Sorento
Já não me lembrava mais há quanto tempo saíra de casa. Dez anos? Nove
anos? O tempo simplesmente passava, e passando perdi a conta dos dias, dos
meses, dos anos. E era importante? O que é importante na contagem do tempo? Os
números, as noites ou os fatos? O fato era que meu passado já se encontrava tão
distante de mim que era difícil lembrar com clareza de todas as suas minúcias.
O
presente passara a ser o único presente em minha vida. A cama de palha onde
deitava era a única cama do mundo. As demais, a da minha antiga casa, a finíssima
do hotel cinco estrelas quando me apresentei pela última vez e a dura, imersa
em algum lugar no fundo do mar, não existiam mais. Esta cama de palha era a única,
pois era ela que me confortava agora, era ela que estava presente, que se fazia
importante neste momento de reflexão. E era ela o meu lar até o final da
semana.
Fazia um ano que iniciara a viagem pelo mundo, se bem me lembrava, e
sentia que andava fazendo isso desde o dia de meu nascimento. Cada lugar parecia
o mesmo, e mesmo assim trazia surpresas. Cada dia era uma mini-experiência que
constituía uma revolução na alma. E essa revolução era algo triste e
prazeroso ao mesmo tempo. Finalmente sentia que minha vida fazia sentido, depois
de dezessete anos.
Quando foi que tudo começou? Foi naquele dia, quando abandonei meus
pais, a escola e meus próprios sonhos. Um dia depois de me apresentar em um
teatro localizado em Atenas, na Grécia. Era conhecido como o “Flautista Prodígio”,
o menino de talento infinito. Tocara junto dos adultos, como se já fosse
profissional, seguindo cada nota com perfeição. Era como um sonho que se
realizava. Mas de certa forma, tudo parecia estranhamente vazio. A noite era mágica,
tão mágica quanto era a intensidade do brilho dos olhos da platéia,
impressionada com a maestria do garotinho austríaco de apenas dez anos de idade
sobre sua inseparável flauta. E mesmo assim, alguma coisa faltava em mim.
As pessoas diziam que eu havia nascido para a música, que era um dom
divino concedido por Deus, e que eu estava destinado ao sucesso e à felicidade.
E toda noite, quando chegava em casa e via meus pais brigarem, perguntava-me: o
que é felicidade? No meio da orquestra, a música praticamente me carregava
junto ao invés de ser eu quem a administrava. Era uma paz, a mente totalmente
preenchida de pureza sonora. Chegara a acreditar que a felicidade só podia
existir na música ao soprar aquele pedaço de cano e em mais nenhum lugar.
Naquela época, a idéia não era nem um pouco ridícula. Agora eu ria só
de pensar. Que felicidade havia naquela música? No exato momento em que ela
terminava e minhas mãos baixavam para afastar o instrumento de minha boca, a
paz terminava, as pessoas aplaudiam e alguma coisa ainda se fazia ausente em meu
coração. Eu não conseguia entender, por ser ainda uma criança, mas a verdade
é que aquele vazio nunca deixara de existir.
E como era agradável a leve sensação de felicidade que corria pelo meu
corpo agora! Até minhas notas pareciam sair com mais facilidade, com mais
sentimento, o que jamais acontecera em um teatro como aquele em que me
apresentara em Atenas. A riqueza deste quarto rústico era um luxo comparado com
a pobreza do quarto cinco estrelas. Era rico em sentimentos, sentimentos que eu
buscara em cada som emitido, em cada show apresentado, em cada aplauso formal.
Observei o teto da cabana, todo construído em madeira velha, roída com
o tempo. Em cada centímetro sentia a dor dos moradores da vila que lutaram para
construí-lo e me sentia honrado com a gentil oferta do abrigo. Era um quarto
simples que conseguia dar conforto ao mais sombrio canto da alma.
Algumas batidas então soaram baixo pelo outro lado da porta. A moleza do
corpo segurou meu ânimo e apenas respondi, sem sair do lugar:
“Entre.”
A luz tomou conta do quarto quando a porta foi aberta, revelando a
claridade de fim de tarde. Meu parceiro de viagem, Julian, entrou sem cerimônias:
“Ei, Sorento. Boas notícias. Já consegui acertar a doação para esta
vila e creio que tudo chegará em no máximo doze horas.”
“Doze horas só? Se for mesmo, será um recorde. Ninguém pode duvidar
que estamos ficando profissionais nisso, não?”
Havia no rosto de Julian uma euforia própria de adolescente por uma
conquista para se gabar por dias, como provavelmente o faria. Havia nessa
alegria um resquício de orgulho do milionário presidente da Corporação Solo,
que provavelmente jamais poderia ser reparado, e até tornava o nosso trabalho
mais prazeroso.
“E ainda vou querer quebrar esse recorde, espere pra ver, amigo.”
A formalidade que havia entre nós fora desaparecendo pouco a pouco
durante a viagem para dar lugar a uma amizade sólida. Embora Julian mantivesse
seu cavalheirismo diante das negociações nos arranjos das doações e na direção
de sua empresa, comigo sua máscara caia e ele voltava a ser um rapaz de
dezessete anos, me tratando como a um irmão de sangue.
“No ritmo em que estamos, não duvido.”
Apreciava o momento. Este parecia ser um daqueles dias em que tudo daria
certo, portanto não havia necessidade de ficar deitado ali, infinitamente.
Levantei-me da cama e me dirigi a um armário improvisado de madeira. Junto com
a bagagem, trazia em uma pequena maleta um acessório ‘roubado’ do fundo do
mar, de quando me encontrava desiludido com tudo e com todos. A flauta que
continha o encanto da música das sereias.
“Posso não ter talento para negócios, mas foi como eu disse há um
ano atrás: tenho certeza de que posso ajudar.”
Saí da cabana lentamente, soprando o instrumento, de início baixinho,
aumentando o volume gradualmente. Naquela vila, não havia um palco, cadeiras, e
nem uma acústica boa. Mas havia algo que buscara em todas as minhas apresentações
e lutas. Havia uma fascinação diferente nas pessoas da vila. Era como se as
emoções das pessoas se tornassem transparentes ao soar as harmonias. Muitas
estavam ouvindo o som de uma flauta pela primeira vez. E se era a primeira vez
desses moradores sofridos, que direito tinha eu de não dar o melhor de mim?
E as notas me carregavam novamente em sua pureza, tornando-me um só com
a melodia. A paz me inundava e eu estava feliz. Estava feliz porque quando a música
acabava, a felicidade permanecia. Sorria sozinho, como jamais o fizera antes da
viagem, tinha prazer em repetir e repetir o mesmo espetáculo nesta vila e na
outra. Em cada uma tocava a mesma música e ainda assim não era como fazer
apresentações em teatros.
Julian observava-me à distância, contente. Ele não era nenhum músico,
não conseguira dominar perfeitamente a flauta depois de algumas instruções
minhas. Zombava dele, dizendo que ele era tão bom na flauta quanto eu era nas
negociações. Mas a verdade é que sem ele, muitos dos rostos para os quais me
apresentava na viagem estariam vazios. O dinheiro de Julian trazia novas esperanças
às vilas e aos órfãos que encontrávamos no caminho e minha música, um pouco
de alegria. Formávamos, assim, um time infalível. Ou assim imaginávamos. Em
toda vila que íamos, conseguíamos ajudar a todas as pessoas, sem exceção.
Era inevitável em algum momento pensar que tudo daria certo.
Tinha acabado de tocar mais uma música, quando uma senhora comentou
emocionada:
“Ah, meu jovem! Se ao menos Stacia, minha filha, pudesse ouvir sua
flauta...!”
Os olhos da mulher brilhavam em uma mistura de encantamento e tristeza
que era muito comum ver nas pessoas carentes e pobres que visitávamos.
“Se estiver presente, terei o maior prazer de tocar para ela. Onde está?”
“Está em casa. Não pode mais se levantar da cama por sua doença.
Mas...”
“Onde a senhora mora?”
“Bem ali, rapaz, mas...”
Não havia mais necessidade para palavras. Caminhei direto para lá, a
fim de fazer valer minha música. Julian juntou-se a mim, animado para ouvir
mais uma vez a minha flauta. Ele dizia que podia ouvir aquela música
eternamente e ainda assim não enjoaria. Dessa forma, ele estava sempre presente
quando ia me apresentar, e reclamava quando não o acompanhava nas negociações
por tédio.
Na cabana de um cômodo só, vi uma jovem com aproximadamente a mesma
idade que nós na cama. Era magra, não de fome, mas de falta de músculos. A
dificuldade de respiração era visível, e dava até um certo medo de que ela
parasse de inspirar ar nos próximos segundos. Aproximei-me e sentei em uma
cadeira ao seu lado:
“Olá. Meu nome é Sorento e tenho uma coisa para lhe mostrar, Stacia”
A moça não respondeu, apenas me observou intensamente, os olhos
arregalados e atentos. Presumi que era devido à sua doença e levei a flauta à
boca, emitindo a música. Mas os olhos da jovem permaneceram os mesmos, sem
deixarem resplandecer nenhuma emoção. Nisso, a senhora entrou na casa, afoita:
“Não adianta tocar, meu jovem! Stacia não tem mais a audição!”
Interrompi a melodia, atônito. Pela primeira vez minha música não
fizera nenhuma diferença. Julian também se encontrava chocado. Ambos acreditávamos
que podíamos trazer um pouco de alegria para qualquer pessoa, mas lá estava
uma garota que não podia ser conquistada pela flauta. A mãe de Stacia
aproximou-se e comentou tristemente:
“Em breve seu coração não terá mais forças para bater. E terá paz
no outro mundo. Aprecio sua boa vontade, filho, mas não há mais nada que
possamos fazer por ela.”
Confesso
que, por alguns momentos, não consegui pensar em nada diante da situação.
Apenas me deixei guiar por Julian até a nossa cabana, de onde não saí mais.
Stacia tinha a visão, mas permanecia condenada à imagem do teto da casa, não
podia ouvir nada, e nem mesmo expressar seus sentimentos. Julian até tentou me
animar, mas a verdade é que eu estava indignado em não poder arranjar nenhuma
maneira de fazer valer os momentos tediosos da jovem.
De
repente uma luz invadiu a confusão da mente. Como eu era idiota! Havia uma
maneira de trazer alegria à jovem! Jurara que jamais faria aquilo novamente
depois de abandonar o fundo do mar, mas era uma promessa que valia a pena ser
quebrada. Saí da cabana e me dirigi à casa de Stacia. A mãe me recebeu mais
triste ainda do que à tarde.
“Eu
quero tentar mais uma vez, senhora.”
“É
muito bonito, jovem, mas eu repito: não vai adiantar...”
Sentei-me
novamente no banco ao lado da garota, cuja única movimentação era das pupilas
nos olhos, arregalados. Aproximando a flauta dos lábios, preparei para entoar a
primeira nota. Mas antes, busquei dentro de mim a raiz de minha alma. A energia
que todo ser humano carregava dentro de si, mas eram poucos os que conseguiam
despertar. O cosmos. Capaz de realizar os mais impossíveis milagres,
transcendeu meu corpo e iluminou a cabana.
A
música então surgiu. Para uma pessoa normal, não havia nenhuma diferença,
era como se estivesse tocando como sempre. Mas havia acrescentado algo de
especial naquelas notas. Stacia arregalou ainda mais os olhos e se esforçou
para olhar em minha direção. Sorri-lhe. Ela estava conseguindo ouvir a flauta.
Tentou pronunciar algo, sem sucesso. Depois continuou a prestar atenção na
melodia e um sorriso débil surgiu-lhe nos lábios.
“Stacia!
Ela está sorrindo! Como conseguiu, meu jovem?”
Não
respondi. Continuei a tocar, mais feliz do que nunca. Pela primeira vez na minha
vida, senti que valera a pena ter aprendido aquela técnica. Uma técnica
utilizada para a morte. A música podia destruir o cérebro do meu inimigo em
segundos, um golpe que aprendera quando fora um general marina, um guerreiro
protetor do deus Poseidon. Utilizara-a em muitas ocasiões, matara muitos homens
daquela forma, desiludido com a podridão humana. Mas eu podia controlar minha música.
Se quisesse, podia torná-la agradável também, como fazia agora para Stacia.
Julian,
ao ouvir a flauta, veio correndo. Aproximou-se de nós encantado, como uma criança
que visse um conto de fadas se realizar. Ao terminar a melodia, ele perguntou
ansioso:
“Como
conseguiu fazer isso, Sorento? Como fez ela ouvir?”
‘Minha
música chega diretamente ao cérebro’, foi o que quase respondi na hora. Mas
então me lembrei de algo que os irmãos Ikki e Shun, dois ex-inimigos meus que
me ajudaram a tomar a decisão de voltar a acreditar na humanidade, advertiram:
já estavam cansados de ouvirem minha explicação de como minha música
independia do sentido da audição. Ri para mim mesmo, e respondi:
“Minha
música chega diretamente ao coração. Ouvidos são acessórios descartáveis.”
E
me pus a tocar novamente, utilizando meu cosmos para levar a música a Stacia.
Nenhuma das pessoas presentes podia saber como eu estava fazendo aquilo, nem
mesmo Julian, que me vira fazê-lo inúmeras vezes no fundo do mar. Suas memórias
passadas no templo de Poseidon foram apagadas, segundo a vontade do deus dos
mares. Ele apenas acordara depois de viver no fundo do mar sem nenhuma lembrança
da vida marinha. Ele costumava ser a reencarnação de Poseidon e eu, seu
guerreiro. Mas agora ele era apenas Julian Solo, o presidente da Corporação
Solo e meu amigo. Eu ainda era fiel a Poseidon, e o protegia secretamente como
Sorento, o estudante de música.
A
música continuava, simplesmente não conseguia mais parar. Os olhos de Stacia
então se umedeceram, até derramarem uma fina gota de lágrima. A mãe ficou
igualmente emocionada e tentava abafar os soluços com as duas mãos. E a música
firme, cheia de paz e energia. Ela, que tantas vezes foi repetida por aquela
flauta e tantos homens torturara. Agora parecia soar como uma bênção para a
pobre garota.
Toquei
e toquei, todos os dias até o final da semana, quando Julian e eu partiríamos
para a próxima vila. Antes de partir, toquei uma última vez para Stacia.
Naquele momento senti vontade de não sair mais daquele lugar, tão grande era o
prazer de tocar para a menina. Stacia não tinha forças para expressar seus
sentimentos, o que era desnecessário. Bastava seu sorriso débil e os olhos
atentos para saber. Mesmo uma pessoa normal, como todas aquelas que estavam no
teatro em Atenas naquela noite, jamais poderia demonstrar tanta emoção quando
Stacia. Ao terminar a última nota, ainda utilizei meu cosmos para mais uma
coisa. Segurei de leve a mão ossuda da jovem e passei a falar-lhe suavemente.
“Esta
foi a última música, Stacia. Hoje terei de partir para fazer outras pessoas
como você felizes. Saiba que meu maior presente foi poder tocar para você. Até
breve...”
Senti
sua mão apertar a minha levemente, e o aperto foi transferido ao coração.
Levantei-me e fui me encontrar com Julian, que aguardava pacientemente na saída
da vila.
“É
uma pena sair agora, não é, Sorento?”
“Não
para a próxima vila. Vamos andando?”
De
início, os passos foram tímidos. Mas logo reganhei a confiança, levando
comigo uma paz e felicidade infinitas. Não sabia direito onde iria parar com
aquela vida. Sabia apenas que não existiam mais a reencarnação de Poseidon,
nem a flauta da sinfonia final da morte, nem o “Flautista Prodígio” e nem
mesmo o general marina. Havia apenas o ex-milionário Julian, uma flauta e o
estudante de música Sorento.
*FIM*
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