Vida de Espectro Não é Fácil

 

 

            Entre todos os deveres no Inferno, o julgamento era o que o espectro Radamanthys mais detestava. Simplesmente porque era o mais chato. Enquanto os outros espectros se divertiam torturando mortos e lutando, ele precisava ficar ali no Salão da Justiça, atendendo mortos chatos e perdidos. Sempre aparecia um que insistia em ir para o Elísios, quando na verdade deveria ir para uma tortura. Naquele dia, porém, a história foi um pouco diferente.

            “Qual o seu nome?”

            “Lino.”

            “Vejamos... Puxa, vejo que tem uma ficha perfeitamente limpa. Poderá ir para o Elísios.”

            “Como?! Eu não quero ir para lá! É muito chato! Eu quero ir para um dos infernos!”

            “Mas você é uma pessoa boa!”

            “E daí? Eu não quero ir para lá e pronto.”

            “Escute... Você é um escolhido entre os deuses! Viverá em paz nos campos elísios!”

            “Mas eu quero ir para o inferno!! Lá é mais legal! Eu não quero ficar nos campos elísios, ouvindo harpinha de deus nenhum! Eu quero aventura! Emoção!”

            “Você já teve chance de fazer isso em vida, Lino! Escute bem: você está morto!!”

            “E acha que eu não sei? Só porque nunca fiz nada de errado, tenho cara de retardado pra você? Escute, senhor juiz, sei muito bem do que estou falando! Eu quero ir para um dos infernos!”

            “Mas no inferno você sofrerá eternamente! Tem noção disso? Vai sofrer! Sentir dor!”

            O homem suspirou fundo. Aquele juiz não o estava levando a sério.

            “Olhe, eu sei que vou ser torturado eternamente! Sei que vou sentir dor! Mas eu quero ir para o inferno! Eu sempre quis ir para lá!”

            “Então por que nunca fez nada de errado? Se amassasse um simples inseto ou arrancasse uma flor, já teria sua passagem para um dos infernos!”

            “Ora, isso é uma injustiça! Como pode um juiz, que deveria zelar pela justiça, dizer algo tão hediondo?! Por acaso acha que eu tenho o direito de destruir a vida de uma bela flor? Ou de assassinar um pobre inseto, que só quer se alimentar de uma gota do meu sangue? Eles não têm nada a ver com isso!”

            Radamanthys estava prestes a socar o bom homem. Mas decidiu que aquele caso devia ser tratado devidamente com os demais juízes do Inferno. Gritou:

            “Marukino!!”

            O guarda surgiu, obediente:

            “Sim, senhor Radamanthys...”

            “Procure Aiacos e Minos e peça-lhes que venham para cá imediatamente.”

            Marukino, sempre eficiente em seu trabalho como guarda do salão da Justiça, logo trouxe Minos e Aiacos, emburrados:

            “Radamanthys, você acaba de interromper um treinamento importante. É bom que tenha um bom motivo para nos trazer aqui ou senão ficará como juiz por um ano inteiro sem descanso!”

            “Não tentem me ameaçar vocês dois, pois sabem que eu sou o mais poderoso entre nós. Mas este é um caso em que peço a participação dos três juízes. Este homem, cujo nome é Lino, deve ir aos campos Elísios, mas deseja ir para um dos infernos. O que vocês acham?”

            Minos foi o primeiro a responder:

            “Ora, é claro que não pode. Este homem é evidentemente um escolhido entre os deuses! Além do mais, o inferno já está lotado de mortos! Nem sei onde botar mais!”

            “E você, Aiacos?”

            “Eu não sei... O que você acha, Radamanthys?”

            “Por mim, eu o mandaria direto pro Kérberos! Então não pioraríamos o problema de superlotagem!”

            “Mas aquele é o inferno dos condenados por avareza! Não é o lugar indicado para ele!”

            “Mas seria a mesma coisa com os outros infernos! Não acha, Aiacos?”

            Aiacos diminuiu o tom de voz, ainda indeciso:

            “Eu não sei... Não sei mesmo...”

            “Ah, por Hades! Por que tínhamos que ter um indeciso entre os três juízes?!”

            Radamanthys então olhou em volta e apontou para o guarda:

            “Marukino!! O destino deste morto está em suas mãos! Ele deve ou não deve ir para o inferno?”

            O guarda pareceu surpreso pela pergunta, mas não hesitou em responder, ao contrário de Aiacos, que continuava pensativo.

            “Bem, senhor. Se ele diz que deseja ir ao inferno, não vejo porquê não.”

            “Certo. Lino, poderá ir a um dos infernos. Mas nos diga: por que quer tanto obter o sofrimento eterno?”

            O rosto de Lino se iluminou diante da pergunta do espectro:

            “Ah, isso nem eu mesmo sei explicar direito! Mas a verdade é que quando eu morri, senti no fundo da minha alma uma voz que dizia: Lino! Vá para o inferno! E durante a viagem com o barqueiro, fiquei pensando: o inferno deve ser mesmo muito melhor que os campos elísios! Afinal, deve ter muita coisa emocionante lá!”

            “Espere aí...” Aiacos interrompeu, enquanto lia o livro dos mortos. “Tem certeza de que essa voz veio de sua alma? Porque aqui consta que você foi morto pelo amante de sua esposa... Se não me engano, foi ele quem disse ‘vá para o inferno’ para você antes de atirar... É o que diz o livro.”

            “O quê?! Minha mulher tinha um amante? Eu não acredito! Mas que galinha! Eu vou voltar! Vou voltar para a Terra e matar os dois! Você aí, guarda! Empreste a sua lança porque eu juro que vou matá-los! Vou matá-los e depois... Vou para o Elísios, sim! Eu mereço ir para lá! Porque eu sempre fui um bom homem e mereço!! Vocês mesmos disseram que eu fui um escolhido dos deuses!!”

            Neste momento, os três juízes de Hades se entreolharam e assentiram. Imediatamente, Lino caiu em um fosso do Inferno. Radamanthys, cansado, caminhou para a saída do salão:

            “E depois dizem que nós é que somos cruéis... Marukino, deixe os mortos esperando para amanhã. Estou cansado demais com essa vida de Espectro... Eu vou dormir um pouco... É isso...”

   

*FIM*

 

 

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