Uma Vida ao Vento
O corpo do general marina não possuía forças nem mesmo para agonizar e
ele sentia que a morte já estava presente em todos os seus sentidos. Shun
ressentia o golpe de misericórdia que não havia saído de má fé. Foi o próprio
Scylla, o general marina, que expusera o seu corpo ao golpe que Shun havia lançado
para derrubar o pilar. Quando este havia percebido, já era tarde demais para
deter o ataque. Agachando-se ao lado do corpo dilacerado, o cavaleiro de Andrômeda
tocou-lhe o ombro de maneira amistosa:
“Scylla, por que fez isso?”
“Eu sou igual a você.”
“Igual a mim?”
“Você tentou destruir o pilar.. arriscando a sua vida... E eu tentei
protegê-lo.. expondo a minha.”
Shun percebeu a fatalidade nas palavras de Io. O general marina não
lutava por amor às lutas. Em nenhum momento da batalha ele desejou acabar com a
vida de Shun, embora pudesse ter feito no começo. Mas quando Shun lhe propôs
que desistissem de lutar, ele recusou, pois estava tão determinado quanto o seu
adversário a cumprir o seu papel. Não havia como mudar o resultado daquela
batalha e, sentindo-se mais triste, Shun o segurou nos braços.
“Escute, Andrômeda. Se você não se tornar frio o bastante para
acabar com o seu inimigo, cedo ou tarde você morrerá. Não se esqueça...”
“Scylla!”
Io observou a expressão de Shun. Aquele homem havia lhe vencido, mas
estranhamente ele estava feliz. Sentiu a esperança renovada dentro de si depois
de tanto tempo. Sentiu uma vida se completar, embora de uma maneira inesperada.
Ilha
de San Felix – 10 anos atrás.
Os pés do garoto cruzavam agilmente o terreno rochoso a medida em que
procurava uma maneira de se camuflar na imensidão da paisagem. Já não se
podia dizer ao certo em que caminho viera e provavelmente ficaria perdido por um
tempo considerável. Porém isso era irrelevante no momento dado à urgência.
Sentia seus músculos amolecerem e várias pedras arranharem-lhe as
pernas na descida que rigidamente formava quase um ângulo de sessenta graus.
Necessitava parar para se recuperar, mas uma voz que o seguia não permitia:
“Andres! Onde está?!”
A voz ecoava nas rochas de maneira desafinada, bem conhecida de Andres.
Seu pai estava constantemente mergulhado em bebida, perdendo muitas vezes o
controle mental e liberando toda a sua revolta e agressividade com a vida.
Andres, por ser uma criança de apenas sete anos, não tinha como se defender
dos duros golpes que sempre levava. Seu corpo estava coberto de hematomas e
feridas. Quando viu que seu pai se aproximava novamente para lhe dar outra
surra, ele saiu correndo para os rochedos que levavam à praia.
‘Está louco!’
Seu pai carregava uma garrafa quebrada, pronto para dar-lhe o pior
castigo de todos:
“Volte aqui, moleque! Eu sou o seu pai!”
A perseguição continuou por mais alguns minutos. Andres já estava no
limite de suas forças, quando escorregou em uma pedra solta, vindo a cair na
areia da praia. Somado à fatiga, seu corpo não suportava mais a dor e Andres
permaneceu deitado, a mercê de seu perseguidor.
O pai aproximou-se rindo com a garrafa empunhada:
“Hehehe, garoto teimoso! Quer escapar, só vai piorar mais as
coisas!”
E dando um duro golpe com a parte não quebrada de sua arma no ombro da
criança, a fez gemer no chão. O homem deu um passo desequilibrado para trás,
sentindo o efeito do álcool.
“Vagabundo do jeito que é, nem sua mãe gosta de você! Vai aprender a
me respeitar de vez!”
Seu golpe desta vez usava as pontas afiadas da garrafa. Sem poder se
defender, Andres se encolheu para recebê-lo.
O sangue, porém, não saiu. Uma mão firme prendera a do pai antes que o
covarde ataque fosse realizado. Um estranho homem o havia interceptado no
momento exato. Ele era alto, tinha cabelos roxos, longos e espalhafatosos. Seus
olhos eram castanhos, demonstravam uma grande determinação e a pele era
levemente morena, resultado de um intensivo treinamento na ilha de San Felix.
Vestia uma estranha armadura prateada que protegia tórax, cabeça, antebraços,
pernas e cintura. Seu capacete era estilizado com a forma de um pássaro. Das
costas, descia uma capa branca que lhe dava uma aparência onipotente.
O bêbado parou e olhou revoltado para o estranho homem, afastando a
garrafa do garoto e apontando para o intruso:
“Quem é você? Não tem que se meter nisso, sou o pai desse
moleque!”
O homem continuava com um olhar firme e sério:
“Sou o cavaleiro de Apus.”
“Mas que besteira! O que pensa que está fazendo?!”
O cavaleiro de Apus liberou um brilho branco de seu punho. Andres
observou amortecido e surpreso que o vento começava a soprar cada vez mais
forte, até que a luz do pulso transformou-se em uma bola de energia que atingiu
seu pai no estômago. Assustado com o poder que o derrubara, este gritou
desesperado e saiu correndo, esquecendo o filho.
O cavaleiro de Apus aproximou-se do menino e ofereceu-lhe a mão:
“Está tudo bem com você?”
Andres olhou para o chão e respondeu de voz baixa:
“Estou sim...”
E depois, derramando lágrimas na areia seca:
“Por quê? Por que não o matou?”
O cavaleiro se levantou e olhou para o pai fugindo desesperado:
“Não era certo. Todos os humanos cometem erros e devem ter chances de
se recuperar.”
“Ele não era humano!! Não era!! Tinha que morrer!!”
“Se ele não era humano, você também tem uma parte não humana.”
“Ou talvez eu nem seja humano...”
As lágrimas caiam descontroladas, mas o cavaleiro de Apus mantinha-se
calmo:
“Bem, pode tentar voltar para a sua mãe, quem sabe assim encontre sua
parte humana.”
O guerreiro se afastou dele, em direção a uma pequena cabana localizada
perto da curta floresta que havia na ilha. O garoto se levantou, atordoado, e
respondeu:
“Minha mãe também não é humana! Não tenho para onde voltar!!”
Os passos cessaram. Ele permaneceu imóvel por uns segundos e logo se
voltou para Andres:
“Creio que você não tem escolha, então, assim como eu. Sou Renfred,
da constelação de Apus. Um cavaleiro a serviço da deusa Athena. E você...”
“Sou Andres.”
O garoto andou com dificuldade até Renfred. Sua sorte naquele momento
estava entregue ao destino, mas ele sabia que não poderia voltar para casa.
“Andres. O treinamento para se tornar um cavaleiro é extremamente
rigoroso e perigoso. Muitos garotos já morreram nele. Não serei um mestre
bonzinho, mas estou disposto a aceitá-lo como discípulo e passar-lhe os meus
conhecimentos.”
Sem alternativa, Andres seguiu seu novo mestre até a pequena cabana,
deixando para trás a vila onde nasceu.
A partir daquele dia, ele esqueceu que existia uma vila, um pai e uma mãe
naquela ilha. Esqueceu de seus machucados e de sua própria vida. Havia apenas o
mestre e o treinamento.
“Você já caiu dessas pedras. Já se machucou nelas. Mas jamais as
venceu. Para um cavaleiro é necessário vencer os mais fortes para sobreviver.
Se quer ser um cavaleiro, vença-as.”
Compreendendo suas palavras, Andres socou a enorme e rígida rocha,
manchando-a com sangue. Seu braço tremeu no impacto doloroso, mas retrocedendo,
preparou-se imediatamente para mais um ataque. E uma nova mancha foi formada na
pedra.
“Não posso quebrar isso com as mãos. Elas vão se quebrar antes.”
“Não se você souber golpear. Sua mão é feita de ossos e carne. Ela
com certeza não é páreo para uma rocha dessas, mas um cavaleiro demonstra o
seu valor através do espírito. Todos os nossos espíritos têm ligações
vitais com o Universo, a fonte de tudo. O Cosmos e as estrelas nos regem. Não
limite as suas forças à simples e frágil terra. Busque a força na origem de
sua vida, nos seus motivos. Tente fazer pensando nisso.”
Andres abaixou os braços:
“Não dá.”
“Por que não, Andres? É necessário para se tornar um cavaleiro.”
“Disse para buscar a força na minha vida e nos meus motivos. Mas eu não
os tenho. Posso viver, mas não tenho motivos para me tornar um cavaleiro ou
para continuar vivendo.”
Renfred cruzou os braços, sério:
“Se não tem, deve morrer. Não posso perder meu precioso tempo com um
covarde que não se preocupa nem em procurar uma razão de viver. Os cavaleiros
de Athena devem conhecer os verdadeiros princípios da vida para defendê-la. Se
não os conhece, não merece ser um cavaleiro, não importa o quanto fique
forte.”
E assumindo uma posição de ataque:
“Se não tem motivos, morra agora.”
Renfred acendeu o cosmos e uma forte corrente de ar circundou o seu
corpo. Andres logo notou que se tratava da mesma técnica usada para derrubar
seu pai. O cavaleiro estendeu o braço em sua direção, concentrando uma bola
de cosmos na palma da mão.
Sabendo que não teria como escapar do ataque, o pupilo posicionou seus
braços a sua frente para amenizar os efeitos. A força do golpe o fez voar
longe, vindo a colidir com a parede de um rochedo. O sangue chegou à garganta,
trazendo-lhe medo e desespero antes de desmaiar.
“Está acordado?”
Andres tentou virar o corpo na cama, mas sentiu uma forte dor no local em
que a bola de cosmos o atingiu, e pôde apenas olhar para seu mestre, que estava
sentado à mesa, se alimentando.
“Por que não me matou?”
“Porque você não queria. Se quisesse realmente morrer, não teria se
protegido.”
Já era de noite. Mestre e aluno podiam identificar o som de uma coruja
entre as árvores da pequena floresta. A ilha de San Felix, apesar de ser
dominada pelos extensos rochedos da praia, possuía uma pequena faixa de
floresta, o local favorito de Renfred.
O garoto procurou a ferida sob a camisa e percebeu que havia um curativo
sobre o local. Olhou para o mestre, que continuava saboreando seu jantar
silenciosamente e buscou com os olhos a caixa de primeiros socorros fora do
local. Sentiu um calafrio quando a encontrou.
Desde que iniciou o treinamento, Renfred jamais demonstrou nenhum sinal
de afeto ou de cuidado para com o discípulo. Era a primeira vez depois de um
ano que Andres foi levado para a cabana e teve seus ferimentos tratados.
Renfred terminou a refeição e pôs o prato sujo em uma bacia com água.
Depois se sentou em sua cama, pegando um livro na cabeceira.
“Deve existir um motivo para você não morrer. Talvez não tenha ainda
notado, mas aqueles que desejam viver são levados pelo vento. Como você faz
agora. Você não pode morrer, Andres. Não até entender porque nasceu.”
O cavaleiro voltou-se ao livro. Andres aconchegou-se na cama, pensativo.
Seu mestre havia lhe dito para procurar uma razão para viver, mas depois de um
ano, ele não fazia a menor idéia de por que Renfred vivia.
Durante o primeiro ano de treinamento, Andres de alguma forma percebeu
que o caminho que percorria era o certo. Apesar de estar até mais machucado do
que quando era surrado pelos pais, não havia mais a pressão e o medo. Apenas o
treinamento. Renfred era rigoroso tal como disse, mas não existia maldade em
seus golpes. Depois de ter sido tratado pelo mestre, Andres passou a ter um
respeito e uma admiração muito maiores por ele. Com tantas mudanças, o ano
pareceu durar dez vezes mais e sua vida de tortura estava logo esquecida.
Praticava novamente nas pedras, embora sem sucesso. Não havia nenhum
sinal de cosmos e ele não sabia como despertar algo que parecia ser mais um
truque de mágica. Vendo o sangue escorrer no braço, decidiu dar uma breve
pausa, aproveitando que o mestre estava temporariamente ausente. Pegou um pano
úmido e limpou os machucados do pulso.
“Andres.”
O garoto não precisou virar. A voz era reconhecida. Seu corpo estremeceu
com o chamado. Sentindo que aquele homem não era mais do que uma triste lembrança,
Andres o encarou sem medo:
“Pai.”
O homem voltava de farrapos, sujo e novamente bêbado:
“Meu filho, você tem idéia do que sua mãe e eu temos passado?
Precisa voltar!”
“Não, pai, não posso. Agora sou discípulo do cavaleiro de Apus. Devo
continuar o meu treinamento.”
O homem explodiu de raiva, tentando dar socos embriagados no ar:
“Que treinamento o quê! Esse cavaleiro de Apus é um criminoso, isso
sim! Ele roubou você de mim! Você é meu filho!”
Andres não demonstrava nenhum sentimento de surpresa com a ação do
pai. Muito pelo contrário: olhava-o com desprezo.
“Não ouse falar assim de meu mestre. Ele é bom comigo, ao contrário
de você, que sempre me batia. Por que não volta pra mamãe? Ela ama você mais
do que eu.”
“Aquela vadia me abandonou!!”
O pai bebeu o resto que havia da garrafa que trazia e depois limpou a
boca na manga da camisa:
“Ela fugiu com outro homem! Vê se pode! Fica impressionada com
qualquer riquinho americano que aparece na ilha! Vagabunda!! Você é o único
que me resta, Andres! Volte para casa comigo!!”
“Para ter alguém em quem descontar sua raiva. Eu não vou. Meu mestre
deu-lhe uma segunda chance, mas não soube aproveitar. Contudo, eu não sou meu
mestre. Não vou voltar. Está atrapalhando o meu treinamento!”
O homem se irritou e pegou uma pedra próxima. Porém suas ameaças não
mais assustavam Andres, que apesar de ainda não ter despertado o cosmos, já não
tinha mais medo de enfrentar os obstáculos. O bêbado atirou a pedra com força,
mas ele conseguiu desviar pelo lado.
Vendo que o ataque tinha sido inútil, o pai desistiu de usar armas e
partiu para socar o garoto. Este pôde resistir por um tempo, mas por não ter
uma força sobrenatural, acabou cedendo aos golpes.
“Hahaha, moleque idiota! Vai aprender a me obedecer! Onde está o seu
precioso treinamento?! Hahaha!”
Um soco fez o sangue escorrer da cabeça de Andres, que ficou enfezado:
“Se tem alguém aqui que vai obedecer, este alguém é você! Não é o
meu pai! Nunca foi! Me deixe em paz!!!”
Dizendo isso, Andres concentrou toda a sua força no punho direito. Uma
luz branca surgiu e ele percebeu que enfim tinha seu cosmos despertado. O golpe
fez o homem cair para trás, agonizante. Ele lhe estendia a mão, desesperado:
“Andres, filho, por favor, me ajude! Eu te amo, filho!”
O sangue espalhava-se rapidamente sobre sua face e Andres apenas o
observou impiedosamente até que perdesse todos os sinais de vida. Respondeu com
sarcasmo aos apelos do pai:
“Eu também te amo, pai.”
Andres virou-se e foi procurar um outro lugar para treinar. Renfred
cruzou o seu caminho, friamente:
“Você é como Io.”
“O que quer dizer, mestre? Quem é Io?”
“O ser humano que foi transformado em animal pelos deuses. Não perde
seu lado humano, mas também possui os instintos do animal.”
“Diga-me, mestre, é algum tipo de castigo?”
“Não. É uma desgraça. Mas há um jeito de voltar.”
“E como é?”
“Encontrando a verdadeira justiça.”
O cavaleiro de Apus deu meia volta e se afastou.
“Mestre! Eu despertei o meu cosmos!”
“Eu sei. Só resta saber se você vai saber utilizá-lo.”
Antes de ver seu mestre desaparecer na floresta, onde sempre meditava,
respondeu:
“Se sou como Io, serei Io, mestre Renfred!! Serei até que
descubra!!”
A partir daquele dia, ele assumiu sua primeira e verdadeira razão de
viver. Deixou de ser Andres e a passou a ser Io. Não havia mais nele o homem
valoroso. Apenas Io.
Io continuou treinando na ilha de San Felix com seu mestre por mais sete
anos. A cada dia que melhorava e fortalecia o seu cosmos, ficava mais ávido
para conhecer a justiça verdadeira. Lutaria
para tê-la.
Apesar de ter feito do discípulo um grande guerreiro, Renfred não lhe
ensinou nenhuma técnica que trouxesse um estilo de luta próprio. Não parecia
desejar dividir seu poder de controlar os ares com ele. Sabia que em breve teria
que viajar para o Santuário, e que sua vida, a partir de então, não estaria
mais garantida, mas não acreditava que Io estivesse preparado para herdar seus
poderes.
Desde que se tornara um guerreiro de Athena, Apus sempre esteve fiel ao
Santuário dos cavaleiros de Athena e jamais recusou as missões que lhe eram
confiadas. Todos os seus trabalhos foram realizados de maneira eficiente e rápida.
Mas agora ele não conseguia mais aceitar. O mestre do Santuário mandara-lhe
que fosse até as Cinco Montanhas Antigas falar com o Mestre Ancião para que
ele regressasse ao Santuário. A mensagem era bastante clara: ele devia usar a
força para conseguir cumprir o objetivo.
Renfred não queria aceitar tal missão. Muitos cavaleiros estiveram na
China e em Jamir buscando os dois cavaleiros de ouro que se recusavam a obedecer
ao Santuário. Porém ele conhecia o Mestre Ancião. Este sempre foi um dos
cavaleiros mais fiéis a Athena e seu caráter representava perfeitamente a
constelação: Libra. O cavaleiro que representaria a Justiça. Apus também
conhecia o passado do velho cavaleiro: ele fez parte da última geração de
cavaleiros de Athena há mais de duzentos anos. Como poderia um homem como este
ser um traidor do Santuário?
O guerreiro, portanto, tomou uma importante decisão: iria ao Santuário
perguntar ao mestre. A viagem duraria alguns dias, mas não influiria no
treinamento de Io, que a esta altura treinava até mesmo quanto tinha tempo
livre. Dessa forma, Renfred tomou o primeiro navio do dia seguinte.
Como o previsto, Io não se incomodou com a viagem de seu mestre. Este
havia lhe ensinado tanto nos últimos anos que o pupilo estava-lhe muito grato.
Fazia alguns anos que Io parara de treinar com as pedras e passou a enfrentar o
mar. Como as pedras já haviam cedido à força do aprendiz há muito tempo, ele
agora haveria de vencer o mar.
Atirava seus golpes na praia, abrindo enormes caminhos com seu cosmos nas
águas. Outros se dirigiam ao fundo do mar, criando até uma forte sucção na
superfície devido a sua excepcional velocidade. Mas apesar de ser forte, Io
sentia que ainda não era o suficiente.
Naquele dia, porém, ele não treinou no mar. Seu mestre voltava em um
navio que desembarcaria na ilha de San Felix e, para não atrapalhar as águas
do local, passou a treinar com os golpes no ar. Sentia que conseguia movimentar
uma grande massa de ar, mas comparado com o seu mestre, era consideravelmente
fraco.
“Muito bem, Io!”
Renfred acabara de chegar e observava o exercício do aluno:
“Melhorou muito, seus golpes são muito velozes e precisos. Está
vencendo o ar e em breve poderá controlá-lo.”
Io ficou intrigado com seu mestre. Renfred exibia um sorriso que
transmitia calma e orgulho. Seus olhos, no entanto, pareciam muito diferentes
daqueles com que Io conviveu durante os últimos oito anos. Pareciam tristes.
“Mestre Renfred... Alguma coisa errada?”
“Não, Io, nada... Estou impressionado. Agora que conseguiu desenvolver
tamanha força, tente usá-la para controlar o ar e transformá-lo em um
importante aliado.”
“Como farei isso, mestre?”
“Posso lhe ensinar... Se me fizer uma promessa.”
Se o comportamento de Renfred já deixava o aluno intrigado, o estranho
pedido intensificou esse sentimento.
“Promessa, mestre? Que promessa é essa?”
“Prometa-me que... Não importa o que aconteça, não irá confiar
plenamente no Santuário dos cavaleiros de Athena até que a verdadeira justiça
seja lá restaurada.”
“Por quê, mestre? O que houve no Santuário?”
Ignorando a pergunta, Renfred invocou o cosmos. O ar começou a se
movimentar rapidamente em torno dele.
“Tente me atacar, vamos. Pode vir com toda a força.”
Io reuniu todo o seu cosmos para o ataque. Sabia que seu mestre era forte
o suficiente para agüentar qualquer golpe. Iniciou uma corrida em sua direção,
aumentando progressivamente a velocidade. O punho atravessou o ar com rapidez em
direção ao tórax de Renfred.
Mas não o atingiu.
“O quê?!”
Seu soco foi detido pela corrente de ar produzida pelo mestre. O ar em
sua volta também se movimentava, transformando-se em um feroz turbilhão que o
atirou para longe.
“Quanto maior é o cosmos, mais veloz é o turbilhão e mais violentos
são os seus efeitos. Este é o verdadeiro poder dos cavaleiros, Io, o cosmos.
Se você não tiver um poderoso, não poderá sobreviver por muito tempo. Você
tem um cosmos bem desenvolvido, faça-o movimentar o ar a sua volta!”
Apesar de machucado, Io se levantou. Fechou os olhos e invocou o cosmos,
buscando total concentração.
“Concentre-se no seu entorno. O ar é um elemento tão resistente
quanto a água, mas a vantagem é que ele estará em todo lugar. Torne-se seu
mestre e use a força da natureza para derrotar o inimigo.”
Io expandiu seu cosmos e sentiu o ar em sua volta adquirir força. Uma
corrente de ar envolveu seu corpo, circundando-o como se o protegesse. O esforço
foi demasiado, e Io interrompeu o processo, cansado.
“Se concentrar essa força em seus punhos, poderá criar um golpe mais
poderoso. Continue treinando, Io. Agora, vou para casa, a viagem foi
exaustiva.”
Renfred pegou sua mala e caminhou para a cabana. Io seguiu-o com os
olhos, em silêncio. Seu mestre aparentava mais preocupado que o normal. Uma
prova disso era o fato de ele estar disposto a ensinar-lhe suas técnicas
especiais. Ele jamais se mostrou interessado em torná-lo seu sucessor, porém a
viagem ao Santuário mudou tudo. O que teria acontecido lá?
Preocupado, Io deixou o treinamento e foi atrás do cavaleiro.
Renfred entrou na cabana e atirou a mala longe. Bebeu um copo d’água
de uma só vez, mas sentiu tontura e sentou-se na cama.
Io entrou lentamente no quarto.
“Mestre? Está tudo bem?”
O cavaleiro permaneceu na mesma posição, com a mão cobrindo a testa,
sentindo dores:
“Está. É só um pouco de dor de cabeça. Vou descansar um pouco e
logo estarei bem.”
Io se retirou da cabana, fechando a porta. Quem sabe um descanso fosse
realmente o que ele precisava.
“Certo, mestre.”
Talvez não tivesse idéia do que havia acontecido no Santuário, mas Io
tinha a certeza de que manter a promessa ao seu mestre era necessário. O que
ele não sabia era que o cavaleiro de Apus acabara de ser considerado um traidor
do Santuário. Havia escapado por sorte do Golpe Satânico do mestre e agora
sofria com alguns efeitos deste.
O aluno voltou para o local do treinamento, acendeu seu cosmos e observou
o punho brilhante. Haveria de acumular a força dos ventos em seu golpe para
formar a sua técnica especial. Dessa maneira, descobriria a verdadeira força
dos cavaleiros de Athena.
Concentrando o cosmos no punho, fez surgir uma corrente de ar em torno do
braço e olhou para uma rocha que possuía o tamanho adequado para o teste. Um
golpe saiu veloz, acompanhado de uma forte ventania, e destruiu o alvo por
completo. Io se surpreendeu: apesar de ter reduzido bastante a força aplicada
no ataque, o pequeno turbilhão formado auxiliou o seu poder destrutivo.
“Então este é o verdadeiro poder dos cavaleiros. Agora estou
preparado para enfrentar qualquer destino.”
Empolgado com a nova técnica, ele continuou o treinamento até a noite.
Quando retornou para casa, percebeu que Renfred ainda dormia. Foi quando o
pensamento de que seu mestre estivesse cansado por ter travado alguma batalha
mortal no Santuário cruzou sua mente. Embora ele estivesse aparentemente ileso,
dificilmente ficava tão exausto.
“Io... Já voltou?”
Renfred virou-se na cama para fitar o discípulo.
“Não se esforce, mestre. Não sei o que houve com o senhor no Santuário,
mas acredito que não foi coisa boa.”
“O Santuário está mudando. E eu já escolhi o caminho que acho ser
certo. Como tenho feito há muito tempo.”
“Não entendo, mestre...”
O mestre sorriu e perdeu a visão no espaço vazio:
“Em breve deixaremos de ser mestre e pupilo e eu nunca lhe contei nada
sobre mim, apesar de conhecê-lo por completo. Minha irmã caçula foi morta
nesta ilha há doze anos. Eu tinha quinze anos na época. Ela foi morta por um
dos militares, que estava tão bêbado quanto o seu pai.”
Io demonstrava surpresa com a revelação. Sentou-se numa cadeira ao lado
da cama:
“Mas mestre, se o senhor já sofreu essa tristeza e provavelmente
raiva, por que disse que meu pai merecia uma segunda chance? Não consigo
compreender...”
“Porque eu o matei. Na época havia acabado de me tornar um cavaleiro.
Quando a encontrei morta, assassinei o homem com o turbilhão. E assumi as
conseqüências. Esse militar tinha uma esposa e dois filhos. A mulher me
procurou no dia seguinte e me disse entre lágrimas que eu havia destruído uma
família inteira com aquele ato impensado. Sabe, Io, apesar de ter acabado com a
vida de minha irmã, ele era um marido e pai atencioso. Então eu me perguntei:
onde estaria a verdadeira justiça deste mundo?”
“Mestre, então você também...”
“Sim. Depois do incidente, passei a dedicar grande parte de meu tempo
meditando sobre isso. Porém, fui descobrir a verdadeira justiça apenas quando
entrei em um campo de batalha, onde minha vida foi testada ao limite. E isso é
algo que você só poderá descobrir quando passar por uma situação
semelhante.”
Naquele momento, Io percebeu que as ligações que Renfred tinha com ele
não se resumiam a apenas uma instrução para se tornar um cavaleiro. Essa
provavelmente era a razão de ele ter lhe ensinado sua técnica especial. Era
uma herança que passava de pai para filho, um bem sagrado de inigualável
valor.
Io sorriu e se levantou:
“Entendi. Muito obrigado por me contar isso, mestre. Prometo que não
vou decepcioná-lo.”
Ao ouvir isso, Renfred também sorriu. Ele sempre foi respeitado como um
mestre deveria ser, mesmo sendo Io um discípulo muito orgulhoso. Agora não ia
demorar muito.
“Io,
acho que chegou a hora.”
“Hora? Do quê, mestre?”
“De se tornar um cavaleiro de Athena, pupilo. Você deve partir para
buscar a sua armadura e constelação. Está mais do que preparado. Athena
precisa de uma força como a sua para manter a paz na Terra.”
“Devo partir em breve, mestre?”
“Quanto mais cedo, melhor.”
Io sabia o que aquilo significava. Era hora deixar de ser dependente do
mestre e jogar-se novamente ao destino, desta vez, sozinho. Deixariam de ser
mestre e pupilo para serem parte de um mesmo grupo: o dos cavaleiros de Athena.
Subitamente,
o aprendiz olhou para uma outra direção, desconfiado. Mal pôde se mover para
desviar, sentiu seu corpo ser jogado violentamente contra a mesa, quebrando-a.
Tentou permanecer acordado, mas não conseguiu resistir à perda temporária dos
sentidos. Um enorme estouro fora o responsável disso, quando o choque de ar
fizera os tijolos da construção voarem sobre o rapaz.
O mestre saltou imediatamente da cama e chamou sua armadura de Apus, que
o cobriu em poucos segundos. Sabia que esta seria uma das piores batalhas de sua
vida.
“Você é o assassino do Santuário!”
“É isso mesmo. E vim acabar com a sua vida.”
O inimigo de Renfred era um cavaleiro que vestia uma armadura dourada. O
cavaleiro de Apus logo percebeu: estava diante de um dos mais poderosos
servidores do Santuário.
“Você é um cavaleiro de ouro, não é mesmo? O Leão Aiolia!”
“Exato. E você é o cavaleiro de Apus, traidor do Santuário!”
“Eu sou um cavaleiro que serve à justiça!”
“Se servisse à justiça, não teria traído o Santuário! Você tentou
atacar o grande mestre e terá que pagar por seus atos com a morte!”
“Se existe um grande mestre neste mundo, ele só pode ser o Mestre Ancião
que mora na China, ninguém mais! Não estou traindo Athena, estou fazendo o que
acho ser certo como cavaleiro que a serve!”
“Ele também está desrespeitando o Santuário! Deve entender que está
acabado! Agora não há meios de escapar do Leão!”
Um brilho dourado surgiu em volta de Aiolia. Ele segurava uma bola de luz
na mão direita, pronta para a explosão:
“Cápsula do Poder!”
O poderoso golpe não pôde ser detido pela força de Renfred, que é um
cavaleiro de prata. Ele foi atingido no estômago e sentiu uma imensa dor ao ser
jogado contra a outra parede da cabana, destruindo-a também. Io acordou e viu
aterrorizado o sangue de seu mestre manchar o piso ao seu lado.
“Mestre!”
Ele se levantou e correu para ajudá-lo, mas Renfred conseguiu se
levantar a tempo:
“Saia daqui, Io!!”
O cosmos de Renfred espalhou-se rapidamente no ambiente:
“Grande Tornado!!”
Porém não foi Aiolia o atingido pelo ataque. O tornado captura Io em
sua forte corrente de ar, atirando-o para longe.
“Não, mestre!! Aaaahhhhh!!”
Renfred observou seu discípulo se afastar o suficiente. Sentiu pena, mas
era o melhor a fazer. ‘Tenho certeza de que sairá vivo deste ataque, Io, você
é mais forte do que pensa. No entanto, não posso deixar que se arrisque numa
luta que comecei sozinho. Você ainda não pode morrer, não pode! Adeus,
pupilo...’
E olhando determinado para Aiolia, lembrou-se de ter experimentado o
cosmos do velho cavaleiro da China uma vez. Sentiu que ele era mais profundo e
misterioso do que os demais cosmos. Era uma energia diferente, tão nobre que
apenas um verdadeiro cavaleiro poderia possuir. Mas agora ele sentia que essa
mesma energia residia no cosmos de Aiolia.
“Cavaleiro de Leão. Não posso odiá-lo e nem matá-lo. Porque sei que
não tem nenhuma intenção maléfica em seus atos. É mais forte que eu, porém
não sabe as mesmas coisas. Sei que estou lutando por uma boa causa e acredito
que apenas Athena pessoalmente poderá me fazer mudar de idéia.”
“Sei meu lugar e minha posição! Quem poderia ser superior a um
cavaleiro de ouro a não ser o mestre e Athena? Você só deseja vê-la para
fazer-lhe algum mal, eu sei! Não adianta tentar me persuadir!”
“Não estou pedindo para vê-la. Quero que entenda... Não quero fazer
nenhum mal ao Santuário. Esta luta será inútil se você não entender a minha
posição.”
“Sua posição é uma prova de traição e deve ser punida.”
“Se não consegue entender, não tenho outra escolha a não ser
lutar!”
“Não tem nenhuma chance. Desista. Nós, os cavaleiros de ouro, temos o
sétimo sentido e podemos nos movimentar à velocidade da luz.”
Renfred parou ao ouvir as palavras do Leão. ‘Sétimo sentido?’
Aiolia puxou o punho para trás, aumentando o seu poder mais uma vez:
“Cápsula do Poder!!”
O ataque pegou o cavaleiro de Apus desprevenido e o derrubou. Porém
Renfred conseguiu se proteger parcialmente do golpe. Sua mente rodava com os
semi-efeitos do Golpe Satânico e as palavras de Aiolia. Sétimo sentido! Essa
era a energia que o Mestre Ancião tinha! Ela parecia transcender qualquer
barreira do corpo físico e entrar em completa harmonia com o Universo! Era a
mesma energia de Aiolia!
‘Se eu pudesse despertar essa energia...’
Renfred se levanta com dificuldade. Aiolia assumiu novamente uma postura
de batalha:
“O próximo golpe não vou errar.”
O cavaleiro de Apus não deu ouvidos ao cavaleiro de Leão. Começou a
concentrar todo o seu cosmos em seu corpo, mas sentiu que ainda não era o
suficiente. Procurou esquecer a terra, a água e o ar. Esqueceu que ele pisava
sobre uma terra, que as ondas quase lhe tocavam os pés, que o seu poderoso
aliado ar continuava protegendo-o. Viu que havia um pedaço de sua vida que
ainda não tinha sido explorada. Uma última chama que queimava desde o início
de sua vida, muito antes de treinar Io, de começar o seu treinamento de
cavaleiro ou de conhecer sua irmã e seus pais. Era o sétimo sentido.
Renfred queimou esta última chama e sentiu-se na linha entre a vida e a
morte. Pensou no pupilo e desejou viver. Num ímpeto, explodiu toda a sua
energia:
“Grande Tornado!!”
Aiolia não esperou que fosse atingido. Revidou com toda a sua força:
“Cápsula do Poder!!”
Os dois poderes bateram-se de frente. Os cavaleiros perceberam que eram
iguais e interromperam os ataques, que se desfizeram no ar. Porém, quando
Aiolia recuperou novamente seu campo de visão, não encontrou Renfred em lugar
nenhum.
“Estou aqui.”
A mão estava encostada na nuca do cavaleiro de ouro, pronta para
decepar-lhe a cabeça. Renfred, sério, observava atentamente o seu inimigo para
que este não tentasse qualquer truque. Percebendo o vacilo, Aiolia fechou os
olhos:
“Você venceu. Conseguiu o impossível, despertar o sétimo sentido.
Pode acabar comigo.”
Renfred afastou a mão de Aiolia e caminhou até parar a sua frente:
“Não é do meu feitio. Você veio atrás de minha vida. E eu tive o
poder de tomar a sua. Creio que dessa forma não poderá me matar, pois sei que
é um guerreiro honrado. Isso já me satisfaz. Vamos fazer o seguinte: pretendo
voltar ao Santuário quando acreditar que a justiça lá estiver reinando. Até
então não me manifestarei, nem a favor, nem contra. Pode dizer ao mestre que
acabou comigo. Se puder, faça-o a Io, meu discípulo, também. Estaremos
fazendo favor um ao outro.”
Aiolia refletiu por uns instantes:
“Está bem. Desde que não se atreva a atacar novamente o Santuário, não
me colocarei em seu caminho. A partir de agora, aconselho que se cuide, pois é
um homem morto.”
O cavaleiro de Apus não respondeu, dirigiu-se para a pequena floresta e
sumiu novamente. Mas desta vez não voltaria mais.
Io acordou do outro lado da ilha. Havia conseguido escapar do golpe de
seu mestre despertando um poder da mesma natureza, ou seja: um Grande Tornado
mais fraco. As pessoas da vila fitavam-no curiosas e temerosas ao mesmo tempo.
Ignorando-as, ele pulou e saiu correndo para reencontrar o seu mestre.
“Mestre Renfred!! Estou indo!”
Porém, ao chegar à praia, encontrou apenas os vestígios de uma feroz
luta e o cavaleiro de ouro observando tranqüilamente o mar.
“Onde está o meu mestre?! O que fez com ele?!”
Aiolia respondeu como se fosse uma notícia sem a menor importância:
“Está morto. Seu corpo se desintegrou.”
Num ataque de fúria, o discípulo avançou sobre o cavaleiro de ouro.
Aiolia levantou o braço em sua direção, emitindo um cosmos e o imobilizando.
“O que está acontecendo?! Meu corpo...”
“Não pode me derrotar. Seu mestre morreu, ele entrou num desafio maior
que sua capacidade. Você é o seu pupilo, mas não tem nenhum vínculo com o
Santuário. Sugiro que aceite a morte de seu mestre sem tentar entrar em uma
missão suicida. Mesmo sendo eu um inimigo, tenho certeza de que concorda que
seu mestre não gostaria que você fizesse isso apenas por motivos pessoais.
Nenhum cavaleiro de Athena o faria.”
Depois de oito anos sem derramar lágrimas, Io sentiu seus olhos
liberarem-nas, sem controle:
“Ele morreu fazendo o que achava ser certo, maldito!!
O Santuário fez alguma coisa com ele! Vocês, cavaleiros miseráveis do
Santuário, o mataram sem nenhuma razão! Vou acabar com todos vocês!”
Aiolia começou a se afastar, mas Io não podia segui-lo, pois continuava
sob a ação do cosmos do cavaleiro.
“Acho bom não dizer mais essas palavras sem pensar. Se o fizesse no
Santuário, não teria como vingar a morte de seu mestre. Seu nome é Io, não?
Combina bem com você. Desista dessa idéia louca e tente viver para a justiça..
como um cavaleiro de Athena.”
“E como você pode falar sobre justiça numa hora dessas! Você acabou
de matar um homem justo!!”
“Isso eu não duvido. Não pode imaginar o quão surpreso eu fiquei
quando ele quis poupar a minha vida.”
“O que está dizendo?!”
“Estou elogiando o seu mestre. Ele realmente era um homem honrado.”
Io calou-se. Sua raiva era tanta que não podia mais ser expressa em
palavras. Aiolia sumiu de vista e seu corpo foi libertado do poder. Ele caiu no
chão de quatro e pensou em seguir o cavaleiro de ouro. Mas sabia que seria inútil.
A fúria transbordava em sua alma, como no dia em que matou seu próprio pai, e
ele lembrou-se das palavras de seu mestre: ‘O ser humano que foi transformado
em animal pelos deuses. Não perde seu lado humano, mas também possui os
instintos do animal...’
Um animal... Sim, ele estava agindo como um animal. Não pensava, mas
agia seguindo os sentimentos humanos imprudentemente. Porém seu mestre foi
tentar ser humano e foi morto impiedosamente. Por um cavaleiro de Athena. Os
cavaleiros que seu mestre tanto lhe falava eram assim? Por que ele, que era tão
justo e nobre, fora tachado de traidor pelo Santuário de Athena? Io então
assumiu outra grande certeza de sua vida: jamais se tornaria um cavaleiro de
Athena. Deixou que as lágrimas corressem livremente. A dor vencia a raiva e ele
apenas pôs-se a lamentar a morte de seu único e verdadeiro pai.
“É lamentável o que ele acabou de fazer.”
Io olhou para trás para descobrir o dono da voz. Um homem vestindo uma
armadura também dourada observava-o. Ele tinha cabelos longos e azuis e aparência
de cavaleiro. O aprendiz de cavaleiro se levantou, assumindo postura de batalha:
“Não vai me enganar! É um outro cavaleiro de Athena!”
O homem continuou com uma expressão tranqüila, enquanto exibia um
sorriso maléfico:
“Não, eu não sou um cavaleiro de Athena. Sou um general marina.”
“O quê?”
“Um general marina. Um dos sete principais guerreiros que servem o deus
Poseidon. Eu sou o Dragão Marinho.”
“Guerreiro de Poseidon? Não pode ser, está mentindo... isso que está
vestindo é uma armadura de ouro, não?”
Kanon percebeu o olhar confuso do rapaz e teve a certeza de que havia
conseguido mais um aliado:
“Não, são escamas. São armaduras totalmente diferentes das dos
cavaleiros de Athena. Se quiser eu posso provar-lhe. Acompanhe-me até o reino
de Poseidon e verá que não estou mentindo.”
Por uns instantes, Io hesitou, mas logo percebeu que não tinha nada a
perder. A vida? Ela já tinha sido destruída quase por completo, que diferença
faria? Decidido, ele se acalmou e se aproximou de Kanon, que parecia satisfeito.
Este pegou seu braço e pulou na água.
“Ei, o que está fazendo?!”
“Confie em mim! Prenda a respiração!”
Foi tudo que Io ouviu antes que mergulhassem em direção ao fundo.
Depois de um tempo, ele acabou desmaiando. Kanon procurava ir o mais depressa
possível para não afogar o rapaz. ‘Meu rapaz, você fez enormes buracos no
fundo do mar quando estava treinando. Quero que use essa força para me ajudar a
conquistar o mundo!’
Io despertou em um estranho lugar, confuso. Observava o entorno,
completamente diferente da ilha de San Felix. Viu corais e plantas aquáticas a
sua volta, mas não havia água. Sentiu que o ar estava mais úmido e procurou
por nuvens no céu... Mas não as encontrou. No lugar havia uma espécie de teto
azul, parecido com o céu e formado de água.
“Mas... O que é isso? O que a água faz lá? Estarei realmente no
reino de Poseidon?”
Olhou para frente e percebeu uma gigantesca construção. Um enorme pilar
que ligava o chão ao céu de água.
“Pa... Parece que este pilar.. está segurando todo o mar...”
“Corretíssimo, garoto. Este é o pilar do Pacífico Sul, o mar onde
sua ilha, San Felix, está localizada.”
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