Uma Pausa para o Passado

   

           

        Shun observa em volta os enormes blocos de pedras espalhados pelo chão. June mantinha-se próxima a ele, atenta a reação do jovem cavaleiro. Ikki observava o vulcão ainda ativo da ilha e constatava que aquela ilha, apesar de ser um pouco diferente da ilha da Morte, era também uma ilha infernal.

            Eles se aproximam dos restos de uma cabana de pedras. "Esta era a cabana do mestre Albiori." Shun procurava reter as emoções, mesmo sabendo que era impossível. June também demonstrava o mesmo sentimento. Ela ainda se orgulhava por ter recebido o treinamento de amazona do cavaleiro de Cefeu.

            Já fazia seis meses desde o término das batalhas. June reencontrara Shun no hospital, enquanto ele estava se recuperando dos danos causados na batalha contra Poseidon, e com ele decidiu que em breve voltariam para a ilha de Andrômeda.

            "É verdade. Milo conseguiu destruir completamente a ilha de Andrômeda." Shun olhava a tudo como se tivesse sido ele mesmo quem explodiu o cosmos e arrasou cada pedra do lugar onde fizera o treinamento.

            Reda e Spika se aproximam ignorando qualquer sentimento do cavaleiro de Andrômeda no momento. "Isso aconteceu porque Albiori quis apoiar as suas idéias, Shun." Shun ouve as palavras de Reda sem nenhuma reação. Aquilo não importava mais. Mas Ikki mostrou-se claramente ofendido e partiu para a defesa do irmão. "Ele estava apoiando a verdade, como um verdadeiro cavaleiro deve fazer. Vocês deveriam se orgulhar desse mestre."

            Ikki não compreendia como discípulos não se orgulhavam de um mestre como o de Shun. Seu mestre da ilha da Morte é que não era digno de nenhum crédito. Durante seu treinamento, ele viu dezenas de pessoas sendo torturadas na sua frente, sendo que aquela ilha era uma fábrica de cavaleiros com mentes malignas. Mas Albiori era diferente. Ele se preocupava em formar cavaleiros honrados que servissem a verdade. Ikki agradecia a esse homem que nunca conheceu por ter educado seu irmão caçula.

            Reda olha aborrecido pro lado. Shun caminha em direção ao outro lado da ilha, calado. June vai atrás dele, mas Ikki a detém. "Deixe-o." E June observa Shun desaparecer na encosta do vulcão.

 

 

            Shun pára diante de uma gigantesca e comprida pedra caída. Essa não havia sido destruída por Milo, embora tivesse várias fissuras causadas pelo cavaleiro de Escorpião. Ela era o seu principal ponto de treinamento na época em que ele era apenas um aspirante a cavaleiro. Nela haviam buracos cheios de manchas. Manchas de sangue que trazem à tona seus anos de primeira batalha.

 

 

            O sangue escorria por seus braços enquanto duros golpes eram dados na enorme pedra. Naquele dia, Albiori deixou a tarde livre para que eles treinassem como bem entendessem e, ao contrário dos outros discípulos, Shun decidiu treinar sozinho. Ele pula e começa a chutar o topo da pedra. Logo suas pernas doíam terrivelmente, mas ele não parava. Estava determinado a vencer os seus anos de treinamento e se tornar um cavaleiro. Se essa era a única maneira de rever seu irmão, que fosse. Ele superaria. Shun volta a aplicar golpes na base da pedra e o sangue pinga no chão.

            June se aproxima, trazendo uma toalha. "Shun?" Shun volta-se sorrindo para ela. "Olá, June."

            Ela lhe oferece a toalha, olhando para os seus braços. "Não acha melhor tratar desses ferimentos antes de treinar assim?"

            Ele aceita a toalha e enxuga os machucados. "Não se preocupe, vou cuidá-los de noite." June observava-o limpar o sangue. "Shun, por que não age como um guerreiro? Por que não busca situações de luta para o seu treinamento? Seu inimigo não será uma pedra, não conseguirá se fortalecer desse jeito."

            Ele olha sério para o entardecer. "Isso não é verdade."

            "Shun, você tem uma grande força no seu espírito, mas não é só isso que o tornará um cavaleiro! Reda e Spika são muito mais fortes que você!"

            Shun lança um olhar gentil para a amiga. "Muito obrigado por se preocupar comigo, June. É a pessoa que mais me ajudou desde que comecei o treinamento." E ele parte em direção ao seu quarto, seus braços enrijecidos com a dor.

 

 

            Shun sorri antes de tirar os olhos da enorme pedra. "June..."

            Ele caminha até o lugar de sua antiga cabana. Dela só restava a fundação da construção. As paredes e o interior foram completamente destruídos. Ele olha por um longo tempo, reconhecendo a paisagem que tinha de seu quarto de noite, quando se recuperava dos ferimentos e pensava no irmão, na ilha da Morte, perguntando-se se tudo ia acabar bem.

            A noite já caia e em breve ele teria que voltar para o navio. Como tudo na ilha estava destruído, ele, Ikki e June passariam a noite no navio da fundação que os trouxera. Ele anda mais um pouco e encontra o túmulo de seu mestre.

            Ele se ajoelha na frente da lápide esculpida por June e reza. Ele se levanta e, antes de ir, lança os olhos mais uma vez para a lápide.

            "Você foi indiretamente uma das vítimas das Doze Casas, mestre. Mas agora você entende o que eu sempre quis dizer, não é mesmo?"

            Ele vira em direção ao navio, secando as lágrimas que insistiam em sair.

 

 

            Junto com a noite, veio o frio. E ele vinha como um senhor de impiedade, de dureza e de indiferença. E como ele havia sido criado num lugar onde apenas o calor imperava, sentia a forte diferença. Durante o dia, o calor não era tão intenso quanto o da ilha da Morte, mas para compensar, o frio completava o rigoroso clima da ilha de Andrômeda. Ela era mesmo uma ilha infernal.

            Ikki se levanta. Na cama ao lado da dele, o irmão parecia não sentir o frio daquela noite e dormia tranqüilamente. Ele veste uma blusa e põe-se a caminhar à beira da praia e, para a sua surpresa, encontra a silhueta de June sentada sobre uma pedra.

            Ele se aproxima e, quando ela o percebe, coloca às pressas a máscara de novo.

            "Por que apareceu assim de repente? Não quero que me veja sem a máscara."

            "Senão você teria que me matar ou me amar, não é?"

            "O Shun sabe disso também?"

            "Sabe. Seiya contou-lhe antes da batalha das Doze Casas."

            Os dois caem no silêncio. As ondas avançavam com força na areia da costa. Eram as mesmas que Shun enfrentou para conseguir a armadura de Andrômeda. Ikki observava-as atentamente, a fim de tentar absorver tudo que o irmão enfrentou nesse lugar.

            "Eu tenho que agradecer a você." Ele falava sem olhar para ela, como se estivesse falando mais consigo mesmo do que com a amazona de Camaleão.

            “Por quê?”.

            "Shun uma vez me contou que jamais teria conseguido sobreviver ao treinamento se você não o tivesse encorajado."

            June olha para o Fênix, espantada. "Encorajá-lo? Mas eu só fiz isso no final, quando descobri que ele tinha potencial para derrotar Reda e Spika."

            Ikki sorri. "Não foi o que o Shun me disse."

            June olha para baixo. A água avançava à sua volta, enquanto a pedra a protegia de se molhar. "Eu vivia dizendo para ele desistir de se tornar um cavaleiro, antes que fosse tarde demais, mas ele nunca escutava. Todos os dias eu o via levando uma surra ou do Reda ou do Spika e imaginava a mesma coisa no dia em que eles fossem competir pela armadura de Andrômeda. Seria melhor pra ele desistir antes que sofrer a frustração no final. Mas não foi assim. Durante seis anos eu nunca acreditei que ele pudesse esconder um poder tão grande."

            "Então por que nunca desistiu dele?"

            June balança a cabeça e os dois ficam em silêncio de novo. As ondas molhavam os pés de Ikki, de pé ao lado da amazona. Elas ainda traziam o calor diurno de Andrômeda. June suspira.

            "Ele sempre me dizia que fazia aquilo pra encontrar o irmão mais velho de novo, que imaginava um lugar muito pior que a ilha de Andrômeda e não podia desistir. Mas nunca soube muito dele."

            Ikki olha para ela. "Errado. Você soube tudo sobre ele, incluindo aquilo que apenas eu sabia. É por isso que você nunca desistiu. Esse é o meu irmão."

            Ele se vira e volta para o navio. June continua a sentir a gelada brisa da ilha que lhe refrescava os pensamentos.

 

 

            Na manhã do dia seguinte, Shun parte para o local onde todos os discípulos de Albiori se reuniam para treinar juntos. Ele era cercado de enormes rochas que não estavam mais lá. Foi ali que ele lutou contra o Reda e o Spika para decidir qual dos três merecia desafiar o Sacrifício. Foi ali que Albiori morreu pela rosa de Afrodite e pelo ataque de Milo, antes da batalha das Doze Casas.

            Shun caminha até o centro do lugar, e começa a treinar, lançando golpes no ar usando a sua máxima velocidade.

            "Você merece mesmo ser o cavaleiro de Andrômeda, Shun."

            "Spika?"

            "Por mais que eu não quisesse aceitar, tudo indicava que você era muito mais forte que eu e Reda."

            "Não é verdade, Spika. A minha luta contra vocês não foi fácil. Na verdade, a diferença entre nós era quase nenhuma."

            Spika se aproxima dele. "Talvez essa fosse a diferença entre Reda e você, mas não eu. Eu achava que era mais forte que você, quando na realidade era o contrário. O meu único objetivo no treinamento era superar Reda, mas nem isso consegui."

            "A armadura era importante pra você, eu sabia. Mas era importante pra mim também. Não podia quebrar a promessa com o meu irmão."

            "Eu precisava provar pra mim mesmo que era forte. Eu queria de qualquer jeito superar meus limites, mas não consegui. Depois que você partiu, fiquei treinando duro com o Reda, para que pudéssemos um dia te superar. Mas mesmo assim, sua força aumentou muito mais do que a nossa, como o nosso último confronto provou. Mas não foi só isso. Você também conseguiu sobreviver às Doze Casas e ainda vingou a morte de nosso mestre, derrotando Afrodite, um cavaleiro de ouro. Você provou uma verdade que estava enterrada há 13 anos com a sua força, Shun, mas eu ainda não desisti."

            "Spika..."

            "Não vou pedir uma luta com você, sei que vai recusar. Mas ao menos me dê mais uma chance pra te superar, e de verdade. Vamos ver se você consegue se esquivar dos restos dessa ilha."

            Depois de um breve silêncio, Shun afirma e se distancia um pouco de Spika. "Estou pronto!"

            Spika acende o cosmos e levanta com a mente inúmeras pedras do chão. Ele aumenta o cosmos até o máximo e Shun nota que seu poder era digno de um cavaleiro de prata. De repente as pedras atacam Shun a uma velocidade impressionante e ele começa a se esquivar de todas.

            Spika aumenta a velocidade e Shun encontra um pouco de dificuldade de se esquivar das pedras. Então Spika explode todo o cosmos e atira todas as pedras ao seu redor na direção de Shun.

            "Quero ver você escapar de todas elas agora, Shun!!"

            "O quê?"

            June chega nesse momento com Ikki e Reda. "Pare com isso, Spika!"

            Mas Shun libera um poderoso cosmos e uma forte corrente de ar invade o lugar. Quando Spika se dá conta, todas as pedras que ele havia atirado haviam parado no ar, e agora giravam em torno do corpo de Shun. Reda mal podia acreditar. "Mas como?"

            Shun interrompe a corrente e as pedras caem no chão. Spika se ajoelha. "Não é a toa que você conseguiu sobreviver a todas as batalhas até agora. É impossível eu superar sua força, Shun."

            Shun se aproxima e segura-lhe o ombro, sorrindo. "Eu perdi, Spika."

            Spika volta-se ao cavaleiro e vê um filete de sangue escorrer em seu rosto por um corte.

 

 

            "É aqui?"

            Shun afirma. "Foi nesse lugar que me prenderam com as correntes de Andrômeda quando desafiei o Sacrifício. Havia duas enormes rochas ali, mas que agora se foram por causa do ataque de Milo." Shun apontava num ponto perto das rochas, onde as ondas batiam ferozes, diferente do resto da ilha.

            Ikki observa com atenção o movimento da água. A sua força era capaz de causar um suplício terrível para um cavaleiro de bronze.

            "A chegada da noite é maré alta. Quando o aspirante a cavaleiro ali é preso, precisa se livrar das correntes antes que se afogue. É virar cavaleiro ou morrer. Mas ela significa muito mais para mim."

            Ikki escuta com os olhos distraídos. "Mas a ilha de Andrômeda é ainda muito diferente da ilha da Morte..."

            Shun volta-se ao irmão. "Você ainda me culpa por ter deixado você ir para a ilha da Morte, niisan?"

            "Eu nunca culpei. Na verdade eu me sinto feliz por isso. Na ilha da Morte, a única maneira de se tornar um cavaleiro é odiando algo, não importa o que seja." Ikki olha pro irmão. "E eu não conseguiria ver você odiando alguma coisa, nem se conformando com os problemas que surgem."

            Shun sorri e pula na água. Naquela hora, ela já chegava no seu peito. As ondas batiam contra o seu corpo, que continuava firme, embora começasse a perceber os primeiros arranhões.

            June, Reda e Spika chegam. Reda e Spika olham para o ex-companheiro estarrecidos. "Shun, o que está fazendo, saia daí!" June permanece imóvel.

            Shun se concentra, esforçando-se ao máximo para não ser tragado pela força das ondas. Caso isso acontecesse, seu corpo seria jogado contra as pedras, que poderiam lhe causar sérios ferimentos. A maré subia rapidamente e já quase cobria o nariz. Quando ele sente que não podia mais segurar a respiração, acende o cosmos ao máximo. Um rodamoinho aparece a sua volta e ele volta a respirar.

            "Niisan, June, mestre, amigos! Este é o início de uma nova vida! A minha fase de provação já passou!"

            Shun explode o seu cosmos e divide o mar em dois, da mesma maneira como havia feito quando se tornou um cavaleiro de Athena, mas desta vez de uma forma muito mais poderosa. A divisão ia até onde os olhos podiam alcançar, desaparecendo no horizonte. Ele salta para junto de seu irmão e faz a água preencher o caminho que se formara novamente.

            "Shun..." June o via recuperar o fôlego após o esforço. Ikki não dizia nada, apenas contemplava o sentimento de esperança que fluía através de seu corpo.

 

            Shun se aproxima do túmulo de Albiori pela última vez.

            "Mestre Albiori, espero estar satisfazendo as suas expectativas como mestre como agradecimento por ter me treinado durante anos. Quero servir à Athena e à verdade da mesma maneira como o senhor serviu. Mas mesmo com o meu amadurecimento nas batalhas anteriores, não quero mudar aquilo que todos queriam que eu mudasse. Eu deixaria de ser eu mesmo se o fizesse."

            Ele quebra sua corrente circular, tira um elo e a conserta de novo com o cosmos. O elo é colocado em frente à lápide e depois ele se levanta.

            "Mestre, lembra-se de quando parti da ilha de Andrômeda? Eu lhe prometi que nós nos veríamos novamente. Até breve, então."

            Ele caminha de volta ao navio, que já estava de partida.

 

 

            June observava a ilha de Andrômeda, que mal podia ser reconhecida na escuridão da noite, no parapeito do navio. Era bom sentir pela última vez a gelada brisa em seu rosto nu.

            Shun se aproxima calmamente e junta-se a amazona, observando a discreta paisagem. "No que está pensando?"

            "Em tudo. Quando me tornei órfã e acabei conhecendo o mestre. Depois quando passamos seis anos treinando pra nos tornarmos cavaleiros. No final, a ilha é destruída e cada um toma o seu rumo."

            Ele fitava em paz a ilha que começava a desaparecer na linha do horizonte. "Aconteceu tanta coisa neste lugar, não é mesmo?"

            June afirma. "Mas parece que eu sou a única pessoa que não pôde se adaptar a tudo isso. Você conseguiu encontrar o seu irmão, se tornou um dos mais poderosos cavaleiros de Athena e tem tudo para ser feliz." June suspira. "Às vezes eu me sinto tão pequena..."

            "Eu não tenho um destino certo, June. Ninguém o tem. Mas tenho certeza de que nenhum futuro pode ser construído sem um passado. Sabe, durante a viagem para a Grécia, quando eu estava prestes a enfrentar os cavaleiros de ouro, fiz uma promessa. Jurei que reconstruiria uma segunda ilha de Andrômeda, bonita e pacífica, para onde você pudesse voltar sem se preocupar."

            June olha para ele, que trazia em seus olhos a determinação que sempre teve, e volta-se para a ilha. Shun gentilmente a abraça e ela cede. Ele olha para o céu. A constelação de Cefeu brilhando forte, para sempre. "Veja, June. Amanhã o céu estará azul e não haverá nenhum problema para sonhar."

            Os dois vêem tranqüilamente a silhueta da ilha dissolvendo-se no horizonte.

   

*FIM*

 

 

Obs: Saint Seiya é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.