Traidor

   

            Traidor...

            Uma mentira batia à porta e Aioria a deixou entrar. Ela chegou com violência, derrubando a mesa, quebrando a janela, dilacerando a confiança e pisando em suas certezas. Ela chegou, xingou-o, cuspiu em sua face e ele só respondeu com um assentimento. Porque acreditava que ela era verdade. Porque a verdade é sempre dura, e aquela mentira com certeza tinha um coração mais gelado que Plutão.

            A mentira riu. Riu alto, machucou os ouvidos, parecia ser a gargalhada mais alta do mundo, parecia um alto-falante do tamanho do universo para emitir um barulho tão perturbador. “Hahaha” gritava, “seu irmão é um traidor!” Por que o riso, que tinha o poder da alegria, trazia consigo tamanho deboche? Doía, machucava, paralisava e dava o bote, envenenado a alma. Envenenava-o.

            Traidor...

            No dia seguinte, uma nuvem de desprezo condensou e transformou-se em chuva. Para onde quer que olhasse, o desprezo estava à espreita, com um olhar de ódio incontido. Dava meia volta, e lá ele estava. Olhava à direita, à esquerda, para cima, e lá estava. Olhava para si mesmo, e lá continuava ele, eternamente firme. Não sabia mais para onde olhar. O olhar era o desprezo. Se havia olhar, havia desprezo.

            Ao adormecer, fechava os olhos, mas não se livrava do olhar do desprezo. Não precisava de retinas para ver o desprezo. Porque a mesma frase continuava ecoando em sua mente, sem parar, durante as vinte e quatro horas do dia mais a eternidade da mentira: “seu irmão é um traidor!” A diferença entre “irmão” e “você” era desprezível. Duas palavras com significados diferentes, mas iguais ao mesmo tempo. Exatamente iguais a “traidor”.

            Traidor...

            O traidor estava morto. Mas estava vivo também. Vivo na mentira e no desprezo. Traidor é aquele que quebra a confiança e aquele que quebrou a confiança de Aioria. É o que traz dor e o que trouxe dor ao irmão. O corpo do traidor sumira, sobrara a palavra, curta e definitiva, imutável. O traidor só não traía a mentira e o desprezo. O resto do mundo podia ser traído à vontade, porque o resto era o resto, era o não importante.

            E o resto do mundo era traído junto com Aioria. Porque o traidor não era traidor. O traidor era um salvador. Porque se a traição havia traído alguém ali, não havia ninguém a não ser ela mesma. Havia Aioria e seu irmão e entre os dois só havia a fidelidade. E na fidelidade não existe traidor. Apenas confiança. Quando a mentira morreu, assim morreram o desprezo e o traidor, só sobrando o salvador.

 

*FIM*

 

 

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