Após a batalha de Poseidon, os guerreiros marina resolveram se reunir para decidirem o futuro do reino do fundo do mar. A derrota para os cinco cavaleiros de bronze caía pesadamente sobre o orgulho dos guerreiros mais fortes de Poseidon, levando-os a uma desenfreada busca pela razão do fracasso. Isaac falava aos companheiros apontando o indicador para Kanon.
“Eu já disse que a culpa é do Kanon. Se ele tivesse deixado que Poseidon despertasse cedo, não teríamos perdido. Os cavaleiros tinham a deusa Athena desde o início.”
O Dragão Marinho, sentado à ponta da mesa, estava de braços cruzados enquanto mastigava a raiz de uma planta submarina. Sabia que teria de lidar com aquilo se perdesse a batalha. Revoltado, achava que os companheiros só sabiam reclamar e de nada adiantavam na administração do reino. Para eles era muito fácil largar todas as responsabilidades em suas mãos e isentarem-se de culpa depois.
“Olha quem fala. Você só perdeu porque estava lutando contra o seu amiguinho de infância! Por acaso não disse que o odiava?”
Baian, que jogava ‘paciência’ na mesa voltou-se momentaneamente à conversa.
“É, e você também dizia que era mais forte que aquele cavaleiro de Cisne, Kraken!”
“Por que não luta com ele pra ver se é fácil? Você não tem o direito de reclamar, Baian, foi o primeiro a ser nocauteado.”
“Ele só me pegou distraído, oras.”
Krishna montava espetos com peixes enquanto esperava que a lareira fosse acesa, sem querer participar da conversa. Para ele, era mais divertido observar a discutir com os companheiros. Io fora encarregado de cozinhar o almoço de todos junto com Krishna e tentava acender a lareira com algumas esponjas. Mesmo assim, não parecia disposto a ficar calado.
“Vocês é que não souberam proteger o pilar! Eu tenho o orgulho de dizer que lutei até o último instante para protegê-lo!”
Sorento, que limpava cuidadosamente a flauta, sorriu sarcástico e olhou-o em resposta.
“E onde é que está o seu pilar agora, Io? Não me diga que o perdeu atrás de uma alga?”
“Ora, cale a boca! Você foi o pior de todos, juntou-se a eles para destruir o último pilar! Como pode se dizer um marina com um ato tão repugnante?”
Voltando-se à flauta, Sorento fechou os olhos, ofendido.
“O que faço ou deixo de fazer não é da conta de vocês.”
“Não, nem mesmo quando se trata de nosso trabalho. Por que não muda de profissão, Sorento?”
“É... Não é uma má idéia, Io. Estou pensando em voltar à música. É menos barulhenta que vocês.”
Olhando para os lados, Kanon observava a sala, desconfiado.
“Mas mudando um pouco de assunto... Vocês têm certeza de que Kasa também sobreviveu? Já era para ele ter nos encontrado.”
Baian, que não tinha a menor estima pelo deformado guerreiro, fungou e olhou para o lado, aborrecido.
“Hum. Deve ter fugido, aquele imbecil. Nem para uma simples reunião.”
“Mas do que é que estão falando? Estou aqui!”
Surpresos, os guerreiros procuraram em volta a origem da voz. Todos reconheceram no ato que se tratava de Kasa, mas não sentiam sua presença.
“Eu estou aqui, seus vermes!”
Baian sentiu um cosmos estranho vindo da cadeira onde sentava e levantou-se subitamente, enojado.
“Eu não acredito! Seu!”
Coberto de cosmos, o móvel transformou-se e tomou a forma de Kasa, sorrindo do mesmo jeito sádico de sempre.
“Eu só perdi para aquele Fênix porque não conhecia a namoradinha dele! Mas nocauteei três cavaleiros, coisa que nenhum de vocês fez!”
“Seu animal! O que estava pensando quando virou uma cadeira?! E eu estava em cima! Que nojo!!”
Irritado, o marina iniciou uma briga que logo foi ignorada pelos demais. Todos sabiam que violência física não traria um fim àquela reunião. Concordaram previamente conversarem como cavalheiros e permitir que as desavenças fossem resolvidas fora da reunião. Io conseguiu acender o fogo e começou a assar o almoço de todos.
“Ei, Io. Quando vai ficar pronto isso aí? Vou morrer de fome.”
“Que tal calar-se e me ajudar um pouco, Isaac? Estou fazendo o melhor!”
Nesse momento, batidas vieram da porta e Shun entrou, carregando uma bandeja.
“Desculpe interrompê-los, mas Saori pediu que trouxesse isto para vocês.”
“Isso aí veio de Athena? Acha que confiamos a ponto de aceitar algo de nossos inimigos, Andrômeda?”
Shun não estava mais disposto a continuar com as desavenças depois de tão sangrenta batalha. Não havia mais templo para proteger, não havia mais lutas, ao menos por enquanto.
“Bem... A luta já acabou, e estamos todos esgotados. Não há por que continuar lutando, estou errado? O templo de Poseidon desabou e vocês estão se abrigando nesta cabana. Eu sei que ninguém é culpado, mas aquele era o lar de vocês até aparecermos. Só queremos ajudar um pouco.”
Sorento sabia que o cavaleiro de Andrômeda não era o tipo de pessoa que mentia com freqüência e por isso sorriu.
“Obrigado, Shun. Pode deixar que nós nos servimos.”
“Certo. Podem entrar, pessoal.”
Criados de Saori entraram na cabana e encheram a mesa de ricos pratos, com tudo que não podia existir no fundo do mar. Todos os tipos de carne, com temperos só encontrados na face terrestre. As saladas eram tantas e com tão variados ingredientes que os marinas observaram em silêncio, momentaneamente chocados.
“Quando quiserem a sobremesa, é só chamar o cozinheiro que ficará na porta do lado de fora. Bom apetite.”
Sorrindo, Shun saiu da cabana e encontrou-se com Saori, que esperava no mirante da praia, olhando a paisagem.
“Eu fiz como você mandou, Saori. Mas... Por que tudo isso? Eles podem ter perdido o lar, mas foram criados que nem eu; sabem se virar.”
“Ora, Shun. Um almoço desses não é nada para o orçamento da mansão. Além do mais, há quanto tempo você acha que eles não se alimentam direito?”
“Acha que isso trará um fim pacífico para a batalha?”
“Veja e aprenda.”
O silêncio que se seguiu na cabana indicava que seu plano estava seguindo com sucesso. Aparentemente, todos os guerreiros marinas se acalmaram. Após algum tempo, Baian saiu e pediu ao cozinheiro que trouxesse a sobremesa. Inúmeras bandejas de doces foram levadas à cabana, enquanto Shun observava de longe.
“Pelo menos eles pararam de brigar.”
“Esse é só o primeiro passo, Shun.”
Meia hora depois, os guerreiros marinas saíram da cabana juntos, com a exceção de Kanon. Dirigiram-se respeitosamente até Saori e ajoelharam-se, para a surpresa do cavaleiro de Andrômeda. Como os olhos baixos, Sorento falou por todos, anunciando o resultado da reunião.
“Athena. Nós, os marinas, estamos profundamente gratos com sua generosidade e anunciamos que não voltaremos a lutar por Poseidon novamente. Decidimos viver na superfície terrestre como homens comuns. Percebemos que há muitas coisas gos... boas na Terra pelas quais vale a pena lutar. Pedimos desculpas pelos problemas que causamos.”
“Eu fico feliz com a decisão de vocês, guerreiros. Tenham uma vida pacífica e tranqüila na Terra.”
“Com a sua licença, Athena.”
Os marinas de Poseidon levantaram-se, retiraram-se com calma e puseram-se a conversar educadamente. Kanon esperou que eles partissem para aproximar-se também.
“Athena.”
“O que foi, Kanon?”
“Por favor, perdoe-me. Eu estava errado. O mundo não está totalmente perdido. Eu quase destruí coisas insubstituíveis. Você me agraciou com sua gentileza duas vezes e não fiz nada para recompensá-la. Será... Que eu posso ganhar o meu perdão algum dia, minha deusa? Aceito a punição que quiser, mas meu desejo é permanecer ao seu lado, protegendo-a com todo o meu cosmos e o meu coração.”
“Kanon... Então finalmente reconheceu o seu pecado.”
“Sim, Athena. Por favor, aceite esta vida e permita que eu caia por você. Mesmo como um servo, eu não me importo.”
“O seu poder é digno de um cavaleiro de ouro, Kanon. O que acha de substituir o seu irmão como cavaleiro de Gêmeos?”
“É uma grande honra, minha deusa. Não tenho palavras para expressar a minha gratidão.”
“Volte ao Santuário, Kanon, e assuma sua nova posição.”
“Sim. Como quiser, Athena.”
Kanon partiu e Shun observou-o boquiaberto. Nunca imaginara que a comida pudesse ter um poder de negociação tão forte. Saori sorriu-lhe e continuou a observar o mar, tranqüilamente.
“Está vendo, Shun? Quando se é dona de uma empresa como a Fundação Grado, é preciso conhecer alguns truques para conversar com os inimigos. Homens são os mais fáceis.”
Ainda espantado, Shun perguntou-se se aquele era o mesmo método que Saori usara para conseguir a lealdade de Seiya.
“Aqueles homens passaram anos vivendo no fundo do mar. Tudo o que eles deviam comer eram frutos do mar. Por isso, pedi ao chefe que fizesse uma refeição rica com ingredientes que só se encontram na superfície. Alguns só são vistos em terra firme, longe de qualquer oceano. Aposto que isso os ajudou a pensar melhor.”
Afastando-se do peitoril, Saori arrumou os cabelos e preparou-se para voltar.
“Está ficando tarde, Shun. Vamos voltar. Para compensá-lo por hoje, o que me diz de um jantar especial? Afinal, vocês lutaram por mim.”
Enquanto seguia Saori até o carro, Shun perguntou-se se aquilo não era uma forma de convencê-lo a fazer algo. Sabendo que Saori não pediria nada absurdo, deu de ombros, sorriu e seguiu em frente.
*FIM*
Obs:
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