Preparações
de um Quadro
Eirika desceu de seu cavalo branco e o guiou pelas rédeas até uma árvore. Amarrou-o e seguiu a pé até o epitáfio de pedra onde estava lapidado ‘Em memória de Lyon, príncipe de Grado e vítima da War of the Stones.’ As ruínas em volta indicavam que uma guerra ocorrera naquele campo e os tapetes verdes diziam que a terra queimada renascera, para que o mundo continuasse girando.
Fazia um ano após o término da War of the Stones e era aniversário da morte de Lyon. O continente ainda se recuperava dos estragos deixados pelo exército gradiano, assim como os corações das pessoas. Eirika deixou de sorrir no dia em que a guerra estourara. Mas sua alegria não voltou após o final.
Um segundo cavalo, desta vez marrom, foi amarrado na mesma árvore. A sombra e a grama proporcionavam-lhe um espaço agradável para pastar. O cavaleiro era Forde, que desde o final da guerra foi designado para ser o protetor da princesa. A amizade que surgira no campo de batalha foi transferida à vida palaciana e às suas obrigações.
“Uau, este lugar está irreconhecível. Nem parece que lutamos neste mesmo campo há um ano atrás.”
“Meu irmão fez questão de transformar este lugar em um memorial ao Lyon. Para que as pessoas não se lembrem dele como um homem cruel, mas como alguém que também sofreu com a guerra.”
“Algumas pessoas ainda guardam rancores contra o reino de Grado, princesa. É compreensível, depois da destruição das terras de Renais pelas tropas de Grado. Muitos não querem aceitar que a paz tenha voltado.”
Um buquê de flores foi depositado ao pé da lápide de Lyon, Em algum lugar em sua alma, Eirika ainda ressentia pelo final de seu amigo, que não pôde ser salvo. Se ele estivesse vivo, seria o governador de Grado e os laços de amizade entre os dois reinos estariam mais fortalecidos que nunca. Ela não conseguia se conformar.
“Quando será que nossos reinos poderão viver amigavelmente de novo...?”
“Os filhos das pessoas que viram esta guerra crescerão na paz. Tenho certeza de que a relação de amizade entre Renais e Grado voltará depois disso. Como esta grama. Vê? Ela cresceu e agora apaga aos poucos os vestígios de guerra. Logo crianças correrão por estes campos, acreditando que eles são sagrados.”
Um casal de pássaros pousou sobre a lápide e Forde imediatamente tirou seu caderno de esboços da sacola para desenhar. Permanecer como cavaleiro de Eirika era ideal, pois a princesa permitia que ele pintasse quando quisesse.
“O que está desenhando, Forde?”
“Oh, não é nada. Só achei que aqueles pássaros dariam uma ótima pintura.”
“Posso ver?”
“Mas é claro! Fique à vontade, princesa.”
O desenho de Forde retratava o túmulo de Lyon com os pássaros enamorados em cima. A luz filtrada pelas árvores era representada pelos diferentes tons de cinza. Era como se Lyon estivesse ali, vivo e em paz.
“Forde, mas isso é muito bom! Posso até sentir a mesma vida que este campo possui em seu desenho. Lyon costumava ser tão calmo e gentil que tenho a impressão de que ele ainda vive aí.”
“Obrigado, princesa. Mas não é grande coisa, não mesmo. Ainda preciso melhorar muito.”
“Mas você coloca tanta emoção em seu desenho... Parece perfeito para mim. Lyon ficaria muito feliz se conhecesse o seu talento.”
“...Perfeito, princesa Eirika, fique assim.”
“O quê?”
“Há um tempo atrás, você me pediu para pintar um retrato seu, não é mesmo? É com esse sorriso que quero pintar seu retrato, princesa. Diga-me, já que viemos todo o caminho até aqui, por que não tiramos um dia de folga para relaxarmos um pouco?”
“Algo me diz, Forde, que você só esta tentando arranjar uma desculpa para descansar.”
“Eu? Mas quem falou nisso? Só achei que seria uma boa idéia ver minha princesa relaxando um pouco.”
Eirika riu, sentindo-se mais leve. O desenho de Forde e suas palavras sempre a levavam para um mundo à parte, longe das atrocidades da guerra e das lembranças ruins que ele também presenciou. Quando a força dele a tocava, sentia que os antigos dias de paz com certeza retornariam.
“Ainda não conseguiu, Forde. Venha, vamos retornar ao palácio. Temos uma Renais para restaurar.”
Desamarrando seu cavalo, Eirika preparou-se para voltar. Forde demorou um pouco mais para terminar o desenho. Era seu estilo fazer as coisas com calma.
‘Só mais um pouco’, pensou, ‘e pintarei o seu melhor sorriso’.
Guardou seu caderno e, ajustando sua espada na cintura, seguiu a princesa, no caminho de volta para Renais.
*FIM*
Obs:
Fire Emblem pertence à Nintendo.