Rio de Pesares

 

 

Hyoga desceu do ônibus carregando sua tão maltratada mala de viagens. Olhou em volta: as pessoas passavam tranqüilamente, em um ritmo completamente diferente de Tóquio. Conhecia algumas pessoas de vista, mas não havia ninguém com quem pudesse conversar naquele momento. Quando chegava à vila mais próxima a Kohotek, sentia-se perdido, como se tivesse sido abandonado ali, no meio do nada. Nessas horas, dirigia-se à igreja da vila e esperava por Yacov em um dos bancos. Ficara tão habituado a deixar uma pequena doação à porta que o fez inconscientemente.

            Embora agisse como qualquer pessoa normal, não podia evitar a atração de olhares por onde andava. Por ser um cavaleiro de Athena, todos o reconheciam e reparavam, fazendo-o sentir-se uma aberração da natureza. Daquela vila, o único que não o estranhava era o padre da igreja.

            O velho aproximou-se em passos que arrastavam a idade e um sorriso acolhedor que o lembrava das missas que acompanhava com sua mãe.

            “Filho, não é a primeira vez que o vejo aqui.”

            “Padre. Só estou esperando um amigo vir me buscar para voltar para Kohotek.”

            “É o menino do trenó, não é mesmo? Ele sempre vem à missa com alguns moradores de lá. Antes ele vinha com um senhor bem idoso. Por um acaso você sabe o que aconteceu com ele?”

            “Era o avô dele. Faleceu há alguns meses.”

            “Ah, é uma pena. Ele vinha todas as semanas, apesar de ser tão longe. Mas filho... Eu nunca vi você em uma missa. Apesar de levar esse crucifixo no pescoço e de sempre deixar uma contribuição para nós, o que é muito gentil, claro.”

            Só então Hyoga percebeu que seu rosário estava à mostra e pensou em escondê-lo. Desistiu.

            “Eu nunca mais fui a uma missa depois que mama morreu. Quando comecei a treinar, passei a acreditar em outro deus. Em uma deusa, na verdade.”

            “Ah, mas você sabe que o Senhor é conhecido por vários nomes.”

            O rapaz sorriu, tentando esconder o sarcasmo que sentiu vontade de proferir. Não podia simplesmente dizer àquele padre que vivera o suficiente para saber que os deuses que existiam para ele eram bastante concretos.

            “Eu ainda rezo. Todos os dias.”

            A conversa foi interrompida com a chegada de Yacov, que parou de correr ao entrar.

            “Hyoga, desculpe a demora. Vamos?”

            “Claro.”

            O rapaz levantou-se e pegou sua mala.

            “Até breve, padre. Obrigado por me fazer companhia.”

            “Vão com Deus. E tomem cuidado com os bandidos de Grigory.”

            Hyoga parou e voltou-se ao padre, surpreso:

            “Bandidos de Grigory? Quem são esses?”

            Yacov foi quem respondeu, carregando em sua expressão a mesma preocupação que havia no rosto do padre.

            “É que você não estava aqui quando eles vieram. São homens horríveis, Hyoga! Parece que eles vieram de Stanovaya. Destruíram tudo que viram pela frente, roubaram de todas as lojas e casas! Grigory, o líder deles, é um homem terrível. Tenho medo de que eles apareçam em Kohotek também. Eles atacam uma vila de cada vez. Não voltarão para cá, mas...”

            O medo nos olhos de Yacov disse tudo: ele era mais do que desejado em Kohotek. Portanto disse, em um tom de ordem.

            “Vamos embora, Yacov. Já perdemos tempo demais aqui.”

 

 

            O clima em Kohotek era tenso, devido à aparente preocupação com os bandidos de Grigory. Já escurecia quando Yacov e Hyoga desatrelaram os cães.

            “Que bom que você voltou, Hyoga. Todos ficarão mais tranqüilos quando souberem.”

            “É. Só me arrependo de não ter voltado antes. Estou cansado, Yacov. Vou voltar pra casa por hoje e vejo você amanhã.”

            “Bom descanso, Hyoga!”

            Tomando o caminho para a cabana, Hyoga deixou que seus pés o guiassem mecanicamente. Embora a notícia dos bandidos de Grigory o preocupasse, o que o incomodava mais eram as palavras do padre da vila. Há muito tempo, Hyoga havia abandonado sua religião para ser um cavaleiro de Athena. Quando respondeu que rezava todos os dias, não explicara que rezava para a sua mãe e não para Deus.

            Ficaria sua mãe chateada por não seguir em sua crença? O que ela diria do fato de seu filho arriscar o pescoço sem questionar por uma deusa pagã? E do fato de um dia ele morrer no campo de batalha? ‘Será que ela sabe que deu à luz um homem que vive para matar?’ Era um pensamento que freqüentemente o atormentava.

            Quando chegou em sua cabana, jogou a mala sobre a cama em um completo descuido. O barulho causado pelo choque da mala com a parede revelou um gemido no canto do cômodo. Hyoga voltou-se e percebeu que uma garota, com no máximo doze anos de idade, o fitava assustada.

            “O que faz aqui? Quem é você?”

            “Eu... Eu estava me escondendo... Eles não estão aqui, não é? Os bandidos de Grigory...”

            “Não, eles não estão. Você não é de Kohotek.”

            “Me desculpe, eu... Eu estou indo.”

            A menina levantou-se com dificuldade e mancou na direção da porta. Seu pé direito estava inchado e ela praticamente apoiava todo o seu peso na perna esquerda.

            “Espere!”

            Ela parou, mas ainda segurava a maçaneta, com o coração na garganta e um olhar mais assustado do que quando ele chegou. Hyoga gesticulou pedindo para que se aproximasse e tirou do armário sua caixa de primeiros socorros.

            “Eu seria um monstro se a deixasse ir desse jeito. Isso parece sério. Venha, vou dar um jeito no seu machucado.”

            Ela voltou, meio receosa, e sentou-se na cama, deixando que Hyoga visse o ferimento. Este foi tão cuidadoso que ela quase não sentiu dor quando ele a descalçou. Mesmo assim, sentia que havia algo de perigoso naquele homem, que ele não era totalmente confiável. Embora o machucado a impedisse, queria sair dali naquele exato momento.

            “Provavelmente é só uma contusão. Mesmo assim, vou imobilizar. É melhor que fique um tempo até poder andar novamente.”

            “Obrigada, moço.”

            “Como se eu tivesse escolha... Eu sou Hyoga. Qual é o seu nome?”

            “Zlata.”

“Zlata. Agora me diga: o que uma menina como você está fazendo aqui em Kohotek e sem os seus pais?”

O silêncio conseguinte provou que ela não confiava nele o suficiente para dizer. Hyoga continuou a enfaixar a perna.

“Tudo bem se não quiser me contar. Mas seja o que for, terá que ficar aqui, pelo menos até que sua perna desinche. Sem falar que os rumores dos bandidos de Grigory tornaram essa região perigosa. Fique tranqüila, está segura comigo.”

Após terminar, guardou a caixa e pegou sua mala. Dela tirou um dos salgados que trazia toda vez que retornava do Japão e o entregou a Zlata.

“Se quiser mais, pegue da mala. Preciso dormir um pouco, mas, se precisar de algo, pode me acordar.”

Há dias Hyoga não dormia corretamente. A viagem de volta para Kohotek era conturbada, com estradas mal feitas e cheias de obstáculos que impediam o sono de qualquer pessoa. Os olhos pesavam e ele não demorou em esquecer-se do mundo.

 

 

Hyoga acordou em um sobressalto com os gritos dos aldeões. Viu que Zlata não se encontrava em nenhum lugar da cabana e saiu, afoito. Os bandidos de Grigory atacavam, destruindo casas e roubando pertences. Ele não esperou para ver, correu na direção dos mais próximos e derrubou-os com poucos golpes.

Viu Grigory, o líder, que comandava os ladrões. O ataque só era desorganizado na aparência, pois Grigory cobria cada região de Kohotek como um general de guerra. Quando viu que Hyoga corria em sua direção, retrocedeu seus homens e montou uma barreira para proteger-se. De nada serviu, diante da brutalidade com que Hyoga quebrou sua defesa e empurrou-o. A visão de Grigory ficou manchada com pontos negros quando sua nuca chocou-se contra a parede.

“Mande-os parar se não quiser morrer.”

Embora estivesse indefeso, Grigory sorriu e gritou para seus companheiros:

“O que estão fazendo parados, seus imbecis? Continuem!”

No segundo seguinte, um pesado soco em seu rosto atirou-o contra o chão, manchando a neve com respingos de sangue. Segurando-o pela gola do casaco, Hyoga continuou, com voz firme:

“Mande-os parar. Agora.”

“Esqueça, cretino.”

Desta vez não foi um só golpe. Hyoga surrou-o duramente, soco após soco, até que ele não conseguisse mais se levantar.

“Não vou repetir. Ou diz ou morre.”

Grigory sorriu novamente, exibindo o sangue que escorria de sua boca.

“Eu é que digo para você. Ou pára, ou ele morre.”

Um dos bandidos segurava uma lâmina no pescoço de um homem de Kohotek. Grigory riu, debochador, e soltou-se de Hyoga. Este, tão calmo como se nada tivesse acontecido, estendeu o braço direito na direção do capanga e lançou um rápido golpe de cosmos, que atingiu sua cabeça.

Imediatamente, o sorriso de Grigory desapareceu e, logo em seguida, o malfeitor recebeu outro soco de Hyoga. Novamente caiu e foi imobilizado no chão. O cosmos do cavaleiro brilhou em torno do punho, pronto para golpear seu inimigo.

“Última chance. Vai se render ou não?”

O brilho aumentou, o líder dos bandidos sentiu a temperatura em torno de seu corpo diminuir bruscamente. O punho estava a menos de meio metro de distância e ele finalmente se deu conta de que no próximo ataque não ficaria pouco machucado. Na face de Hyoga, não havia o menor rastro de complacência. A frieza que demonstrava era tão sólida que Grigory temeu pela primeira vez. Encarou-o durante alguns segundos, antes de ordenar:

“Parem o ataque! Vamos recuar!”

Os homens obedeceram e largaram os objetos roubados. Hyoga permitiu que Grigory se levantasse e fugisse com os demais. Particularmente, estava aliviado pelo bandido desistir de atacar, pois, por um momento, acreditou que ele não cederia.

Os moradores de Kohotek saíram um a um de seus esconderijos e começaram a limpar os estragos. Outros foram agradecer a Hyoga, que parecia ser o mais calmo da situação. Este notou que o bandido que nocauteara na cabeça fora abandonado pelos próprios colegas e correu em seu auxílio. Alguns moradores ajudaram-no, enquanto ele tentava estancar o ferimento.

Zlata surgiu entre as casas, utilizando um galho como bengala. Fazendo o possível para que Hyoga não a visse, seguiu na trilha que os bandidos tomaram na fuga. Um dos moradores que estava com Hyoga notou.

“Ei, menina! Não vá nessa direção! Os bandidos foram por aí!”

            Ao avistá-la,  Hyoga deu seu lugar a outro morador, pedindo para que ele continuasse a estancar o ferimento, e correu até Zlata, no zelo que se manifestava quase que naturalmente.

            “Zlata! Não vá, sua perna não está boa para ficar caminhando por aí. Além do mais, os bandidos de Grigory foram por aí.”

            A garota parou sem olhar para ele. Segurava o galho com as duas mãos e tremia, mas não de frio. Em seguida, ajoelhou-se e, soltando o improvisado apoio, pôs-se a chorar, escondendo o rosto com as mãos. Hyoga suspirou fundo e, vendo-se em um daqueles momentos em que teria de juntar toda a paciência, procurou tranqüilizá-la com gentileza.

            “Vamos, não fique assim. Quando estiver melhor, eu prometo que a ajudarei. Venha, você precisa descansar.”

            Ela deixou-se ser carregada, apesar de continuar aborrecida. Quando se certificou de que eles estavam suficientemente distantes dos moradores, murmurou:

            “Meu pai é um deles. Eu só queria que ele voltasse, só queria que ele parasse...”

            “Então você os estava procurando. Não estava se escondendo dos bandidos, mas dos aldeões.”

            “Sim... Mas meu pai... Se eu não for agora, nunca mais o alcançarei. Nunca mais... Por favor, deixe-me ir atrás deles...”

            “Não se preocupe. Quando melhorar, eu mesmo o encontrarei. Não desistirei até que ele volte com você, está bem assim?”

            Ouvindo passos, Hyoga virou-se e viu um dos moradores correndo em sua direção.

            “Hyoga! Você precisa voltar!”

            “O que houve, Martin?”

            “Aquele homem que você atacou... Rápido!”

            Sem discutir, Hyoga seguiu-o de volta, apenas para constatar que o homem que ele atingira na cabeça estava morto. Vendo os olhos abertos do homem sem vida, Zlata gritou e lutou para soltar-se dos braços de Hyoga, que percebeu a infelicidade da coincidência.

            “Pai! Pai! Me larga... Seu assassino, me larga!!”

            Hyoga soltou-a, sentindo o peso da palavra ‘assassino’ em sua consciência. Zlata desceu e chorou sobre o peito de seu pai, enquanto os moradores observavam calados, sem saber o que dizer. Após vários minutos, Hyoga tentou aproximar-se com a mesma gentileza.

            “Zlata...”

            A menina levantou-se subitamente, como se ele fosse uma ameaça. Mesmo com a perna ferida, afastou-se temerosa e arisca, enquanto os olhos molhados lançavam toda a sua fúria.

            “Não se aproxime... Você... Você matou o meu pai. Você é um assassino. Você finge que é bom, mas não passa de um assassino. Assassino! Vá embora!”

            Zlata deu meia volta e correu na direção oposta o mais rápido que sua contusão permitiu. Podia ser facilmente alcançada, mas Hyoga não foi atrás. Não conhecia a verdade quando matou seu pai, mas isso não tornava o coração menos pesado.

            Horas mais tarde, a preocupação levou-o a procurar pela menina. Vasculhou cada canto das coníferas, sem sucesso. Procurou no dia seguinte, e nada. Imaginava o que lhe diria se a encontrasse. Como poderia pedir perdão por ter tirado o pai de uma criança?

Mas não conseguiu encontrá-la.

           

 

As pessoas deixaram a igreja lentamente, em um murmúrio constante. O padre desceu do altar e juntou-se ao único que permanecera, na última fileira.

“Veio porque perguntei semana passada, filho?”

Hyoga não se voltou para ele, nem sequer prestara atenção na missa. Continuou com o olhar distante e o pensamento em outro lugar.

“Não, padre. Vim por causa de umas coisas que aconteceram semana passada.”

“Você... Quer conversar a respeito?”

Por um momento, Hyoga ponderou. Poderia contar todo o ocorrido e receber palavras reconfortantes, que pelo menos tentariam diminuir a sua culpa. Poderia recorrer à religião de sua mãe e esquecer, somente naquela vez, que era um cavaleiro de Athena a serviço da justiça. Mas e se ele não quisesse mais voltar? E se surgisse uma vontade de largar sua armadura e seu título? Era como se traísse o seu destino. Por fim, disse, desanimado:

“Não, obrigado, padre. Estou bem.”

“Qualquer coisa, estou à disposição.”

“Obrigado.”

O padre deixou-o em paz e Hyoga permaneceu imóvel e em silêncio. As palavras de Zlata machucaram-no tanto que não conseguia dormir direito desde o incidente. Elas tocaram-no exatamente na parte mais dolorosa. Com o rosário de sua mãe em uma das mãos, rendeu-se à tristeza e abaixou a cabeça. Só para esconder as lágrimas que molharam o chão da igreja.

 

 

*FIM*

 

 

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