreviver tanto tempo embaixo d´água, ainda mais com aquela
temperatura. Nos próximos minutos ela tentaria enxergar através da água
escura a sombra dele, em vão. Até que Hyoga surge à tona, tossindo.
"Hyoga!"
Hyoga
escala com dificuldade a camada de gelo até alcançar o cobertor e procura
recuperar o fôlego perdido no mergulho. Natalya, desesperada, mal acreditava na
loucura que ele acabara de cometer.
"Hyoga!
Você está louco, por que fez isso? Podia ter morrido!"
"Sim,
podia. O navio não costumava ficar tão no fundo como agora. Mas o que eu não
podia era não levar uma rosa em seu nome para a mamãe depois de tanto tempo
sem vê-la..."
Naquele
momento, o sangue de Natalya congelou. Que espécie de homem era aquele?
"Natalya,
entendo perfeitamente como se sente. Também me senti assim depois do naufrágio.
Mas você precisa entender... Venha, vamos voltar. Lembre-se de que Yuliya está
esperando."
Ambos
voltaram em silêncio para a vila. Natalya não parava de pensar quem era Hyoga.
Capaz de arriscar a vida pra tentá-la fazer se sentir melhor. Mesmo assim, a
perda de Natassia ainda sangrava-lhe na alma. Por quê?
Quando
eles chegaram na vila, viram-na invadida de bárbaros. Os moradores estavam
todos juntos cercados por uma meia dúzia de guerreiros ameaçando-os com lanças.
Eles percebem a chegada dos dois e ficam em alerta.
"Hyoga..!
Yul..."
"Shh..."
Hyoga
toma a frente, protegendo Natalya e encarando o líder dos bárbaros. Este se
aproxima, num gesto ofensivo. Yuliya percebe que eles estavam lá não pôde se
conter.
"Mamãe!"
Um
dos bárbaros a agarra e a ameça com uma faca. Natalya se desespera e Hyoga a
segura.
O
líder pede pra que o bárbaro se aproximasse dele e volta-se ao Hyoga, que não
muda a expressão séria e sem medo.
"Quero
que solte essa menina e o resto da aldeia."
"Eu
recuso. Se der um passo a mais, ela morre."
"Eu
imploro."
"Quem
implora?"
"Hyoga,
cavaleiro de Cisne e discípulo do Cavaleiro de Ouro Camus de Aquário."
O
bárbaro sorri com a descrição, mas fica mais em alerta.
"Foi
você que venceu Alexei, chefe dos Blue Warriors?"
Hyoga
afirma com um gesto com a cabeça.
"Neste
caso, gostaria de testar a sua força. Se puder me vencer num duelo, devolverei
a criança e a aldeia, se perder, morrerá com todos eles, de acordo?"
"Sim."
"Amanhã
quando o sol nascer voltaremos aqui pra decidir isso. Até lá, aproveite os últimos
momentos de sua vida!"
O
líder acende um poderoso cosmos e constrói uma prisão de gelo envolvendo os
moradores da aldeia. Com o poder psíquico, ele a levanta e a leva embora. Com a
partida dos bárbaros, Natalya cai ajoelhada na neve, desolada.
"Yuliya..."
"Não
se preocupe, vamos recuperá-la."
Natalya
olha para o siberiano. Até mesmo naquele momento, ele não se deixou abalar.
Experiência ou coragem?
A
noite, Natalya não podia dormir. Hyoga ainda estava acordado, sentado na
poltrona ao lado da lareira. Seu olhar era distante e misterioso.
"Ele
veio num inverno tão frio quanto este, da mesma maneira como você, procurando
abrigo. Papai lhe cedeu uma cama. Dizia que estava viajando pra adquirir
cultura, era um homem rico e sábio do Japão. Natassia se interessou por ele
desde o primeiro momento que o viu. Logo no dia seguinte os dois desapareceram.
Só voltaram no outro dia. Papai repreendeu Natassia, mas não adiantou. Mais
tarde percebemos que ela poderia estar grávida. Papai se opôs radicalmente aos
dois ficarem juntos, e expulsou Mitsumasa de casa. Natassia sabia que ele jamais
aceitaria um filho do mesmo sangue que o viajante e fugiu de casa apenas para
criar o filho longe dele. Depois disso, meu pai acabou falecendo com uma
epidemia e um mês depois, Mitsumasa voltou procurando Natassia. Só sei que
quando lhe disse que ela havia fugido, ele não insistiu em procurá-la depois
de partir..."
Hyoga
escutava tudo em silêncio. Ele jamais imaginaria que essa história poderia
existir por trás de sua mãe. Ele também jamais imaginaria que pudessem
existir parentes vivos dele. Ele decide pensar em tudo isso mais tarde e se
levanta.
"Bem,
está ficando tarde. É melhor eu descansar para a luta de amanhã."
Natalya
observa Hyoga dirigir-se à cama, sentido que tudo o que havia dito havia sido
ignorado. Mesmo descobrindo essa verdade, Hyoga continuava calmo.
O
dia amanheceu e lá os bárbaros chegaram, o líder coberto de um espírito
combativo, esperava impaciente a aparição do oponente.
"Cavaleiro
de Athena, apareça logo!"
Hyoga
se dirige à porta.
"Bem,
chegou a hora. Fique aqui."
"Mas
Hyoga..."
"Eu
disse pra ficar aqui."
Hyoga
sai da cabana vestindo sua armadura e assume postura de luta.
"Estou
pronto! Venha!"
"Não
sabia que o pupilo de Camus era tão covarde."
"Como
é que é?"
"Olhe
para mim, Hyoga. Vê alguma armadura? Tornemos essa luta justa. Retire logo essa
armadura e mostre de verdade o que o seu cosmo é capaz de fazer!"
Hyoga,
sem baixar a defesa, retira a armadura. Os moradores da aldeia que lá foram
trazidos na prisão pelo poder telecinético do bárbaro preocupam-se.
"Assim
está melhor, Hyoga!!"
O
líder avança sobre o cavaleiro, num golpe direto. Hyoga escorrega no gelo,
esquivando o soco e contra-atacando com um chute no estômago do adversário. O
bárbaro utiliza seu poder psíquico, levantando Hyoga no ar e atirando-o no chão
com força.
Natalya
assistia a tudo da janela e pergunta-se se o garoto conseguiria vencer tal
poder. Mesmo ele sendo um jovem tão forte, era impossível resistir a um poder
desses por tanto tempo.
Hyoga
se levanta sem grandes dificuldades, apesar de estar um pouco machucado. Ele
acende o cosmos e avança sobre o bárbaro.
"Pó
de Diamante!"
O
bárbaro pára o ataque no ar com a mente e volta a controlar o corpo de Hyoga,
dessa vez o imobilizando.
"Está
surpreso com o meu poder, garoto? Mas é isso mesmo, você não tem a menor
chance de me vencer."
O
líder acende o cosmos e lança um poderoso ataque de gelo sobre Hyoga de perto,
congelando-o. Deixando-o de lado num esquife de gelo, ele se aproxima de Yuliya
com um sorriso nos lábios.
"Você
será a primeira a morrer. está pronta?"
Natalya
abandona a cabana e corre em direção à filha.
"Nããããoooo!!
Deixe a minha filha em paz!!"
O
líder dá um forte tapa em Natalya, que cai no gelo ao lado da filha.
Nesse
momento, o bloco de gelo que envolvia Hyoga explode e ele, exausto, cai
ajoelhado, recuperando o fôlego. O bárbaro se mostra surpreso no começo, mas
logo abre um sorriso.
"Então
é verdade. Você é capaz de quebrar um esquife de gelo por dentro. É
realmente surpreendente, Hyoga, você é de fato muito forte."
Hyoga
não responde, apenas se levanta e assume postura de batalha.
"Vamos
ver se depois desse esforço você é capaz de me enfrentar, Hyoga!"
O
bárbaro lança vários ataques de cosmo e Hyoga de início consegue se
defender, mas depois ele acaba sendo vencido pela chuva de golpes e cai,
perdendo a consciência.
"Acabou."
"Hyoga,
não!!"
Natalya
se coloca entre o bárbaro e Yuliya, protegendo-a.
"Saia
do meu caminho, mulher. Você e todas as pessoas dessa aldeia já eram. Essa
vida na tundra siberiana não traz alegria nenhuma, apenas dores. Portanto esqueça
dela."
Natalya
não saia do caminho.
"Não
vou. Você pode me matar, mas vou proteger minha filha até o fim."
"Certo,
então... Morra!"
Nesse
momento Hyoga, num esforço desesperado, lança um golpe por trás, derrubando o
bárbaro e no mesmo instante une suas mãos sobre a cabeça com os braços
esticados.
"Execução
Aurora!"
O
bárbaro tenta interromper o ataque com o poder psíquico combinado com o gelo,
mas não consegue. Seu corpo é arrastado pelo ataque de Hyoga até 50 metros
atrás e cai, sem vida. Hyoga desmaia na sua frente, sem forças.
Hyoga
abre os olhos. Ele percebe que estava na casa de Natalya, deitado na cama. Uma
toalha molhada estava sobre a sua testa e o pensamento de que ele podia estar
inconsciente há dias o preocupa. Natalya aparece na sua frente e acaricia sua
cabeça.
"A
febre já passou, Hyoga..."
A
delicadeza com que ela lhe falava, os gestos, fez com que ele sentisse uma ponta
de amor materno. Naquele momento ele lembrou o quanto sentia falta desse
carinho.
"Graças
a você, todos da aldeia estão a salvo. Estamos devendo a você, principalmente
eu. Minha alma está cicatrizada, Hyoga. Finalmente endendi o que queria dizer.
Ainda existem pessoas importantes que devo cuidar. Mesmo sem Natassia por perto,
devo continuar vivendo. É um raciocínio simples, mas na prática é difícil.
Deve ter sido difícil pra você também."
"É,
mas meus amigos me ensinaram isso. Eles sempre estarão do meu lado, por mais
pesado que seja o fardo que eu carregue. E você também. Sei como é difícil
perder sua irmã e aceitar que tudo isso tenha vindo de Mitsumasa, mas lembre-se
que Yuliya ainda precisa de você..."
"Sim.
Obrigada, Hyoga."
"Me
diga, quanto tempo estive inconsciente?"
"Dois
dias."
"O
quê? Me desculpe por preocupá-la nesse meio tempo."
Natalya
nega.
"Não.
Vi quando você lutou como é forte. Sabia que mais cedo ou mais tarde
acordaria."
Hyoga
sorri. Ele se lembra de quando sua mãe o incentivou durante a sua luta contra
Camus. Ela confiava nele. Assim como Natalya.
Hyoga
coloca a caixa da armadura nas costas. Com todos os seus machucados curados, ele
decide voltar para Kohotek.
"Não
quer mesmo ficar conosco, Hyoga?"
"Não,
obrigado. Meu lugar é em Kohotek. Como pode ver, Natalya, minha vida é por si
bastante arriscada. É a melhor escolha."
"Sim,
você tem razão. Adeus, Hyoga. E tome cuidado."
"Não
se preocupe. Adeus!"
De
volta a sua casa a noite, Hyoga torna a pensar no passado de sua mãe. Ela foi
obrigada a enfrentar vários problemas para conseguir criá-lo, mas sua força
é mesmo admirável. Será que tudo valeu a pena? Abandonar a família,
sacrificar-se no naufrágio, sendo que o filho se tornaria um guerreiro a
derramar o sangue de tanta gente... Mas então Hyoga se lembrou da gratidão de
Natalya e de toda a aldeia por tê-los salvo e viu que de fato sua mãe não
havia se sacrificado em vão. Ela devia estar muito orgulhosa dele por ser o que
ele é. Ele decide então partir para o Japão assim que puder para visitar os
amigos.
*FIM*
Obs:
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