Terra
Natal
‘Mas o que é isso? Está dizendo que viu o seu irmão perder e não
tentou ajuda-lo?’
‘A culpa é dele por ter sido derrotado por um cavaleiro de bronze.
Quanto a mim, mesmo que ele seja o meu irmão de sangue, eu apenas o vejo.. como
um cadáver, frio e fraco, mais nada.’
‘Nós dois.. Shun e eu também não nascemos sob uma boa estrela. Bado,
nós jamais conhecemos os rostos dos nossos pais. Nós fomos separados! E uma
vez lutamos um contra o outro em grupos opostos! Shun e eu amaldiçoamos o nosso
próprio destino. Mas agora podemos lutar com os nossos maravilhosos amigos por
uma única meta, a deusa Athena! Chegará o momento em que Shun e eu, que
nascemos sob estrelas desventuradas, possamos.. viver em paz. Lutamos juntos
porque assim a vitória conseguida odiando o seu único irmão não significa
nada.. nada que valha a pena se o seu irmão não estiver...’
O diálogo ecoava em seus ouvidos. Agora ele via que se os seus pais
foram cruéis ao abandona-lo, ele também o foi, quando foi capaz de dizer
palavras tão cruéis sobre o irmão. Ikki tinha razão. Sua atitude era digna
de repulsa por Odin. Ódio. Aquele sentimento fechara completamente as portas de
seu coração e deu lugar a uma espada sanguinária.
Bado olha para o irmão nos braços. Seu corpo estava castigado pelo
violento ataque do cavaleiro de Andrômeda. O rosto, apesar de atordoado com a
batalha, ainda podia se perceber a expressão pura do garoto que salvou o
coelho. Seu irmão. Atados por um destino, e ele achando que viviam em caminhos
separados. Na verdade eram iguais.
Ele jamais poderia acreditar que chegaria um dia a voltar para lá. A
terra de seus pais. Ele não queria estar perto deles. Mas lembrara-se do que o
ódio o havia levado e decidiu perdoa-los. Perdoa-los por abandonarem-no para a
morte, com o medo de perderem os status da família, como se dinheiro fosse mais
valioso que uma vida.
Ele ainda os odiava. E por mais que ele os odiasse, não conseguiria
voltar à época em que eles estavam vivos para se vingar. Era melhor
esquece-los. ‘Nós jamais vimos os rostos dos nossos pais...’ disse
Ikki. E Bado perguntou-se por um momento se era preferível ele ter conhecido
aqueles pais que o abandonaram do que não tê-los.
Estava começando a escurecer. Faltava mais um guerreiro deus a ser
derrotado. Siegfried. Bado tinha curiosidade se Ikki, Shun e seus amigos
conseguiriam passar pelo Dragão do Norte. Agora não importava mais se a guerra
seria ganha. Mas ele sim desejava que os irmãos de bronze conseguissem um dia
atingir o sonho de poderem viver em paz. Um sonho inatingível para ele e Shido.
‘Você só está sendo usado pela Hilda, Bado.’
Andrômeda tinha razão. O seu esforço todo foi jogado fora quando Hilda
se aproveitou dele. Bado pára e olha para baixo.
“Eu só fui um brinquedo. Só um brinquedo. Mais nada. Perdi muito
tempo com o ódio. Uma vida inteira...”
Bado se ajoelha no gelo.
“Que vida inútil...”
E ele sentiu vontade de voltar. Para um tempo que nunca aconteceu.
Bado sente suas pernas fraquejarem e une todas as forças de seu corpo
para se levantar. Ele tinha que levar Shido até a terra natal.
Shido... Mesmo que ele não tivesse conseguido se tornar tão forte
quanto ele, era de fato um guerreiro deus. E para conseguir tal proeza foi
necessário muito sangue. Shido sabia que em sua sombra havia um Bado que era
seu irmão gêmeo. Ele sabia que Bado o odiava. Mesmo assim, continuou a fingir
que ele não existia. Não por tentar fugir do problema, mas por saber que ninguém
deveria saber sobre a existência de Bado, nem mesmo os outros guerreiros
deuses. Isso poderia prejudicar o irmão. Shido sabia que Bado sempre o odiou, e
tal sentimento jamais foi recíproco.
Porque eles eram irmãos.
Bado vence a neve aplicando em sua maciez a raiva de seus passos. Não
estava longe.
Então ele chegou. Do alto daquela montanha, ele avistou a casa em que
eles nasceram. Ela estava mal conservada, dominada pela neve, o esquecimento e o
mórbido clima. Na frente, os muros semidestruídos e os portões enferrujados
destrancados que seu pai cruzara para leva-lo para o abandono. Lá estava a
terra natal.
Dois caminhos de lágrimas se dão no rosto de Bado. Acabara de passar em
sua mente tudo que havia acontecido durante a sua infância e lágrimas começaram
a fluir devido o impacto da emoção.
Mas elas não eram de tristeza.
Eram de saudades.
Bado deixa o seu corpo tomar sua fraqueza e deposita suas últimas lágrimas
sobre o corpo do irmão.
*FIM*
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