Só
Peço a Felicidade
Era uma e trinta e sete da manhã. Um silêncio mortal imperando no
hospital da Fundação Grado. A maioria das enfermeiras e médicos havia deixado
o local e rumado para as suas casas, onde seus maridos, mulheres e filhos
estariam esperando. Desta forma, nós, os pacientes, permanecemos neste branco
nas trevas da noite, em reflexões e o que mais poderia haver para nos distrair
neste pequeno mundo.
Havia o sono, é claro, que agora dominava meu companheiro de quarto, meu
niisan, que apoiava a nuca no encosto da poltrona ao lado de minha cama,
roncando baixo. Ele estava com alguns curativos sobre os ferimentos mais graves
e mostrava-se visualmente cansado, porém insistia em permanecer junto a mim.
Era teimoso, não aceitava conselhos de médicos, mas isso me deixava
parcialmente feliz. Era uma prova de que se preocupava comigo de verdade, apesar
de não ter ficado em uma situação mais confortável.
Se por um lado meu forte irmão estava dominado pelo sono, eu não
conseguia me entregar a este. Eu sabia que deveria estar dormindo, mas às vezes
o cansaço não permitia. Ainda estava muito confuso com os últimos
acontecimentos, e eles não paravam de me atormentar. Esses o Ikki niisan não
poderia expulsar de mim. Logo entendi que aquela seria uma noite das longas.
Estávamos nos recuperando da batalha de Hades, que com certeza foi a
pior de todas que enfrentamos até hoje. Tivemos até algumas boas notícias,
como a salvação de Seiya e o encontro com sua irmã desaparecida, Seika.
Voltamos todos cansados, feridos, na verdade quase mortos, principalmente Seiya,
com aquele grave ferimento causado pela espada de Hades em seu peito. Ele teve
de ser carregado pelo niisan pra que pudesse sair de Hades com vida. Mas foi
bom.
Devo dizer que a sensação de alívio quando encontramos todos bem no
Santuário foi fantástica. O mundo de Hades era sombrio, tétrico demais para
os seres humanos, mesmo para os cavaleiros de Athena. Poder descobrir que a
Terra não mais ficaria mergulhada na escuridão depois de tanto esforço era
gratificante. E Seiya, quando ouviu as palavras de Seika o chamando, chorou
feito uma criança.
Normalmente as pessoas me vêem como um bebê chorão que só consegue
agir através dos sentimentos. De certa forma isso é verdade, mas naquela hora
eu não liguei para o que dissessem. Seiya era o meu melhor amigo e aquele era o
dia mais feliz de sua vida. E de que maneira um amigo poderia melhor expressar
sua alegria a não ser por intermédio de lágrimas sinceras? Todos poderiam me
chamar de bebê chorão naquela hora. Era exatamente o que eu estava sendo.
Niisan não chorou neste momento, é claro, mas mostrou um raro sorriso.
Aquele mesmo sorriso que exibia quando começamos a lutar juntos. E eu pude
compreender perfeitamente. Tanto eu como niisan sabíamos desde pequenos o
significado do amor entre irmãos. Ambos tínhamos consciência do desespero de
Seiya e de Seika, da dor da separação e do tempo. Sabíamos a aflição de não
ter notícias de uma pessoa querida por anos. E mesmo que niisan não
demonstrasse seus sentimentos tão claramente como eu, certamente estava tão
feliz quanto.
Quando vivíamos separados, buscávamos outras formas de consolação e
de coragem, mas a verdade é que não conseguíamos nunca viver em paz. Tínhamos
medo, incertezas e quando estávamos sozinhos, só podíamos pensar em quanto a
vida era desgraçada. Era um inferno. E até aquele dia, Seiya devia ter sentido
o mesmo, apesar de ter sempre sido um amigo otimista e esperançoso.
Mas aquilo não era exatamente o que poderíamos chamar de felicidade,
era? A vida sempre me pareceu muitas vezes como uma veste que você troca nos
momentos oportunos, de acordo com cada situação apresentada. Momentos para ser
feliz, momentos para ficar com raiva e outros para ficar triste. Dentro de toda
essa mistura de sentimentos, o que poderíamos chamar de bom ou de ruim?
Se nós, os cavaleiros de bronze, não tivéssemos sofrido tanto nas últimas
batalhas, não teríamos tais laços de amizade, teríamos? Com certeza não.
Fora um beneficio trazido da guerra que nos acercou nos últimos anos e nos fez
derramar litros de sangue, gritar de dor e chorar rios... O que teria sido
melhor para nós...?
Não posso dizer, no entanto, que estou arrependido da escolha que fiz.
Apesar de ter me aproximado perigosamente da morte freqüentemente nos últimos
anos, a vida de um cavaleiro de Athena traz muitas gratificações não
materiais. Pudemos acompanhar de perto aonde a violência e a fraternidade podem
chegar em momentos extremos e como nós reagimos às mais diferentes situações
do campo de batalha.
Quando a batalha de Hades eclodiu, Athena nos deu a chance de vivermos
como jovens comuns, e esse desejo era compartilhado com os cavaleiros de ouro
que combatemos nas Doze Casas. Saori deixara a mansão Kido e a fundação aos
meus cuidados, porém não sabia que esta decisão era permanente. Saori
pretendia morrer em Hades e nos poupar do sofrimento de mais uma guerra. Mal
sabia ela que nossa intromissão já era inevitável.
Nosso começo foi como óleo e água, não havia como nos darmos bem. Os
cavaleiros de bronze não tinham nenhum interesse em proteger uma garota
orgulhosa que jamais se preocupara conosco. Porém a guerra mudou a ela também
e percebemos que estávamos não apenas protegendo uma deusa, como também uma
boa amiga. Formamos todos o grupo que Aioros uma vez previra então. Desde
aquele momento, senti que não haveria mais volta.
A volta que Saori criara era apenas material. Nenhum dos cavaleiros de
bronze poderia aceitar deixar tantos amigos correrem o perigo de vida depois de
passarem por momentos tão delicados juntos. Nossos amigos cavaleiros de ouro,
que arriscaram as vidas pra poderem restaurar nossas armaduras e tanto nos
ensinaram estavam correndo sérios perigos. Como poderíamos nós fingir que
nada aconteceu e iniciarmos uma vida mundana, sendo que pessoas com as quais nos
importávamos estavam em apuros? Não era certo.
Hades não fora em hipótese alguma um caminho para a felicidade.
Presenciar literalmente o inferno chocou-me a tal ponto que, sentado na cama do
hospital, ainda não pude me livrar de seu cenário mórbido e horrível.
Pessoas vagavam na escuridão, gemendo e sofrendo, sem possuírem a chance de
descansarem na eternidade de Hades. Pessoas inocentes eram julgadas
erroneamente, sendo condenadas aos mais perversos castigos.
Se tivéssemos escolhido o outro caminho, provavelmente estaríamos
descansando, vivendo como rapazes normais, estudando, trabalhando e namorando.
Mas não há felicidade de um só. Entre tantas pessoas que vivem felizes,
carregadas pela sutileza do cotidiano, órfãos como um dia fomos continuavam
vagando no desespero e guerreiros como nós continuavam a derramar sangue e dor.
Talvez fosse um sonho vão lutar pela paz definitiva, mas eu simplesmente não
poderia aceitar isso.
Iniciei com niisan e meus amigos uma luta em busca dessa paz. Uma luta
que parecia ser eterna, sem fim e, muitas vezes, inútil. E que era a nossa única
esperança. A última esperança para alcançarmos a paz, que muitas vezes
serviu como um fio que sustentava nossa sanidade. E valeu a pena? O que eu
estava fazendo ali, todo machucado e deprimido?
Descobri-me do lençol e decidi que um pouco de ar ajudaria a colocar
meus pensamentos em ordem. Tomei cuidado para não acordar o niisan e esgueirei
à janela. Abri com cuidado, mas senti uma dor aguda no abdômen. Por um segundo
até pensei que fosse despertar o niisan, mas por sorte pude sair sem grandes
problemas. Havia um imenso jardim, coberto de árvores, arbustos e caminhos,
onde alguns pacientes gostavam de permanecer durante o dia. A dor piorou com a
queda e não pude evitar a perda de minhas forças. Ia ajoelhar na grama, quando
fui detido pelos braços de um amigo: Seiya.
As fugas de Seiya do orfanato eram muito conhecidas entre nós quando éramos
pequenos. Todos os funcionários eram levados à loucura pelo endiabrado garoto
que não conseguia ficar quieto em um lugar. E essa era uma característica de
Seiya que jamais se perdeu no tempo, levando a transformar a escola em hospital
e trazendo dores de cabeça às enfermeiras e aos médicos.
“Você está bem, Shun? Não deveria sair de seu quarto num estado como
este.”
Ele me ajudou a levantar da grama apoiando meu braço em torno de seu
pescoço sem fraquejar. Achei engraçado. Não seria ele quem deveria estar mais
machucado e fraco?
“Eu é que digo. Como está o corte, Seiya? Você ainda não se
recuperou dele e já começou a fugir do hospital como se fosse um presidiário...”
Seiya riu e bateu levemente sobre o local do ferimento, mostrando que não
sentia mais dores. Percebi que a recuperação dele ia bem mais depressa do que
o de costume.
“Não tem com o que se preocupar, Shun. É como eu já disse: eu sei
melhor do que ninguém se estou bem ou não! Mas não sei se posso dizer o mesmo
de você, amigo.”
Tentei sorrir, mas a dor de meu estômago não diminuíra e acabou saindo
uma espécie de mistura dos dois em minha expressão. Sabia que ele estava
preocupado comigo e não queria que o ficasse.
“Vem, eu te ajudo até o quarto...”
Afastei-me um pouco dele, rejeitando a ajuda. Afinal, não valeria a pena
ter pulado ferido do segundo andar para subir de novo logo em seguida. Meus
pensamentos se misturavam com as memórias da batalha, do Ikki niisan me
atacando, dos cavaleiros de ouro morrendo e não tinha a menor vontade de voltar
para a depressão pálida do quarto do hospital.
“Tudo bem, obrigado, Seiya... Mas eu gostaria de ficar um pouco mais
aqui...”
Sentei na grama, ali mesmo onde tinha caído e puxei pra dentro dos pulmões
o ar leve que tanto queria experimentar e deixei escapar um longo suspiro. Era
bom poder mudar um pouco de ambiente e naquele momento senti o quanto as fugas
de Seiya do hospital, que às vezes chegavam a ser até um tanto dramáticas,
eram agradáveis.
Seiya se aproximou novamente, com um ar preocupado:
“Shun, o que há de errado...?”
Eu deveria dizer a ele ou não? Seiya esteve andando tão feliz ao lado
de Seika e acabou até mesmo se recuperando mais rápido do que nós, apesar de
seu estado ter sido mais delicado, que não queria trazer-lhe nenhuma preocupação.
“Se não quiser falar, não precisa, amigo. Não posso forçá-lo...”
“Tudo bem, Seiya... Estou bem, só precisava tomar um pouco de ar...
Como vai a Seika?”
Acho que tanto Seiya quanto eu sabíamos que aquilo era uma mentira.
Mesmo que agora ele já tivesse sido tomado pela preocupação comigo, queria
deixar a razão de minha tristeza uma incógnita. Mas eu sabia que ele sabia.
Seiya me conhecia bem demais pra não ter percebido que eu ainda estava tomado
pelas imagens da guerra. A quem eu estava querendo enganar? Seiya, contudo, como
bom companheiro que sempre foi, educadamente deixou passar.
“Ela vai bem. Quase não parece que sofreu de amnésia esses anos
todos. Lembra-se de todos os detalhes como se tudo tivesse acontecido
ontem...”
“Que ótimo, Seiya... Estou tão feliz por vocês... Acho que agora a
tendência é melhorar, estamos todos torcendo pra que os deuses desistam de nós.”
“É o que a Saori está planejando...”
Meus sentidos estalaram ao ouvirem o comentário. O que ele quis dizer
com ‘planejar’? Desde a batalha de Poseidon, Saori tem tentado fazer de tudo
para nos livrar das batalhas, e aquela com certeza era outra de suas tentativas.
“Ela está querendo nos poupar de novo se algo acontecer?”
“Exatamente. Ela me disse ontem à tarde. Não quer mais que
arrisquemos as nossas vidas por ela. Mas nós somos cavaleiros de Athena...”
“E o que você pensa em fazer?”
“Continuar, é claro. Sem os cavaleiros de ouro, o Santuário está
isento de uma proteção mais eficaz. Agora não somos mais cavaleiros de
bronze, mas sim cavaleiros-deuses. E essa dádiva não poderia ter acontecido
sem os sacrifícios de nossos amigos. Não posso desmerecê-los, não é
verdade? E você, Shun?”
“O que posso fazer a não ser continuar, não é, Seiya?”
Seiya deitou-se na grama ao meu lado, apoiando a nuca nos dois braços
cruzados. Olhou para o céu estrelado e entrecortado pelos galhos das árvores.
“Shun... Eu sei o quanto detesta as lutas... Não vou culpá-lo se por
acaso desejar viver em paz. Pra dizer a verdade, esse é mais um desejo meu,
como amigo... Deu tanto por nós, já...”
“Está dizendo isso por causa de Hades, Seiya?”
“Também... Mas sua vida inteira é um inferno... Acha que não
sabemos?”
Eu sabia. E estava sendo um tolo tentando esconder aquele fato de todos.
E aquela enganação haveria de continuar como estava, haveria de continuar
reprimida em mim até o túmulo.
“Eu sei, Seiya... Todos sabemos as mesmas coisas... É por isso que não
há necessidade de dizer o porquê de querer continuar lutando por Athena como
um cavaleiro. Minha felicidade é a de vocês, é a de todo o mundo. Portanto
hei de continuar vivendo. Não se preocupe, pois já não penso mais em me
sacrificar. Foi a primeira vez que vi niisan chorar desde que me lembro. E será
a última.”
Seiya sorriu e calou-se. Dentre tantas tristezas e violências, era difícil
saber qual era exatamente o caminho que nos levaria à paz e à felicidade. Acho
que ele devia ter pleno conhecimento dos meus sentimentos para com minha vida e,
por sua amizade, mergulhou comigo nos mesmo pensamentos. Aquele sim era um amigo
de verdade. Um amigo que não poderia ir sozinho para o campo de batalha.
“Ahá! Finalmente eu te encontrei, Seiya! Já são mais de duas da
madrugada e você passeando como se fosse de dia...”
Viramos para trás e percebemos Seika aproximar-se rapidamente. Seiya se
levantou e olhou para a irmã, sorrindo meio sem jeito:
“Ah, neesan... O que tem de errado em sairmos um pouco pra respirarmos?
Está muito quente lá dentro! O Shun e eu não agüentamos ficar deitados nas
camas feito pedras!”
“Vocês garotos não tem jeito mesmo! É que nem quando estávamos no
orfanato, era só dar as costas que vocês desapareciam! Seiya, você ainda está
machucado, precisa voltar para dentro!”
“Não podemos ficar nem mais um pouco, neesan? Está tão bom
aqui...”
“Está bem, mas não é pra abusar, hein?”
“Ah, obrigado, Seika neesan!”
Naquele momento, não consegui deixar de reparar na transformação de
Seiya de um rapaz sério para um irmãozinho brincalhão. Fora algo tão
repentino que Seika mal devia ter percebido que o assunto discutido antes de sua
chegada não era nem um pouco alegre. A sempre alegria repentina de Seiya, por
sair do fundo do coração, conseguia disfarçar seus maiores medos e dúvidas.
Aquela era a legítima maneira ‘Seiya’ de enfrentar as incertezas da
vida. Ele sofria, mas escondia sua dor com alegria. Não, esta, na verdade,
consumia a dor. E assim ele conseguia transmitir uma tranqüilidade tão grande
quanto sua bondade. Era felicidade genuína. Em tempos tão tortuosos como
aquele, em que jovens órfãos eram atirados na guerra e experimentavam o pior
lado da vida, alternando entre o campo de batalha e os hospitais com muitas
cicatrizes, senti que todos os esforços foram válidos.
Seiya, carregado da mesma inocência infantil, ria mostrando à irmã as
constelações dos cavaleiros no céu. Seika acompanhava o irmão contente,
desfrutando daquele momento que tanto lhe fizera falta em mais de sete anos.
Permaneci sentado onde estava, contemplando um momento entre os momentos, com
meu corpo inteiro dolorido, mas em paz. Observei a janela de meu quarto por onde
sai. Meu niisan estava lá, descansando de um enorme pesadelo. Sorri.
Naquela noite, não vi guerras, não vi lágrimas, não vi tristeza. Vi
um jardim coberto de verde, sob estrelas que transmitiam apenas esperança. Vi
sorrisos, sonhos, objetivos e vida. Vi um coração restabelecer sua vontade de
seguir em frente em companhia das pessoas que amava, sem medo de confiar em suas
crenças e vontade. Vi apenas humanos possuídos da coragem de tocar a
felicidade.
*FIM*
Obs:
Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.