"Então?"

                O funcionário da fundação nega.

                "Nada. Ainda não conseguimos encontrá-la. É estranho, mas em toda a parte não há nenhuma pista de seu paradeiro. Não há mais o que fazer."

                "Continuem procurando. Não desistam."

                "Mas senhorita, se os computadores da fundação não conseguem encontrá-la, é quase certo que ela não esteja nem viva."

                "Enquanto não houver nenhuma prova de que ela esteja morta, não parem de procurar. Quero que espalhem agentes no mundo inteiro. Precisamos achá-la, custe o que custar. Nós não podemos perder a esperança de encontrar Seika."

                Saori se afasta da sala dos computadores.

 

 

                "Marin-san!"

                Eu me viro e vejo Seiya se aproximando correndo. Parece ter se recuperado muito rápido da batalha contra Poseidon. Achava que ele ainda estava no hospital, mas parece que ele não teve paciência o suficiente. Ele nunca vai mudar.

                "Seiya, o que está fazendo aqui no Santuário? Aconteceu alguma coisa?"

                Ele pára na minha frente recuperando o fôlego. Parecia bastante ancioso, como sempre, mas algo me dizia que havia alguma coisa diferente no ar.

                "Marin-san, acabei de chegar do Japão. Precisava falar com você."

                Enquanto procurávamos um lugar sossegado pra conversar, reparei que havia preocupação em seu olhar, embora ele tentasse se mostrar o mesmo Seiya alegre de sempre. O que deixaria Seiya tão preocupado a ponto de agir assim? Nós sentamos numa escadaria perto de uns pilares caídos. Aquele lugar já era um velho conhecido nosso. Desde pequeno nele Seiya aprendeu a controlar o seu cosmos e seus golpes sob o meu olhar.

                "Como estão os demais cavaleiros no Japão?"

                "Já estão bem. Ikki já desapareceu como sempre e os outros ainda estão no hospital. Eles já estão curados, mas os médicos insistem que eles devem ficar mais um pouco depois de nossa recuperação rápida."

                O sorriso de Seiya já não era mais o mesmo sincero e puro que conheci nos seis anos de treinamento. Com certeza alguma coisa o estava perturbando. De repente o rosto de Seiya mudou para uma expressão séria, revelando seu verdadeiro estado atual.

                "Marin-san, preciso lhe contar uma coisa muito importante. Lembra-se quando no primeiro dia do meu treinamento você me perguntou o que eu ia fazer com a armadura de Pégaso quando voltasse ao Japão?"

                Afirmei com a cabeça. Seiya hesita, abaixa a cabeça olhando para o pátio ao qual as escadas levavam. Senti que era a primeira vez que ele se dirigia a mim como uma pessoa realmente madura.

                "Na verdade, eu pretendia quebrar o código de honra dos cavaleiros. A armadura não era pra fazer justiça, e sim pra satisfazer meus desejos pessoais."

                "Que desejos?"

                "Quando fiquei órfão, tinha apenas 2 anos. Foi minha irmã mais velha, Seika, que cuidou de mim como se fosse uma mãe até o último momento que ficamos juntos. Nós morávamos num orfanato em Tóquio até então. Mas..."

                De repente o olhar de Seiya parou, como se visse sem ver. Sua mão formou um punho e ele voltou a falar.

                "Mitsumasa Kido nos separou, me forçando a vir pra cá, dizendo que se eu conseguisse voltar como cavaleiro, ele me permitiria voltar a ver minha irmã. Quando voltei, descobri que neesan tinha desaparecido no mesmo dia em que parti pra Grécia."

                Seiya olha triste pra mim. Era quase impossível vê-lo assim, mesmo sabendo que durante os anos de treinamento existia esse Seiya sem luz dentro dele.

                "Foi por isso que quis participar do Torneio Galáctico. Ele seria transmitido para o mundo todo e se neesan estivesse procurando por mim também, seria fácil me encontrar. Além disso, Saori-san me propôs usar os computadores da Fundação Grado para encontrá-la caso eu vencesse o torneio. Mas mesmo assim foi impossível encontrá-la..."

                Seiya abre um sorriso tímido, como eu jamais tinha visto.

                "Cheguei a pensar que você fosse minha irmã, de tão parecidas que vocês duas são, mas isso não poderia ser. Moses disse isso uma vez, e acabei ficando na dúvida."

                "Seria impossível sua irmã partir pra Grécia no mesmo dia em que você e se transformar na sua mestra, não?"

                "Isso mesmo."

                Seiya alcança o bolso de trás da calça jeans e tira uma foto, entregando-a a mim. Era uma garota também ruiva de cerca de 10 anos. Ela era realmente parecida comigo. Ao seu lado estava o pequeno Seiya, sorridente como sempre. Mas na foto ele parecia mais feliz do que o Seiya cavaleiro de Athena.

                "Moses deve ter se confundido. Na verdade eu também vim para a Grécia por motivos pessoais. Vim procurar pelo meu irmão mais novo, por isso ele achou que nós fôssemos irmãos."

                Seiya não escondeu sua surpresa.

                "Seu irmão? E você conseguiu encontrá-lo, Marin-san?"

                Nesse momento, as lembranças de Kenji vieram a mente. Vê-lo no Santuário foi a maior dor que pude enfrentar na minha vida até agora. Preferi não reponder e Seiya continou me olhando curioso.

                "Sua irmã deve tê-lo seguido, Seiya. Já procurou na cidade?"

                Seiya nega.

                "Não tive chance. Desde que me tornei cavaleiro, tudo que tenho feito é lutar. O tempo entre as lutas não passa de uma trégua que não me permite concentrar totalmente na busca."

                Seiya se levanta e caminha em direção às escadarias.

                "Não tenho certeza se ela ainda está viva ou não, mas não posso perder as esperanças. Não tê-la do meu lado é um vácuo no meu coração que carrego há mais de seis anos. Não imagina o quanto isso dói."

                Seiya pára e volta-se a mim com os olhos rasos d´água.

                "Sei que você não é minha irmã de sangue, Marin-san. Mas você nunca deixou de ser uma de coração para mim. Por favor, me ajude."

                Ele parte, descendo as escadas lentamente.

                Aiolia se aproxima de mim sem sua armadura.

                "Seiya? O que ele faz aqui?"

                "Veio falar comigo."

                Dava pra ver a curiosidade dele, mas não lhe disse nada.

                "Aiolia, estou saindo do Santuário por algum tempo."

                "O que vai fazer, Marin?"

                "Um favor."

                Com isso, desci as escadas em direção à cidade, determinada a encontrá-la de qualquer jeito.

   

 

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.