Viva Vivacidade!
Os campos jamais poderiam ser tão verdes. O céu jamais poderia ser tão azul. As cores jamais poderiam ser tão vivas.
Vivas...
Uma mulher de cabelos longos e negros olhou para mim e ofereceu um leve e doce sorriso. Minha.. mãe?
Sua pele era clara, levemente rosada e tão suave que nem mesmo a brisa poderia chegar à sua maciez. Os olhos, tão negros quanto os cabelos, apresentavam um brilho único. Ela era como parte da natureza que a cercava, tão integrada à paisagem quanto as lindas flores que a enfeitavam. Quem era? Seria a mãe Natureza? Poderia ser a minha mãe...
"Shiryu!"
Sua voz, que assemelhava uma melodia, soou como um carinhoso imperativo para mim. Um pouco tímido aproximei-me vagarosamente. Seu sorriso cresceu instintivamente, e ela abriu os braços para me receber. Os olhos transmitiam tamanha confiança que, mesmo não sabendo quem era essa mulher, não tive medo. Era uma atração quase inevitável.
"Venha aqui, meu filho..."
Ela me chamou de 'meu filho'? Ela era minha mãe?
Seus braços acolheram-me com calor, fazendo-me sentar em seu colo e trazendo-me para perto de seu peito. Era um sentimento inexplicável, algo que eu jamais sentira em minha vida. Era amor?
Aquilo era.. calor humano? Era como se meu corpo deixasse de existir naquele momento e ela passasse a afagar diretamente a minha alma. Era tão forte.. e tão suave... Mãe... Ela só podia ser minha mãe! Só uma mãe seria capaz de me trazer essa sensação, não seria?
Meu sorriso nasceu, assim, como minhas lágrimas. Ela segurava-me firmemente, trazendo uma segurança inédita. Vendo minhas lágrimas, enxugou-me a face com ternura, ao mesmo tempo em que afagava-me as costas. Ela era mesmo a minha mãe!
"Mãe..." por fim disse "Você é mesmo minha mãe... Você existe!"
"É claro, Shiryu... Todos tem uma mãe."
"Mas... Tenho muitos amigos que não tem mãe..."
Mamãe olhou para mim tristemente, antes de dizer:
"Eles tem sim... Assim como você e eu... Agora venha..."
Ela deitou-me em seus braços, sorrindo. Sentia-me embalar e o sono aproximar. Mas não queria dormir. Eu tinha medo de que ela não mais estivesse por perto quando eu acordasse. Queria ficar com ela para sempre!
Porém a delicadeza de minha mãe venceu. E meu medo dissipou-se. Quando acordei, percebi que não havia nada a temer. Ela estava na mesma posição. Com o mesmo calor. A mesma ternura.
"Mamãe... Ainda está aí?"
"Estou sim, Shiryu."
"Promete que nunca mais vai embora?"
"Sim, eu prometo."
Abracei-a novamente. Estava tão feliz! Sem mais orfanatos, sem mais projetos para cavaleiros, sem mais solidão! Era um paraíso!
"Shiryu... Filho.. sua mãe ama muito você... Ama muito..."
Olhei novamente para ela e vi uma lágrima escorrendo em sua face. Por que mamãe estava chorando?! Mamãe não podia chorar!
"Mamãe? Mamãe? Você está bem?"
"Shiryu... Eu amo muito você."
Não era possível! Mamãe estava desaparecendo! Seu corpo dava lugar às flores do campo! Não! Eu não as queria! Eu quero minha mãe! Ela estava se transformando em flores! Mãe!! Deixe, vento! Não as carregue! Não as carregue!!
Corri atrás, mas não a alcançava! As lágrimas atrapalhavam-me a visão! O vento se transformava em tempestade e levava as pétalas embora! Não! Elas eram a minha mãe! MAMÃE!!!
Tentei agarrá-la mas não consegui. Logo percebi minha tolice.
Era um sonho.
É claro, Shiryu! Sua mãe está morta! Como poderia imaginar que ela estivesse viva! Você é um órfão! Seu idiota! Como pôde acreditar em um simples sonho!
Olhei em volta, estava tudo escuro. Estava molhado em suor. O coração acelerado. Vestígios de lágrimas marcavam meu rosto. Estava na mansão Kido. Quis chorar, mas contive as lágrimas. Se eu chorasse, não haveria volta. Não haveria quem as enxugasse a não ser eu mesmo. O relógio marcava 3:38 da madrugada. Era muito tarde pra entrar em depressão. Hoje já seria o dia em que escolheríamos para onde seríamos mandados em nosso treinamento de cavaleiros.
O sonho parecia ser tão real e vivo, os sentimentos, tão claros que fiquei confuso. Seria mesmo minha mãe? Não, era impossível. Era apenas fruto da imaginação. Apenas um delírio de órfão. Apenas uma vista bonita que logo desaparece.
A agitação era tanta que já havia esquecido o sono. Na cama ao lado, ouvi um ruído de cobertores. Será que eu acordei alguém?
"Shiryu?"
O rosto sonolento de Shun mal era visível na noite, mas a voz seria reconhecível em qualquer situação.
"Está chorando?"
Ele observou com dificuldade as marcas em meu rosto um tanto curioso. Era a primeira vez que alguém me via chorar.
"Eu estou bem, não se preocupe."
"Tem certeza?"
Não, não, pare de perguntar, Shun! Se continuar insistindo, aí que vou chorar mesmo! Pare!!
"Sim..."
Esperava que com isso ele voltasse a dormir, mas não foi assim. Shun lançou um olhar tão triste que me abalou. Esperava que eu desse alguma reação, mas eu não poderia deixar que ele me visse fraquejar! Ninguém poderia!!
Mas as lágrimas queriam sair, elas iam sair, e desesperei! Fechei os olhos com força na esperança de impedi-las, mas era tarde demais. Eu havia fraquejado.
"Shiryu, o que houve?"
As palavras de Shun apenas me faziam relembrar o sonho e não ajudavam em nada.
"Shun... Por favor... Pare de perguntar... Está tudo bem comigo..."
Ambos sabíamos que não estava nada bem, mas ele não insistiu. Antes de deitar novamente, Shun lançou mais um olhar triste:
"Shiryu... Se precisar de alguma coisa, pode me acordar..."
Assenti dolorosamente e Shun voltou a dormir, embora preocupado. Pensei em contar-lhe tudo, afinal, Shun também nunca havia conhecido os pais, mas logo desisti. Agora era hora de deixar para trás o fantasma do passado e encarar o futuro. Apenas dessa forma eu sobreviveria. Apenas dessa forma eu viria a um dia, quem sabe, experimentar calor humano de verdade.
Estávamos preparando as nossas malas para partir. Já estava tudo decidido. Eu iria para a China receber o meu treinamento. Fosse qual fosse o lugar, eu não voltaria atrás. De tempo em tempo, Shun discretamente me olhava preocupado. Suas coisas já estavam quase prontas. O irmão, ao seu lado, também reunia seus poucos pertences.
Shun devia estar muito chateado com a decisão de Ikki, que resolvera ir para ilha da Morte em seu lugar, mas mesmo assim, ainda se mostrava preocupado comigo. Era incrível algum dos órfãos demonstrar solidariedade num momento como esse.
"Shun."
"Sim?"
"Você nunca teve chance de conhecer seus pais, não é verdade? Por acaso você já imaginou como eles deveriam ser?"
Shun sorriu:
"Ikki niisan não se lembra deles, então nós imaginamos que eles deviam ser pessoas muito boas."
E mostrando um pendente do pescoço que eu jamais vira:
"Niisan diz que é uma lembrança de nossa mãe. Por isso eu nunca o tiro."
"É muito bonito. E você não sente falta deles?"
"Sinto um pouco, mas niisan está sempre comigo, por isso eu nunca me sinto sozi..."
As palavras de Shun se desfizeram e logo percebi que cometera um estúpido erro. Esse era um assunto delicado e em breve Shun estaria tão sozinho quanto eu. Shun olhou para o chão, triste, e Ikki logo percebeu. Seus olhos fitaram-me com um toque de reprovação:
"Shiryu?"
"Desculpe."
Foi tudo que pude dizer. Ikki me ignorou e tocou o ombro de Shun com compreensão. Os dois puseram-se a conversar baixo e eu sai do quarto para não atrapalhá-los mais ainda. Os irmãos também passavam por maus momentos. Uma mistura de amargura e decepção me invadiu. Vamos lá, Shiryu, fortaleça-se! Não sobreviverá desse jeito! Vá logo para a China e torne-se um homem forte!!
Anos mais tarde, como cavaleiro, Shiryu não apenas contou com calma o sonho ao Shun, mas também ao Ikki, à Shunrei e aos outros companheiros, permitindo que estes apoiassem-lhe o coração. Pela primeira vez algo lhe pareceu mais vivo que o abraço de sua suposta mãe dos sonhos.
A amizade.
*FIM*
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