Silêncio,
Frio... e Vida
Silêncio.
Em sua volta, almas mortas. O rio dos mortos. No interior, o coração ainda
teimava em bater. Uma prova de que estaria vivo, uma fina melodia que restava.
Sentira
o sangue escorrer-lhe no braço? Sim, mas não era o do irmão. Ardia, mas não
significava absolutamente nada, assim como todos os outros ataques que sofrera
nesta horrenda batalha. Estava assustado demais para dar atenção a si mesmo.
Sabia que, em uma única fração de segundo, enquanto liberava seu mais alto
poder, sentiu que privaria sua visão àquele que jamais o abandonou.
Ele
crescera sempre em um inferno, em meio às chamas do ódio, da vingança e do
terror. E agora experimentava o inferno, literalmente, o frio que o paralisava,
o medo e a confusão: Cocito, o destino daqueles que conspiram e desrespeitam os
deuses. Ele estava ali por desafiar um deus. E que desafio! Ousou levantar a mão
contra um ser superior e agora haveria de pagar por seus atos em nome da...
Justiça? Acharia graça, se não estivesse desesperado. Um deus vê-se no
direito de arrancar o corpo e destruir a alma do único irmão de Ikki, aquele a
quem ele sempre protegeu e deu a vida. Seria aquele um exemplo de Justiça?
Um
fio de sangue chegou à boca e passeou nos lábios. Por um momento, ele achou
que aquelas gotas foram inúteis, dado o resultado de seu esforço. Sentia-se
fraco e amaldiçoado, mas não queria morrer. Não poderia deixar que
acontecesse novamente. No peito de irmão, sabia que Shun jamais se entregaria
até que cumprisse a missão. Ele ainda estava dentro de Hades, resistindo ao
seu poder, atrás de uma maneira para enfim se manifestar. Ikki ansiava por
resgatá-lo e manter a sua promessa de sempre protegê-lo. A chance estava ali,
era só pegar, queria, sabia que dava para se fazer algo mais. Lembrou-se das
palavras de Hyoga, nenhum sonho era impossível para um cavaleiro. Buscava em
sua angústia a força para mudar o destino, como uma vez acreditou, e tentou se
mover, inutilmente.
Destino?
Destino de Andrômeda. O sacrifício. Hades. A verdade era tão imprópria e
antiga que ele ainda não havia conseguido absorvê-la. Shun tentava se matar
para poder salvar todas as pessoas da Terra, inclusive o irmão, e dentro de seu
mórbido plano estaria o golpe de misericórdia de Ikki que acabaria com Hades e
ele. O sacrifício que estava determinado nas estrelas, desde que veio à luz.
Um golpe fatal coberto de lágrimas, que não pôde florescer por completo, pois
Ikki jamais aceitaria terminar ele mesmo com a vida de Shun. Contudo, de um
jeito ou de outro, falharia em sua promessa, quando se viu frente a frente com o
espírito do deus do Inferno. Mas que promessa era aquela, que conseguira
adquirir um sentido tão ambíguo em tão insignificante espaço de tempo? Seus
olhos estavam mudos. Seus pensamentos, dispersos, rodavam como se não pudessem
encontrar ao certo os devidos lugares...
“O
que houve, Shun? Parece estar chateado...”
“É
que eu estou me perguntando, niisan... Nesta época, as ondas do mar estão mais
fortes. São lindas quando explodem... Mas muitos já perderam suas vidas
nelas... Apesar de serem mortais, são belas, ou seja, pagamos sua beleza com o
perigo. Elas nunca deixam de exibir esplendor e de esconder morte.”
Ikki
atentou para o movimento da água, contínuo e agressivo:
“Como
nossas batalhas...”
“Exato.
Lutamos por um mundo belo onde reine a paz. Mas se tal beleza existe, será que
as nossas batalhas necessariamente existirão como as ondas? Saori nos disse que
um grande mal virá sobre a Terra, motivo pelo qual existem os cavaleiros de
Athena. Mas esse mal nunca foi eliminado e, portanto, os cavaleiros não
deixaram de existir. Eu me pergunto... Será que não é possível eliminar esse
mal por completo? Acabar com todos os nossos sofrimentos?”
Esse
era um assunto que incomodava Shun em período integral porque seus princípios
de pacificação, amizade e vida não permitiriam que fosse de nenhuma outra
forma. Enquanto ele sempre se enchia de inúmeras dúvidas, Ikki agarrava-se às
poucas certezas que possuía. Talvez esse fosse um dos motivos pelos quais os
dois irmãos sempre se deram bem, apesar de serem tão diferentes. Ikki gostava
de conversar com Shun, pois seu irmão perdia-se em questões que, na mente de
Ikki, encontravam uma resposta certa no mesmo segundo. Dessa forma, eles se
completavam: enquanto Shun ajudava-o a explorar mais profundamente assuntos
relacionados à vida, Ikki oferecia-lhe certezas e segurança.
“Bem,
é impossível dizer exatamente, Shun. Apenas procure o que acha ser certo e
acredite. Nós somos cavaleiros da esperança. O que seria de nós, sem a
esperança? O que seria da humanidade? A vida atual não é de todo mal, e me
sinto feliz em dizer isso.”
“Você
sempre enxerga as coisas com muita simplicidade, niisan. Acho que eu não teria
tantos problemas se fizesse isso.”
Ikki
emitiu uma leve risada:
“Quer
saber, Shun? Assim você não seria o meu irmão.”
O
mal. O mal era Hades. A Guerra Sagrada entre Athena e Hades desde os tempos da
mitologia chegou a esta era dos cavaleiros. E Shun, seguindo sempre os seus
princípios, deixou que Hades o dominasse para assim acabar de vez com todas
essas guerras. Ele queria eliminar para a sempre a ameaça desse deus para que,
dessa forma, as pessoas não mais sofressem, mesmo que tivesse que sacrificar a
própria vida.
Shun
nasceu sob a constelação de Andrômeda e, segundo uma antiga crença grega,
viveria regido por essas estrelas. O destino de Andrômeda na mitologia era ser
oferecida em sacrifício para o deus Poseidon para acalmar sua ira. O de Shun
era ser sacrificado para acalmar a ira de Hades e salvar os homens. E ele se
entregaria à morte de maneira dócil, contanto que tivesse a chance de salvar
todos os amigos, ato que exigiria uma grande quantidade de coragem.
Mas
a coragem faltou em Ikki, que machucou seu próprio braço para impedir o golpe
que se dirigia ao coração de Shun. Sim, o braço doía, mas o que importava?
Se não tivesse se detido no último instante, teria quebrado a sua promessa,
pois seria ele mesmo a pessoa que colocaria um fim à vida do irmão. Mas o
jeito como aconteceu também fora uma
quebra da promessa, pois Shun implorara-lhe para que o atacasse e matasse
Hades, e Ikki não pôde realizar sua vontade.
E
Ikki quis gritar. Quis liberar o ódio que tinha de si mesmo, que guardava desde
a morte de Esmeralda. Saiu mudo. Suspirou frustrado e com dificuldade. Seria seu
eterno destino não ter força suficiente para proteger as pessoas amadas? Agora
se encontrava perdido em dúvidas, como Shun sempre foi. E este estava naquele
momento mais determinado do que nunca a sacrificar a vida.
‘Maldição...
O que está fazendo, Shun? Não lhe ensinei a mudar o destino quando tivesse
vontade? Não lhe ensinei a lutar até o último momento como um homem? Maldição...”
Uma
lágrima escorreu no rosto inconformado. Ikki entregou-se ao frio de Cocito,
buscando a morte do cavaleiro de Fênix. A energia que ainda queimava em seu
corpo era absorvida pelo gelo com mais rapidez. A escuridão inundou sua mente e
ele apenas se deixou levar pela tristeza e a derrota.
‘Que
quente... É um cosmos... Ainda posso sentir e meu cosmos ainda pode reagir...
Então... Não morri.’
Ikki
abriu os olhos. Uma imagem pálida adquiriu nitidez e o rosto de Pandora foi
revelado. Seus olhos transmitiam preocupação, algo que Ikki jamais poderia
imaginar que aquela mulher tivesse.
“Pan...
Pandora?”
Ele
se sentou no chão com um pouco de dificuldade. Sentia como se tivesse acordado
de um pesadelo e não conseguisse assimilar os fatos com lógica.
“Você
está bem, Fênix?”
Desconfiado,
Ikki não quis mostrar sua fraqueza diante daquela que há pouco estava tentando
matar-lhe. Levantou-se com firmeza e vestiu-se da frieza costumeira, mas sem
tirar a preocupação pelo irmão da mente. Buscou a direção de Giudecca,
percorrendo os olhos no horizonte, e imediatamente começou a caminhar para lá.
“Espere,
Fênix! Não quero fazer-lhe nenhum mal!”
Ele
já havia percebido. Mas foi Pandora uma das responsáveis pelo sacrifício de
Shun, o que era um sacrilégio à visão de Ikki. Interrompeu seus passos, mas não
lhe dirigiu o olhar:
“O
que houve com o meu irmão?”
Pandora
hesitou nas palavras, mas acabou respondendo:
“Ele
ouviu o chamado de Athena e expulsou Hades de seu corpo. Está tentando chegar
à deusa.”
O
irmão sentiu naquele momento todos os seus medos e dúvidas abandonarem a
mente. Apreciou o alívio e lançou à Pandora um sorriso cínico:
“Eu
sabia.”
E
Ikki continuou em seu caminho, desta vez em passos mais firmes. Estava
determinado a se encontrar com o irmão caçula, que havia lhe pregado o maior
susto de toda a sua vida.
*FIM*
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