Sound
Life
Shun
caminhava distraidamente pela rua em direção ao mercado. O que June havia
pedido para que ele comprasse? Arroz e Shoyu. Que ironia... June tinha força o
suficiente pra destruir as mais rígidas pedras da ilha de Andrômeda, mas o médico
havia dito que deveria poupar esforços. Shun jamais se importava em se
encarregar do trabalho mais pesado.
Fazia
dois anos que eles tinham partido para uma nova vida juntos, assim como também
fazia dois anos que ele não envergava a armadura de Andrômeda novamente. Dessa
forma, era inevitável pensar que a paz tinha finalmente chegado à sua vida e
que ele poderia viver normalmente. Mais ou menos. Apesar de Shun nunca mais ter
vestido a armadura desde a batalha de Zeus, ele deixou bem claro à Athena que
decidira não abandonar o cargo de cavaleiro e continuava treinando com afinco
todos os dias, pronto para empunhar as correntes novamente e lutar pela justiça.
Esse
fato continuava seguindo o cavaleiro de Andrômeda como um fantasma. Haveria
sempre algum momento do dia em que Shun imaginaria se aquela paz não ia acabar
algum dia. Mas logo ele se recomporia ao presente e continuaria como um simples
cidadão da cidade de Tóquio, trabalhando e voltando para casa cotidianamente.
Era
sábado. Tendo mais tempo livre, ele aproveitou para treinar e ajudar June no
que precisasse. Seu cosmos continuava tão forte quanto antes. O que significava
que o mundo ainda precisava dele. Mas naquele momento, tudo que ele queria era
aproveitar o agradável clima para sentir o calor humano mais próximo. As
pessoas cruzavam seu caminho, algumas apressadas e vestidas formalmente, outras
com roupa de passeio andavam acompanhadas e conversando, ou sozinhas, caminhando
com leveza.
“AAAHHH!!!”
O
grito rasgara os ares e fez Shun se voltar para trás. Um homem empunhando um
canivete ameaçava atacar uma senhora que passava no momento e toma-lhe a bolsa
fazendo-a cair no chão, arrancando em retirada logo depois.
O
mundo ainda não estava totalmente em paz e era por isso que Shun jamais
desistiria de ser um guerreiro. Ele passa a frente do ladrão e opõe-se em seu
caminho. Quando o ladrão estava prestes a desvia-lo, Shun agarra-lhe o braço,
impedindo-o de continuar.
“Ei,
cara, me largue!”
Ele
tenta passar-lhe o canivete na cintura, mas Shun esquiva-se facilmente, sem
largar-lhe o braço.
“Isso
não é correto. Como foi capaz de atacar uma senhora indefesa?”
“Não
é da sua conta!! Desgruda!!”
O
ladrão tentava desesperado soltar o braço, que já doía com a força do
cavaleiro. Ele olha para Shun, que permanecia tranqüilo e sério, sem
dirigir-lhe o olhar. Sem muitas opções tenta com o canivete diversos golpes,
sem sucesso. Com a outra mão, Shun segura-lhe o punho e, girando-o, o faz
soltar a pequena arma. Depois sua própria mão forma um punho e um golpe
calculado, fazendo o ladrão perder os sentidos.
As
pessoas que passavam na hora pararam e olharam e, logicamente, ficaram
assustadas com a curta luta e a destreza do jovem que detera o trombadinha. Logo
uma pequena multidão formou-se em torno de Shun. Este, ignorando a presença e
comentários de todos, se dirigiu para a senhora ainda caída no chão, atônita
com a cena.
Ele
gentilmente a ajuda a se levantar com o preocupado olhar e ao mesmo tempo
inocente, como haveria de ser sempre o olhar do Shun que todos conhecem.
“Sumimasen.”
A
senhora olhou para o rapaz, que lhe devolveu a bolsa e agora parecia mais tranqüilo
do que há alguns momentos atrás. Seus olhos brilharam e ela segurou-lhe
levemente o braço.
“Eu
gostaria de lhe agradecer...”
Shun
sorri levemente, aliviado por vê-la bem.
“Não
é preciso agradecer. Não faço nada além da minha obrigação.”
“Eu
insisto, por favor... Venha até a minha casa.”
Shun
estava prestes a dizer ‘mas, a minha esposa...’ quando desistiu. Ele tinha
bastante tempo e June não iria se preocupar se não sentisse nenhum cosmos ameaçador
por perto. Portanto, ele de bom grado acompanhou-a até a sua pequena residência,
que não ficava a mais de duas quadras do mercado.
No
modesto ambiente, a senhora ofereceu um chá ao visitante, que educadamente
aceitou. Ao lado oposto da pequena mesa ela sentou e pôs-se a observá-lo
atentamente.
“Você
tem um cosmos bem poderoso.”
Shun
assustou-se com o comentário. Aparentemente aquela senhora não seria mais que
uma pessoa comum, ignorante de todas as batalhas que os cavaleiros de Athena
travavam. Shun hesita um pouco antes de perguntar.
“Quem..
quem é a senhora?”
“Saber
quem sou eu não importa. Mas sim, você.”
Shun
ficou intrigado com as palavras, mas a deixou continuar.
“Você
não é aquele rapazinho Shun que participou do Torneio Galáctico há alguns
anos, aquele que vestia a armadura com as correntes?”
Shun
assentiu em silêncio. O Torneio Galáctico ainda estava na memória das pessoas
normais, mas como é que ela sabia sobre o cosmos? Ela calmamente solveu um gole
do chá, e depois apontou sutilmente para a aliança no anelar de Shun.
“Você
cresceu bastante depois daquele episódio. E vejo que agora desistiu da vida de
defensor de Athena.”
Agora
Shun ficou mais intrigado. Ela falava dos cavaleiros de Athena como se fosse a
coisa mais natural do mundo.
“Não
desisti.” Desta vez Shun respondeu firmemente. “Ser um cavaleiro de Athena
é meu destino e dever. Estou pronto para entregar a minha liberdade à
Athena.”
Ela
ergueu as sobrancelhas com a resposta. Sentiu uma ponta de alegria com ela.
Definitivamente, aquele não era um simples cavaleiro.
“Tem
certeza? Será que está mesmo?”
Shun
sentiu-se um pouco irritado com a insistência. O medo de perder todo o mundo de
paz que agora ele estava construindo sempre o assombrava, e tocar nesse assunto
o deixava com melancolia durante algum tempo até que voltasse para os braços
de June. Seu olhar tornou-se levemente hostil, embora ele tivesse tentado
evita-lo.
Ela
sorri.
“Você
tem. Caso contrário não teria lançado esse olhar.”
“Por
favor, me diga quem é você...”
“Durante
a sua vida toda você esteve lutando por um mundo onde todos os homens vivessem
em paz. Mas por que continua se sabe que a maldade instala-se no coração de
todos os homens?”
Para
Shun, não agradou nem um pouco o fato de sua pergunta ter sido ignorada. Mas as
perguntas que saiam da boca dessa senhora exigiam respostas.
“Já
vi dezenas de homens que foram dominados por suas maldades derramarem lágrimas.
Eu sei que essa é uma batalha eterna, onde os meios são sangue, lágrimas e
sofrimento. Enquanto eu puder fazer alguma coisa, nem que seja por uma pessoa,
continuarei.”
“Mesmo
sabendo que isso o levará a despertar a sua própria maldade?”
“Sou
forte o suficiente para controla-la.”
“É
mesmo?”
Shun
não pôde evitar lançar um outro olhar hostil, e isso o irritava
profundamente.
A
senhora resolve acalmar o jovem um pouco e abre um leve sorriso, pegando a
garrafa de chá.
“Aceita
mais um?”
Shun
continuava com a expressão séria.
“Não,
obrigado. Estou satisfeito.”
A
senhora coloca mais chá em seu copo.
“Sabia
que conheci Mitsumasa Kido?”
“Foi
através dele que você descobriu sobre os cavaleiros de Athena?”
“Não.
Através de vocês.”
Apesar
de Shun ter se tranqüilizado um pouco por ela ter começado a falar dela mesma,
ainda continuava intrigado com as respostas.
“Como
assim?”
“Você
entenderá mais tarde.”
E
com o mesmo sorriso, olhou esperançosamente.
“E
como tem passado o seu irmão Ikki?”
“Como
sabe sobre o Niisan?”
Percebendo
que ela não daria uma resposta, Shun desiste.
“Ele
está muito bem. Já faz algumas semanas que não nos falamos, mas não é
preciso vê-lo pra saber como ele está.”
“Isso
é ótimo... É bom saber que vocês continuam unidos.”
“De
onde você conh... Ah, esquece...”
“De
onde conheço seu irmão? Foi há muito tempo. Ele encheu a minha vida de
alegria...”
Shun
pôde perceber os olhos da senhora marejarem, e perguntou-se que espécie de
sentimento a ligava ao Niisan.
“A
senhora vive aqui sozinha? Não tem parentes, amigos?”
“Tenho
sim. Mas eles não vivem mais comigo. Mesmo assim, eu sou feliz. Você é feliz,
Shun?”
Shun
sorri. Apesar de tantos mistérios, aquela mulher não mais parecia tão
estranha para ele.
“Sou
sim. Tenho amigos para os quais daria a minha vida e sei que eles fariam o mesmo
por mim. Casei com uma mulher que foi a única que confiou em mim em uma época
em que ninguém o fazia. Mesmo tendo sofrido muito, agradeço a Deus por ser
quem eu sou.”
“Eu
também. Porque são os sofrimentos que nos fazem reconhecer isso. Como se chama
a sua esposa?”
“June.
Ela é uma amazona de Athena. Fomos treinados juntos na ilha de Andrômeda. Ela
sempre se preocupou muito comigo.”
“E
tenho certeza que você também zela por ela, não é mesmo? Você é tão
parecido com o seu irmão...”
Shun
fica surpreso. Era a primeira vez que alguém dizia que ele era parecido com
Niisan! Nem mesmo Hyoga e Seiya, que sempre foram os amigos mais próximos dos
dois, não haviam sequer pensado em tal coisa, mesmo sendo verdade. Ele ri.
“Ninguém
nunca havia dito isso sobre nós. Niisan costuma ser bem menos paciente e pacífico
que eu normalmente.”
“Mas
mesmo assim é parecido... Ambos são muito amorosos.”
Até
esse momento, Shun já havia perdido totalmente a desconfiança naquela senhora
que tanto lhe surpreendia. Ela aparentava conhecer toda a sua história e
personalidade, sem que ele tivesse que dizer tudo que ele havia revelado até lá.
A
mulher olha para o velho relógio na parede. Já eram cinco e meia da tarde.
Shun se dá conta que havia perdido a noção do tempo com a conversa e havia
deixado June sozinha em casa. Ele se levanta e pede licença.
“Minha
nossa, já é tarde! Preciso voltar para casa, June está me esperando. Me
desculpe...”
“Está
tudo bem, jovem. Sou eu quem deve desculpas por segura-lo aqui. Se apresse e
volte para ela.”
Eles
se dirigem para a porta. Antes de se despedir, ela segura-lhe a mão.
“Ainda
não agradeci a você. Prometa que voltará aqui amanhã...”
Shun
lançou um doce sorriso antes de desaparecer por de trás da porta.
“Eu
prometo.”
No
dia seguinte, de manhã, Shun cumpre sua promessa voltando para a casa da
senhora. Mas para a sua surpresa, não havia ninguém em casa, nem nada.
No
meio da sala vazia, depositado no chão, ele encontra um pequeno amuleto de ouro
junto a um bilhete em um pedaço de papel, escrito a mão, com letras pequenas.
‘Querido
Shun: Este amuleto é diferente do amuleto amaldiçoado de Hades. Este sim é a
verdadeira lembrança de sua mãe. Guarde com carinho. Tenho certeza que você e
June serão pais maravilhosos. Muito obrigada por você ser quem é.’
Sendo
que a compreensão sempre desencadeia um silêncio, às vezes mortal, às vezes
alegre, o silêncio que se fez no coração de Shun falou por si mesmo e pela
primeira vez ele descobriu um sentimento que Hyoga sempre venerara.
Ao
sair na rua, sentiu a vida mais próxima que antes, olhou para o céu e sorriu.
Sentiu
que aquela sombra que sempre o perseguira não mais o incomodava, mas que havia
se transformado em uma doce saudade. Saudade? Sim, saudade. Pois sua vida não
fora mais que uma grande e profunda saudade cheia de poesia que a lenda dos
protetores de Athena lhe ofereceu.
*FIM*
Obs:
Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.