Ritual do Passado
Quanto mais gelado, mais quente. Quanto mais fundo, mais perto. Se ele não podia respirar do ar, fazia-o das lágrimas. Se não podia falar, expressava-se por uma única flor. Nem mesmo os trezentos metros de água gelada impediam-no de mergulhar até o velho navio naufragado e visitar sua mãe.
Até a força do cotidiano falhou diante de seu desejo. O ritual mais sagrado entre todos, aquele que garantia a sobrevivência de sua alma, era tão poderoso que nem os meses e nem os anos conseguiram enfraquecê-lo com a repetição, dia após dia, flor após flor.
Naquele dia, no entanto, a vida o chamava. Hyoga não quis quebrar o gelo. Não quis mergulhar. Ficou de pé sobre a planície congelada, imóvel e em silêncio, por horas. Seu coração atirava-o para baixo enquanto sua vontade lutava para continuar naquela posição. Sentia que a vida na superfície era mais atraente que seu ritual diário. Sorriu e sentou-se no gelo, olhando fixamente para o ponto onde o navio se encontrava:
“Mama... Eu... Estou feliz.”
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